ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL
Itapuá de minha infância
FRANCISCO DE PAULA MELO AGUIAR
ADVOGADO - EDUCADOR
Na última semana visitei os escombros do Engenho Itapuá, localizado
a margem direita de quem desce e a margem esquerda de quem sobe o Rio Paraíba
no sentido João Pessoa x sertão paraibano. Estive na antiga Escola
Elementar Mista do Engenho Itapuá, onde no período de 1958 a 1962
estudei o antigo curso primário, naquela época a referida escola
era administrada pela diretora e professora Beatriz Lopes Pereira, a popular
"BIÁ", tendo como professoras auxiliares Maria do Céu
(parenta dela) e Regina. Naquele tempo, a citada escola servia de "modelo"
pedagógico e educacional para a juventude rural da localidade e dos engenhos,
fazendas e sítios circunvizinhos. Lembrei-me de que aqui estudou e não
leu o pau comeu, a palmatória falava no centro para os alunos que não
davam a lição. Era o meu caso e do mano José, pois, nós
morávamos com nossos pais Sebastião José de Aguiar (Sebastião
Vieira) e Maria do Carmo Melo Aguiar, em um sítio da propriedade deles,
denominado Pajuçara, encravado hoje nas terras dos assentamentos de reforma
agrária de Maraú. Vale lembrar que meu pai vendeu o sitio no inicio
dos problemas de invasões de terras no vale do Paraíba. Bem, lá
no Itapuá, voltei a visitar a igreja onde em 11 de novembro de 1958 fiz
minha primeira comunhão administrada pelo Padre Manuel Gomes, da Paróquia
de Nossa Senhora do Pilar/Pb. Avistei na parte interna da referida igrejinha
o tumulo de Henrique Vieira de Melo, que data de 1925 seu falecimento, e a modesta
sepultura de Maria Lins Vieira de Melo, trata-se da figura honrada e histórica
de "Maria Menina" do livro Menino de Engenho, escrito por seu sobrinho
José Lins do Rego Cavalcanti. Os santinhos da igreja da época
de minha primeira comunhão já não são os mesmos,
pois, os meus olhos viam no passado eles tão bonitinhos... e hoje avistei-os
tão feinhos..., sujos, cheios de teias de aranha, sem brilho, casas de
maribondos por todos os lados... o madeiramento e telhado da secular igreja
que já serviu a mim para fazer a primeira comunhão e assistir
missas com meus pais, meus irmãos, meus amigos, meus professores e meus
parentes um dia, agora encontra-se ameaçado e prestes a ruínas.
Nada posso fazer, pois, trata-se de propriedade privada e pertencente a terceiros.
A minha memória lembrou também o apito do trem da Rede Ferroviária
Federal, procurei a "parada" ou seja a "estação
do trem do Itapuá", a mesma foi derrubada, nem a história
para contar, apenas existem as marcas dos alicerceres que sobraram, enquanto
os trilhos, uma espécie de dois irmãos sem interação
social de qualquer espécie, continuam como que desfilando em sua frente
e ainda passam trens de cargas com destino ao Recife e ao interior da Paraíba,
isto de vez em quando, segundo me informou moradores do assentamento da reforma
agrária lá existentes. É, os tempos são outros,
os novos moradores das terras do Itapuá, precisam saber que no dia 28
de dezembro de 1983 foi inaugurada com trilhos a E. F. Conde D'Eu (1883-1901),
que mudou o nome para Great Western (1901-1950); Rede Ferroviária do
Nordeste (1950-1975); e chamou-se de RFFSA (1975-1997). Na verdade a linha está
ativa até hoje sob o controle da CFN, que obteve a concessão da
malha Nordeste em 1996, mas trens de passageiros não circulam mais por
essa linha desde os anos 1980, motivo pelo qual a população que
reside atualmente na região nada sabe a respeito do progresso que já
existiu em tais localidades, a exemplo do Itapuá/São Miguel de
Taipu/Pb e outras áreas do vale do Paraíba, pois, somente lendo
a obra literária de José Lins do Rego, será possível
remontar o tempo na história.
Estive na casa grande do Itapuá, a mesma encontra-se em estado deplorável
em relação de como a mesma era nos idos anos de 1960, nem parece
que um dia a referida edificação serviu de palco para a filmagem
das senas do filme MENINO DE ENGENHO, além de ter servido como uma das
casas grandes que serviu de inspiração a Zé Lins do Rego
na primeira metade do século XX para escrever o próprio romance
de igual nome. Vale ressaltar que na frente da casa grande do Itapuá
ainda encontra-se botando frutos, o pé de tamarindo de minha infância,
sinal de algum tipo de vida, embora que vegetal.
Em seguida procurei adentrar nos escombros do engenho Itapuá, verifiquei
que lá não existe mais a fonte de água encanada no pátio
do referido engenho, o casarão que cobria as instalações
e máquinas encontra-se totalmente nos escombros. O bueiro encontra-se
em pé, porém, sua constituição aos poucos caindo
como lã de algodão que passa do ponto de ser apanhado. Na verdade
a força do vento aos poucos está destruindo tudo... A casa do
cinema do Itapuá como era chamada, encontra-se igualmente em ruínas.
A casa do administrador e o pomar, também o tempo acabou. O cemitério
localizado aos fundos da igreja do Itapuá, também em ruinas, seus
muros já estão tropos como se estivem tomado uma carraspana de
cachaça de cabeça, inclusive nota-se que continuam lá dormindo
em paz, os falecidos parentes e aderentes dos seus ex-proprietários.
O prédio do barracão é o único imóvel que
parece ainda boas condições. O secador de açúcar,
localizado entre o engenho, o barracão e a igreja, não existe
mais.
O palacete malassombrado do coronel Sulino, para uns, ou Ursulino, para outros,
dono do Itapuá, na época da escravidão negra brasileira,
que existia na minha infância entre o chafariz de água e o prédio
da escola onde eu estudava, só tem parte do alicerce, foi totalmente
derrubado e com ele lá se foi parte da história da escravidão
na Paraíba, e até porque alguém já afirmou que o
povo brasileiro tem memória curta.
Não tive noticias da negra Maria Brum e de seus descentes, na verdade
o Itapuá de minha infância escolar já não existe
mais.