ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL
ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL/PARANÁ
Presidente Dr. José Feldman - Ph.I.
Recebido pela Presidência Nacional em 18 de novembro de 2009.
O escritor Feldman, é um divisor de águas na história da ALB, e por sua força e determinação, haverá de marcar profundamente também a história de nosso país. Feldman é o exemplo concreto de uma cultura ativa, participativa e viva, com poder de inferência e redirecionamento do que seria conteúdo nas páginas da história de nosso país. Minha admiração por Feldman é incondicional (Mário Carabajal, 18nov09).
Redirecionado à presidência ALB/Rio de Janeiro e publicação em 18nov09.
Sugestão de indicação à ALB/Rio de Janeiro, sob a presidência do Imortal, Dr. Nelson Maia Schocair - Ph.I.
Pelo seu currículo, pela sua coragem, pela sua batalha, pelo que foi
e pelo
que é e pelo que sempre será, merece um destaque especial. Um
exemplo para
todos nós, brasileiros (Feldman, novembro, 2009).
Eliane Potiguara
Eliane é escritora indígena, professora, mãe, avó,
58 anos, remanescente
Potiguara. É Conselheira do Inbrapi (Instituto Indígena de Propriedade
Intelectual) e Coordenadora da Rede de Escritores Indígenas na Internet
e o
Grumin/Rede de Comunicação Indígena.
Eliane foi indicada para o Projeto internacional Mil Mulheres Para o Prêmio
Nobel da Paz. É uma das 52 brasileiras indicadas.
Formada em Letras (Português-Literatura), licenciada em Educação
pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro, participou de vários seminários
sobre Direitos Indígenas na Onu, organizações governamentais
e Ongs
nacionais e internacionais.
Eliane Potiguara foi nomeada uma das “Dez Mulheres do Ano de 1988”,
pelo
Conselho das Mulheres do Brasil, por ter criado a primeira organização
de
mulheres indígenas no país: Grumin (Grupo Mulher-Educação
Indígena), e por
ter trabalhado pela Educação e integração da mulher
indígena no processo
social, político e econômico no país e por ter trabalhado
na elaboração da
Constituição Brasileira. Com a bolsa que conquistou da ASHOKA
em 1989
(Empreendedores Sociais) mais seu salário de professora e o apoio de
Betinho/IBASE e os recursos do Programa de Combate ao Racismo, (o mesmo que
apoiava Nelson Mandela ), ela pôde prosseguir sua luta, além de
sustentar e
cuidar de seus três filhos, hoje adultos.
Em 1990, foi a primeira mulher indígena a conseguir uma PETIÇÃO
no 47º. Congresso dos Índios Norte-Americanos, no Novo México,
para ser
apresentada às Nações Unidas. Neste Congresso, havia mais
de 1500 índios.
Por isso, participou durante anos, da elaboração da ”Declaração
Universal
dos Direitos Indígenas”, na ONU, Genebra, por essa razão
recebeu em 96 , o
título “Cidadania Internacional”, concedido pela filosofia
Iraniana
“Baha´i”, que trabalha pela implantação da Paz
Mundial.
Defensora dos Direitos Humanos, além de vários Encontros, e
criadora do primeiro Jornal Indígena e Boletins conscientizadores e cartilha
de alfabetização indígena no método Paulo Freire
com apoio da Unesco,
organizou em Nova Iguaçu/RJ, em 91 outro Encontro inédito e histórico,
onde
participaram mais de 200 mulheres indígenas de várias regiões,
tendo como
convidados especiais a cantora Baby Consuelo e vários líderes
indígenas
internacionais. Organizou vários cursos referentes à Saúde
e Diretos
reprodutivos das mulheres indígenas e foi consultora de outros encontros
sobre o tema.
Em 92 foi Co-Fundadora/Pensadora do Comitê Inter-Tribal 500 Anos
(kari-oka), por ocasião da Conferência Mundial da ONU sobre Meio-Ambiente,
junto com Marcos Terena, Idjarruri Karajá e muitos outros líderes
do país,
além de ter participado de dezenas de Assembléias indígenas
em todo o país.
Discutiu a questão dos Direitos Indígenas em vários fóruns
nacionais, e internacionais, governamentais e não governamentais, diversas
diretrizes, estratégias de ordem político-econômica, inclusive
no fórum
sobre o Plano Piloto para a Amazônia, em Luxemburgo/1999.
No final de 92, por seu espírito de luta, traduzido em seu livro
“A Terra é a Mãe do Índio”, foi premiada pelo
PEN CLUB da Inglaterra, no
mesmo momento em que Caco Barcelos (“Rota 66”) e ela estavam sendo
citados
na lista dos “Marcados para Morrer”, anunciados no Jornal Nacional
da Rede
Globo de Televisão, para todo o Brasil, por terem denunciado esquemas
duvidosos e violação dos direitos humanos e indígenas.
Em 95, na China, no Tribunal das Histórias não contadas e
Direitos Humanos das Mulheres/Conferência da ONU, Eliane Potiguara narrou
a
história de sua família que emigrou das terras paraibanas nos
anos 20 por
ação violenta dos neo-colonizadores e as conseqüências
físicas e morais
desta violência à dignidade histórica de seu bisavô,
avós e descendentes.
Contou também o terror físico, moral e psicológico pelo
qual passou ao
buscar a verdade, além de sofrer abuso sexual, violência psicológica
e
humilhação por ser levada pela polícia federal, por estar
defendendo os
povos indígenas, seus parentes, do racismo e exploração.
Seu nome foi jogado
na lama nos jornais do Estado da Paraíba. Tudo isso à frente de
suas três
crianças na época.
Eliane no último governo foi Conselheira da Fundação
Palmares/Minc, é FELLOW da organização internacional ASHOKA,
dirigente do
Grumin e membro do Women´s Writes World. Eliane participou de 56 fóruns
internacionais e para mais de 100 nacionais culminando na Conferência
Mundial contra o Racismo na África do Sul, em 2001 e outro fórum
sobre Povos
Indígenas em Paris, 2004.
Eliane é do Comitê Consultivo do Projeto Mulher_ 500 anos atrás
dos panos
que culminou no Dicionário Mulheres do Brasil.
É autora do livro ‘Metade cara, metade máscara, Global,
pela GLOBAL EDITORA
que aborda a questão indígena no Brasil.
Identidade Indígena
Em memória ao índio Chico Sólon
O texto é o testemunho das lágrimas de uma indígena vendedora
de bananas,
sua avó a refugiada Maria de Lourdes de Souza, filha do índio
Chico Sólon,
desaparecido das terras indígenas paraibanas por volta de 1920, quando
se
instalava ali, a neocolonização da agricultura algodoeira causando
a fuga de
famílias indígenas, oprimidas pela escravidão moderna.
Nosso ancestral dizia: Temos vida longa!
Mas caio da vida e da morte
E range o armamento contra nós.
Mas enquanto eu tiver o coração acesso
Não morre a indígena em mim e
E nem tão pouco o compromisso que assumi
Perante os mortos
De caminhar com minha gente passo a passo
E firme, em direção ao sol.
Sou uma agulha que ferve no meio do palheiro
Carrego o peso da família espoliada
Desacreditada, humilhada
Sem forma , sem brilho, sem fama.
Mas não sou eu só
Não somos dez, cem ou mil
Que brilharemos no palco da História.
Seremos milhões unidos como cardume
E não precisaremos mais sair pelo mundo
Embebedados pelo sufoco do massacre
A chorar e derramar preciosas lágrimas
Por quem não nos tem respeito.
A migração nos bate à porta
As contradições nos envolvem
As carências nos encaram
Como se batessem na nossa cara a toda hora.
Mas a consciência se levanta a cada murro
E nos tornamos secos como o agreste
Mas não perdemos o amor
Porque temos o coração pulsando
Jorrando sangue pelos quatro cantos do universo.
Eu viverei 200, 500 ou 700 anos
E contarei minhas dores pra ti
Oh!!! Identidade
E entre uma contada e outra
Morderei tua cabeça
Como quem procura a fonte da tua força
Da tua juventude
O poder da tua gente
O poder do tempo que já passou
Mas que vamos recuperar.
E tomaremos de assalto moral
As casas, os templos, os palácios
E os transformaremos em aldeias do amor
Em olhares de ternura
Como são os teus, brilhantes, acalentante identidade
E transformaremos os sexos indígenas
Em órgãos produtores de lindos bebês guerreiros do futuro
E não passaremos mais fome
Fome de alma, fome de terra, fome de mata
Fome de História
E não nos suicidaremos
A cada século, a cada era, a cada minuto
E nós, indígenas de todo o planeta
Só sentiremos a fome natural
E o sumo de nossa ancestralidade
Nos alimentará para sempre
E não existirão mais úlceras, anemias, tuberculoses
Desnutrição
Que irão nos arrebatar
Porque seremos mais fortes que todas a células cancerígenas juntas
De toda a existência humana.
E os nossos corações?
Nós não precisaremos catá-los aos pedaços mais ao
chão!
E pisaremos a cada cerimônia nossa
Mais firmes
E os nossos neurônios serão tão poderosos
Quanto nossas lendas indígenas
Que nunca mais tremeremos diante das armas
E das palavras e olhares dos que “chegaram e não foram”.
Seremos nós, doces, puros, amantes, gente e normal!
E te direi identidade: Eu te amo!
E nos recusaremos a morrer
A sofrer a cada gesto, a cada dor física, moral e espiritual.
Nós somos o primeiro mundo!
Aí queremos viver pra lutar
E encontro força em ti , amada identidade!
Encontro sangue novo pra suportar esse fardo
Nojento, arrogante, cruel...
E enquanto somos dóceis, meigos
Somos petulantes e prepotentes
Diante do poder mundial
Diante do aparato bélico
Diante das bombas nucleares
Nós, povos indígenas
Queremos brilhar no cenário da História
Resgatar nossa memória
E ver os frutos de nosso país, sendo dividido
Radicalmente
Entre milhares de aldeados e “desplazados”
Como nós.
Eliane Potiguara
Texto do livro “METADE CARA, METADE MÁSCARA”
O site dela é
http://www.elianepotiguara.org.br/home.html
Eliane foi casada com o falecido cantor Taiguara, que considero um dos
maiores poetas do Brasil. Compositor e cantor, era filho do
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Bandoneon>
Bandoneonista e
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Maestro>
Maestro
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Ubirajara_Silva>
Ubirajara Silva.
Considerado um dos símbolos da resistência à
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Censura>
censura durante a
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Ditadura_militar>
ditadura militar brasileira,
Taiguara foi um dos compositores mais censurados na historia da
<http://pt.wikipedia.org/wiki/MPB>
MPB, tendo cerca de 100 canções vetadas.
Os problemas com a <http://pt.wikipedia.org/wiki/Censura>
censura
eventualmente levaram Taiguara a se auto-exilar na
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Inglaterra>
Inglaterra em meados de
<http://pt.wikipedia.org/wiki/1973>
1973. Em
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Londres>
Londres, estudou no
<http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Guildhall_School_of_Music_and_Dra
ma&action=edit&redlink=1> Guildhall School of Music and Drama
e gravou o Let
the Children Hear the Music, que nunca chegou ao mercado, tornando-se o
primeiro disco estrangeiro de um brasileiro censurado no Brasil.
Em <http://pt.wikipedia.org/wiki/1975>
1975, voltou ao Brasil e gravou o
Imyra, Tayra, Ipy - Taiguara com
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Hermeto_Paschoal>
Hermeto Paschoal,
participação de músicos como <http://pt.wikipedia.org/wiki/Wagner_Tiso>
Wagner Tiso, <http://pt.wikipedia.org/wiki/Toninho_Horta>
Toninho Horta,
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Nivaldo_Ornelas> Nivaldo Ornelas,
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Jacques_Morelenbaum>
Jacques Morelenbaum,
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Novelli>
Novelli,
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Z%C3%A9_Eduardo_Naz%C3%A1rio>
Zé Eduardo
Nazário, <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ubirajara_Silva>
Ubirajara Silva e
uma <http://pt.wikipedia.org/wiki/Orquestra_sinf%C3%B4nica>
orquestra
sinfônica de 80 músicos. O espetáculo de lançamento
do disco foi cancelado e
todas as cópias foram recolhidas pela ditadura militar em poucos dias.
Em
seguida, Taiguara partiu para um segundo auto-exílio que o levaria à
<http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81frica>
África e à
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Europa>
Europa por vários anos.
O cantor Taiguara, esposo Eliane, faleceu de câncer em 1996, com 51 anos de idade.
Que as Crianças Cantem Livres
Composição: Taiguara
O tempo passa e atravessa as avenidas
E o fruto cresce, pesa e enverga o velho pé
E o vento forte quebra as telhas e vidraças
E o livro sábio deixa em branco o que não é
Pode não ser essa mulher o que te falta
Pode não ser esse calor o que faz mal
Pode não ser essa gravata o que sufoca
Ou essa falta de dinheiro que é fatal
Vê como um fogo brando funde um ferro duro
Vê como o asfalto é teu jardim se você crê
Que há sol nascente avermelhando o céu escuro
Chamando os homens pro seu tempo de viver
E que as crianças cantem livres sobre os muros
E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor
E que o passado abra os presentes pro futuro
Que não dormiu e preparou o amanhecer...
Um forte abraço
Do amigo Feldman