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Eduardo de Paula Barreto (O Poetizador)
ANTÍDOTO
(CORDEL COM 40 ESTROFES)
Numa manhã chuvosa,
Convite para ficar dormindo,
Mas a fome impiedosa
O acorda no preguiçoso domingo.
Lava-se com certa pressa,
Desce as escadas tremendo,
Por descuido tropeça,
Continua mesmo com o pé doendo.
Fala bom dia para os colegas,
Pára debaixo da soleira,
Depara-se com a chuva que não dá trégua,
Que parece ter vindo para a manhã inteira.
Apesar de a rua estar absolutamente deserta,
Com enxurradas e escorregadia,
Ele, movido pela fome que aperta,
Resolve encarar a chuva e ir até a padaria.
Depois de uma travessia sofrida,
Chega no comércio encharcado,
Recebe do dono um irônico bom dia,
Quando ouve: – Acho que vais ficar resfriado.
– Vai, use esta toalha, se seque,
Enrole jornais em seus pés
E enquanto você se aquece
Tome este quentinho café.
O nome do velho homem molhado era João,
O qual se encostou no vidro,
Olhando para fora teve uma visão,
Na soleira da pensão se viu como um menino.
Ele via um dia lindo
Que o convidava para sair.
A luz do sol o ia perseguindo,
Era como se ela também quisesse se divertir.
Era uma infância sem manchas,
Em que o único tempo era o próprio dia,
O sentimento que imperava era a esperança
E a planta a ser cultivada era a alegria.
A rua agora era de terra,
Nas casas não havia televisão.
O período de aulas era uma espera
Pelos doces momentos de recreação.
Unidos em grupos se armavam,
Uns eram heróis e outros bandidos.
Em cavalos de pau montavam,
Com espadas de plástico se sentiam destemidos.
Seus sonhos eram utópicos,
Mas utopia para eles não existia.
Limitação era apenas um dos tópicos
Que facilmente cada um deles vencia.
João crescia sem saber
O que era a inimizade
E pagava qualquer preço só para ter
Um novo momento de felicidade.
Construía castelos com suas mãos,
Fazia riozinhos com os dedos,
Desconhecia a palavra solidão,
Só histórias de terror lhe causavam medo.
De certa feita,
No momento do almoço
Rompeu-se a reunião perfeita,
Aconteceu um alvoroço.
Fernando, o pai,
Agrediu sua esposa Sueli com as mãos,
Que, em meio a tantos ais,
Ficou estatelada no chão.
João criou coragem,
Decidiu tomar partido,
Mas foi pura bobagem,
Junto com a mãe também foi agredido.
Não era a primeira vez
Que isso acontecia,
Sempre que vitimado pela embriaguez,
Seu pai, sem motivos, em todos batia.
Já aos treze, meio adulto,
Resolveu seguir o seu caminho,
Prometeu a si mesmo ver-se livre destes insultos,
Pegou suas coisas e saiu de fininho.
Era manhã quando perceberam
Que o seu único filho havia sumido
E logo reconheceram
Que além de trapos, o garoto levara um coração partido.
Nunca mais ouviram falar do menino
E os anos se passaram rapidamente,
O pai, sentindo-se culpado em seu íntimo,
Abandonou o vício definitivamente.
Mas o dano já havia sido causado,
A família agora era pequena.
O menino estava presente só nos retratos
E nas imagens que a mente encena.
O menino sofreu discriminação,
Criou-se sozinho, aprendeu pelas experiências,
Cresceu sabendo o que é privação,
Despojado de tudo, aprendeu a valorizar a essência.
Trabalhava numa boa empresa,
Se acomodava num confortável apartamento,
Tinha fartura sobre a mesa
E pureza no pensamento.
Foi linda a solenidade
Da entrega dos diplomas,
Neste momento bateu a saudade,
Cavalo que não se doma.
Imaginou o abraço dos pais,
Com o peito cheio de emoção,
Mas voltando às circunstâncias reais,
Contentou-se com a sua condição.
Tornou-se doutor cardiologista,
Um capacitado profissional,
Julgou com isso descobrir a pista
Que o revelaria como eliminar o mal.
Julgava que no coração
Existisse o ninho do amor
E que com carinho e dedicação,
Seria capaz de destruir a dor.
Foram inúteis as tentativas
De descobrir uma maneira
De transformar meras expectativas
Em uma técnica verdadeira.
Para quem mostrar o diploma?
Com quem compartilhar a alegria?
De que valeu derrubar à lona
Os infortúnios que imperaram um dia?
Não se orgulhava tanto das conquistas,
As utilizava apenas para seguir,
Caminhando vislumbrando no fim da pista,
A paz de espírito, algo tão difícil de se conseguir.
Conheceu uma moça especial,
Por quem se apaixonou,
Em pouco tempo, ao som da marcha nupcial,
Eternos laços traçou.
Foram momentos inesquecíveis,
Realização de antigos sonhos.
Sensações variadas, incríveis,
Esquecimento provisório do abandono.
Logo surgiu o primeiro filho,
Garoto forte, cheio de luz,
O qual foi criado sobre seguros trilhos,
Menino bonito de olhos azuis.
Outros vieram em seguida,
Formou-se então uma família linda,
Sempre mantendo como regra de vida,
Superar todos os obstáculos estando unida.
Mas certo dia decidiu
Que tentaria mudar o passado,
Beijou a esposa e filhos e saiu
Dizendo ter encontrado o que havia procurado.
Depois de intensa busca
Descobriu onde os pais moravam
E batendo na porta com coragem minúscula,
Os viu, então os três não se moveram, só se olharam.
Passaram-se alguns momentos,
Então conseguiram se abraçar
E, em meio a choros de contentamento,
Conseguiram se perdoar.
Agora João era um médico realizado,
Com a família toda junta disse com vigor:
– Pai, descobri o remédio o qual tenho buscado,
Sei que o perdão é o antídoto para a dor.
A chuva decidiu parar,
Aí então o velho Dr. João voltou para o pequeno hotel,
Mas encontrou uma porção de gente a chorar,
Olhou-se, e percebeu estar do outro lado do véu.