ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL
Triste Horizonte
Vânia Moreira DinizOntem pela manhã percorri de carro uma distância razoável como todos os
sábados e indo até à periferia da cidade, visitar meus protegidos. Pensei em
como Brasília era modernamente linda, com suas lindas retas, seus prédios
mais baixos em uma região e mais altos em outros, sua linhas
arquitetônicas, a natureza intensamente verde, árvores com folhas e flores a
nos colorir e o horizonte maravilhoso.O horizonte da capital sempre me impressionara alucinantemente. Parecia que
o céu muito azul descia até à terra com um cor amarelada e chamejante.E isso
me fascinava. Ouvia a música dos pássaros e desejava que eu também pudesse
acompanhá-los no canto e na escalada que eles empreendiam pelos
espaço.Desejava sentir nesse momento essas sensações e meu coração batia
acelerado ao imaginar-me no ar.Com os pensamentos misturando-se todos na minha cabeça e ao mesmo tempo
pensando quanto tempo faltava para chegar ao meu destino, dei-me conta que
tantos pensamentos poéticos coincidiam sempre com meu estado de espírito.Acho que em geral isso ocorre com a maioria das pessoas. A natureza sempre
é um complemento da alma, como se precisássemos agradecer tudo que nos
cerca em beleza e colorido. E então eu usufruía cada momento daquela manhã.
Subitamente vi que já estava na parte mais pobre da cidade e sem entender
porque agora percebia com mais força, como era diferente tudo ali naquele
lugar que deveria gozar das mesmas regalias da região mais privilegiada.Olhando com atenção vi como tudo parecia mais triste, muitas ruas sem
asfalto e mesmo as asfaltadas tinham o aspecto triste. Talvez fosse porque
o sol hoje não estava tão brilhante ou o tempo carecia de um pouco de
luminosidade. Mas claro que não era já que durante todo o meu trajeto eu
percebera justamente o contrário.Logo pude entender o que fazia aqueles lugares melancólicos.As crianças
brincavam e podíamos notar que a maioria delas tinham o sinal da tristeza
que uma vida dura cedo lhes impusera. Era a tristeza de estarem ali mal
alimentadas, brincando na sujeira que a chuva deixara, a barriguinha
grande mostrando que algo não estava bem, os ossinhos aparecendo, e a
tristeza nos rostos magros e sem cor.Sim era isso, como poderia a natureza florescer e estar colorida num
lugar que crianças e adultos, sofriam a indignidade da fome, do
sofrimento e da miséria?Como o sol podia estar luminoso e tão agradavelmente quente se eles
precisavam de alimento e condições para que pudessem apreciar o
planeta maravilhoso e esplêndido e se a maior obra da terra era o
ser humano que ali víamos sem o viço que deveriam ter ?Parei o carro e enquanto carinhosamente abria a porta para que
algumas crianças viessem se abrigar nele, meu olhar ficava perdido na
linha escura do horizonte.