ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL

 

Cartas à Justiça

*João Brainer Clares de Andrade



Por que derramas sobre a face de gentis lágrimas ácidas, deteriorantes?
Sobre o coração aflito de tuas vítimas (Sim. Teus defendidos se tornaram vítimas!) cravas um punhal que até o tempo terá dificuldade em tirar.
Cravado, e, a cada dia, vendo tua inércia, respinga ainda mais dor...
Por que és tão cruel quando, na verdade, deverias ser serena e dar alento aos corações aflitos?
A teus pés, ouve meu grito, ouve minha clemência. Se cega estás, aguça, ao mínimo, os ouvidos e escuta minha voz: desprende tuas mãos, solta a espada da burocracia e abre teus braços para receberes teu povo. Livra da miséria os miseráveis que vêem em ti um solo inalcançável. Ó, Justiça, se não vês teus filhos, escuta-os ao menos. Afaga tuas crianças que perderam os pais e conforta o coração de uma pobre mãe que vela seus filhos...
Ser justa saiu de teu vocabulário. És complicada em essência. Não soltas tua espada em sinal de autoridade, mas poderias abandoná-la em um nobre sinal pacífico. Ensina , Justiça, teus filhos a abolir o fogo e a buscar a Paz. Sê justa até com os animais, que, em nome de algumas cifras alheias, têm suas moradas sucumbidas. Enxágua os secos solos das veredas sertanejas, colore de verde a labuta do pobre lavrador e sacia a fome de tantos de teu povo.
Sê justa, Justiça.
Derrama tua esperança aos entregues à depressão da impunidade. Sê justa com os aflitos, que, não podendo mudar o que passou, agora, pedem tua presença. Comparece às instâncias. Sê pão, sê vinho e sê vitória aos que te vêem com fome. Sê justa com os que não o são com o próximo. Protege tuas crianças do trabalho e da exploração.
Sê justa com a inocência infantil. Cega a mira do canhão certeiro pronto para devastar mais uma família. Estende um manto a aquecer a esperança dos experientes senhores que, sob chuva, ainda dormem nas esquinas frias. Escuta e reage, Justiça, ao soar traiçoeiro das balas, que, antes perdidas, encontram o destino em milhares de inocentes.
Preserva, ó Justiça, junto a ti teus filhos a salvo!
Sobre teu assento, edificaram-te como monumento. Prenderam tuas pernas e imobilizaram teus braços. Em concreto, imprimiram-te um único e pétreo semblante.
Teu coração, antes jovem e pulsante, agora é, tal qual és tu: pedra.
Justiça, arranca a fita negra que te cega. Abre teus olhos para o mundo, solta tua espada pesada, abre os braços, escuta teu povo e salva teus filhos. Sê justa com quem precisa e mais ainda com quem deve aos próprios Homens.



*Presidente da ALB/Ceará. Acadêmico de Medicina.