ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL


DE MÃOS DADAS

Vânia Moreira Diniz*

Vejo como os dias desse ano foram rápidos, embora difíceis em certo sentido para muitos. E com notícias tristes ou alegres, mas principalmente enfatizadas aquelas, que mostram sofrimentos ou dor. Poderíamos simplesmente pensar em esquecer esses fatos, e procurar usufruir apenas as coisas maravilhosas que nos aconteceram.

Sim, isso seria possível se não víssemos o quadro de sofrimento e amargura que se nos apresenta, principalmente para aqueles que tentam fazer uma visita à periferia das cidades. E observar logo que chegamos, a devastação que nos cerca inexoravelmente.

Esse espetáculo sempre me impressionou e jamais consegui me acostumar, com a barbaridade da miséria, falta de recursos médicos, ausência de perspectiva, que se estampa nas pessoas que sofrem essa carência e a dignidade de uma vida, com mínimos recursos de que carece a população.

Nunca, por mais que eu viva poderei entender porque o social, não seria a primeira providência dos governos que já passaram por esse país. Não me digam que não poderão realizar mais. Por favor, não me venham com essa desculpa, quando é possível fazer tudo para mordomias, viagens, cargos altos, aumento no serviço público apenas para poucos privilegiados. Sim porque, na verdade, a grande massa de servidores públicos está numa situação calamitosa.

Desde pequenina ouço falar na melhoria que se deve dar ao pessoal mais necessitado e desde os 12 anos que trabalho com esses meus irmãos necessitados. E só vejo aumentar a fome e a devastação completa. Pelo menos naquela época ainda ficávamos estarrecidos ao observamos uma cena de miséria e de morte em nossos irmãos de caminhada, por desnutrição e falta de alimentos.

É certo, temos direito de usufruir nossas alegrias e vida confortável, as glórias e o sucesso, vitórias e realizações, felicidades, amor, paixão, loucura, dias maravilhosos, o sol a brilhar, as chuvas fertilizadoras, os divertimentos, tudo que nos foi concedido. E como gosto de curtir cada dia da minha vida!
Só não podemos esquecer que uma palavra, uma ajuda a quem nos está próximo já contribuirá para menos sofrimento. Eu sempre digo que se todos ajudarmos a quem está ao nosso lado, formaremos uma corrente material e interior. Estimulante para que existam menos tormentos.

O ano já cumpriu quase todos os seus passos e nossos propósitos deveriam ser de revolta pelo povo que está sendo ofendido com ameaças de ultrajes aos direitos humanos, brutalidade hedionda e guerra urbana, a devastação mais humilhante e degradante que a humanidade pode passar ou sofrer.

Quando pessoas por quaisquer razões são capazes de se matarem impiedosamente, como poderá haver um momento de solidariedade e amor voltado para nossos excluídos? Se não lutamos contra esse tormento como conseguiremos encarar com lealdade ou meiguice, o rosto de uma criança ou pedir que ela nos siga os passos?

Como podemos até mesmo falar de ecologia quando seres humanos estão sendo maltratados e vilipendiados no que de mais sagrado existe, que é a preservação de sua própria vida? Como podemos olhar com indiferença tanto barbarismo? Tanta maldade?

Dormiremos com mais tranqüilidade se estendermos as mãos sempre para quem precisa de nós e isso inclui pessoas que estejam no momento, sofrendo qualquer tipo de dor. Temos que pensar que a vida é provisória, que tudo passa, e que para sermos realmente felizes teremos que caminhar de mãos dadas.
De mãos dadas, sempre, de mãos dadas!

É a única forma de nos sentirmos realmente humanos!
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*Humanista. Escritora. Doutora em Filosofia Univérsica. Presidenta da ALB/DF.