Psicanálise e neurociência: um diálogo possível?
Psychoanalysis and
Neuroscience: a possible
approach?
Resumo: Embora Freud tenha iniciado sua carreira
como neuroanatomista e neurologista, psicanálise e
neurociência sempre estiveram muito distantes uma da
outra. Uma aproximação entre essas disciplinas poderia
proporcionar à psicanálise uma validação objetiva,
científica, de suas teorias. Por outro lado, tal
aproximação também seria importante para a neurociência,
que se beneficiaria da larga experiência da psicanálise
nos campos da afetividade e da subjetividade. Neste
artigo, algumas teorias psicanalíticas - sobre os
sonhos, a repressão, as relações objetais precoces, o
ego, a ansiedade e o inconsciente - são discutidas à
luz das recentes descobertas neurocientíficas.
Conclui-se que uma integração entre as perspectivas
subjetiva e objetiva da psicanálise e da neurociência,
respectivamente, poderia levar a uma compreensão mais
ampla e profunda da mente.
Abstract: Although Freud had initiated his career
as a neuroanatomist and a neurology practitioner,
psychoanalysis and neuroscience were always so far from
each other. An approximation between these disciplines
might provide an objective and scientific validation to
the theories of psychoanalysis. On the other hand, such
an approximation would be important to the neuroscience,
since this discipline would benefit from the large
experience of psychoanalysis in the fields of affection
and subjectivity. In this article, some psychoanalytic
theories - about dreams, repression, early object
relationships, the ego, anxiety and the unconscious -
are discussed in the light of recent neuroscientific
discoveries. It's concluded that an integration between
subjective and objective outlooks, respectively, of
psychoanalysis and neuroscience, might lead to a broader
and deeper understanding of the mind.
INTRODUÇÃO
Embora o estudo dos fenômenos mentais seja algo
compartilhado pela psicanálise e pela neurociência, a
idéia de uma aproximação entre essas disciplinas é
repudiada pela maior parte tanto dos psicanalistas como
dos neurocientistas.(3,61) De fato, as relações entre
elas têm sido marcadas por uma reciprocidade de descrédito,
desvalorização, e desprezo. Durante a segunda metade
do século XX, psicanálise e neurociência colocaram-se
praticamente em lados opostos, como se fossem adversárias.(54,67)
De um lado, muitos psicanalistas - especialmente os que
vêem a psicanálise como uma disciplina hermenêutica -
levaram a psicanálise a uma situação de isolamento
frente às diversas outras disciplinas que se ocupam da
mente humana.(13,31,54) De acordo com essa visão, a
psicanálise deveria interessar-se unicamente pelos
conteúdos mentais e pelo que acontece no setting analítico.(41)
Além disto, a psicanálise não deveria ter qualquer
compromisso com as ciências naturais: um ancoramento na
biologia e o emprego do método experimental seriam
totalmente inadequados para a psicanálise.(2,13,26,31,67)
Em contrapartida, para os neurocientistas em geral, a
psicanálise é algo inteiramente não-científico e
irrelevante.(67)
Todavia, psicanálise e neurociência já estiveram
muito próximas. Sigmund Freud, o pai da psicanálise,
iniciou sua carreira como neuroanatomista e neurologista
e, até o final de sua vida, jamais abandonou a idéia
de que os fenômenos mentais possuem um substrato biológico.(26,53,58)
Em um dos seus últimos trabalhos - Esboço de Psicanálise(23)
- ele ainda afirmava que a psicanálise deveria
"ocupar seu lugar como uma ciência natural como
qualquer outra".
Freud trabalhou nos laboratórios do fisiologista Ernst
Brücke e do neuroanatomista e psiquiatra Theodor
Meynert, e atuou com neurologista no hospital geral de
Viena. Antes de criar a psicanálise, escreveu
monografias sobre a paralisia cerebral infantil e sobre
a afasia.(25,53)
Em 1895, Freud escreveu o Projeto para uma
psicologia científica(16) , só publicado após a
sua morte - em que ambicionava tornar a psicologia um ciência
natural.(25) Trata-se de uma teoria geral do psiquismo
humano - normal e patológico - , escrita em uma
linguagem neurológica. O projeto baseia-se em
modelos da Termodinâmica(34) e Mecânica dos Fluidos em
sistemas conservativos (sistemas onde a energia sempre
se conserva) e nos conhecimentos científicos ainda
muito rudimentares da época. O neurônio já tinha sido
descrito anatomicamente, por Cajal e Waldeyer, poucos
anos antes,(60) mas, em 1895, essa descoberta ainda era
cercada de muita controvérsia.(51) Freud construiu uma
neuropsicologia extremamente especulativa(38), e talvez
pela falta de uma sólida base empírica, tenha decidido
pela não-publicação da obra. Todavia, algumas dessas
especulações são hoje em dia consideradas previsões
espantosas. Por exemplo, Freud imaginou a existência de
"barreiras de contato" entre os neurônios, o
que corresponde diretamente ao que Sherrington iria
descrever e chamar de "sinapse" em 1897,
portanto dois anos depois do projeto; e ainda descreveu
mecanismos de "facilitação" da transmissão
da energia nervosa na formação das memórias.(53,54,63)
Além disto, muitos autores encontram no projeto
diversos conceitos e modelos que agora são adotados
pela psicologia cognitiva e pela neurociência
computacional.(32,52,63)
Ao mesmo tempo em que o projeto
tem despertado o interesse dos neurocientistas de hoje,
ele também é considerado um precursor da
metapsicologia freudiana. Nele já se encontram vários
dos principais conceitos psicanalíticos, como
"energia psíquica" ["energia
nervosa"], "processo primário" e
"processo secundário", "ego" e
"regressão". Observa-se uma clara correlação
entre o modelo proposto no projeto e a teoria do
aparelho psíquico contida no capítulo VII da
Interpretação dos Sonhos.(39,51,54,63) Grande
parte da teoria psicanalítica já estava lá, de modo
que só foi possível compreender razoavelmente os
artigos metapsicológicos após a publicação do
projeto.(2)
EM
QUE A NEUROCIÊNCIA PODE AJUDAR A PSICANÁLISE?
Não se pode afirmar que a psicanálise represente um
corpo teórico homogêneo e coerente. Na verdade,
existem várias psicanálises. Há evidentes divergências
entre as numerosas escolas psicanalíticas, mesmo quanto
a conceitos considerados fundamentais.(15) Entre algumas
das mais importantes formulações teóricas
encontram-se profundas contradições e
incompatibilidades.(26,29) No percurso da psicanálise,
as inovações teóricas via de regra não substituíram
as concepções anteriores, mas sobrepuseram-se a
estas.(15,29)
A fragmentação da psicanálise e a excessiva
proliferação de teorias parecem decorrer de a uma opção
pela pesquisa clínica, restrita ao setting analítico,
em detrimento da utilização do método experimental.
Para Kandel,(31) o método psicanalítico mostrou-se
muito fértil na produção de hipóteses científicas,
mas, ao mesmo tempo, pouco eficaz em testá-las. Ainda
segundo ele, a escuta de pacientes individuais, depois
de mais de cem anos, parece ter chegado ao seu limite
como fonte de novas idéias. Além disso, a situação
analítica não parece adequada para a validação científica
da teoria, em função da multiplicidade de elementos não
controlados, que são basicamente subjetivos,(26,31)
sendo bastante questionável a imparcialidade e
objetividade do analista na observação do que se passa
no setting. Por exemplo, se um analista é adepto de
determinada teoria, esta fatalmente irá influenciar a
interpretação que ele faz do material clínico das
sessões analíticas, mesmo que ele não tenha consciência
disso.(10) Assim, de forma tautológica, o discurso do
analisando, via de regra, parecerá confirmar a teoria.
Por outro lado, mesmo quando terapeuta e paciente
concordam quanto à adequação de determinada
interpretação, isto não significa que esta esteja
correta.(26)
Uma outra importante dificuldade quanto à validação
da teoria psicanalítica, particularmente a
metapsicologia freudiana, é que esta é constituída
basicamente por metáforas. Mecanismos de defesa como a
"repressão", ou conceitos como o
"inconsciente", por exemplo, segundo Freud, não
existiriam concretamente, não teriam uma localização
cerebral. Metáforas, como tais, não são testáveis.(26)
Na ausência de confirmação objetiva, a adoção de
uma determinada teoria psicanalítica torna-se, na prática,
uma questão de crença. Apela-se para a força da
autoridade dos principais teóricos da psicanálise:
"se Freud - ou M. Klein, Lacan, Kohut, Winnicott,
ou outro - disse, então é verdade".(15)
O que a neurociência pode proporcionar à psicanálise
é a validação objetiva das teorias desta, por meio do
emprego do método experimental de investigação, que
se caracteriza por um maior rigor científico.(49,54,67)
Deve-se buscar uma comparação entre as hipóteses
formuladas pela psicanálise e os achados da
neurobiologia. Naquilo em que esses achados
contradisserem a teoria psicanalítica, esta precisará
ser reformulada.(2,10,41) Além disto, as descobertas
neurocientíficas permitirão uma opção mais bem
argumentada entre teorias psicológicas rivais.(1)
Dentro da própria psicanálise, a investigação fora
do setting analítico já trouxe alguns frutos. A
observação direta de bebês ocasionou modificações
na técnica analítica e fez com que se desse uma maior
atenção às questões pré-edípicas.(2,10)
EM QUE A PSICANÁLISE PODE AJUDAR A NEUROCIÊNCIA?
Os neurocientistas, tradicionalmente mais voltados para
o estudo das funções cognitivas, apenas nos últimos
anos começaram a interessar-se pelas emoções.(54,67)
Graças à sua larga experiência nessa área, a psicanálise
foi capaz de formular interessantes questões, as quais
podem agora servir de guia para as investigações
neurobiológicas sobre a afetividade.(10,31,41,49)
Talvez a maior contribuição que os psicanalistas
possam dar aos neurocientistas seja no campo da
subjetividade.(31) Embora tenham feito grandes
descobertas sobre o funcionamento cerebral, os
neurocientistas pouco disseram a respeito das vivências
internas dos indivíduos, sua experiências subjetivas.
Estas, no entanto, há mais de um século vêm sendo
levadas espontaneamente pelos pacientes aos consultórios
psicanalíticos.(8,49,57)
AS TEORIAS PSICANALÍTICAS À LUZ DAS DESCOBERTAS
NEUROCIENTÍFICAS
Os sonhos
A Interpretação dos Sonhos,(17) de 1900, é
considerada a primeira obra propriamente psicanalítica
de Freud. Neste trabalho, particularmente no capítulo
VII, já se encontra uma teoria geral do aparelho psíquico,
formulada a partir dos estudos de Freud sobre os sonhos,
que seriam, segundo ele, a "via régia de acesso ao
conhecimento do inconsciente na vida mental".
Segundo Freud, o sonho é "o guardião do
sono", e constitui "uma realização (disfarçada)
de um desejo (reprimido)". O sonho possui um conteúdo
manifesto, que é a experiência consciente
(predominantemente visual) durante o sono, e ainda um
conteúdo latente, considerado inconsciente, que é
composto por 3 elementos: as impressões sensoriais
noturnas, os restos diurnos e as pulsões do id.
Os elementos do sonho latente tendem a fazer o indivíduo
despertar. Durante o sono, talvez em função da
completa cessação da atividade motora voluntária, a
repressão está enfraquecida, o que aumenta a
possibilidade de as pulsões terem acesso à consciência.
Em função de uma solução de compromisso entre o id e
o ego - que é a instância que exerce a repressão -,
é permitida uma gratificação parcial das pulsões
através de uma fantasia visual, diminuindo a força
dessas pulsões e, conseqüentemente, possibilitando que
o indivíduo continue a dormir.
O conteúdo manifesto dos sonhos é aparentemente
incompreensível porque consiste numa versão distorcida
do conteúdo latente. Essa distorção se dá, em
primeiro lugar, porque no sono há uma profunda regressão
do funcionamento do ego, que faz com que haja um
enfraquecimento da capacidade de distinção entre o
real e o imaginário (prova de realidade), e com que o
processo primário do pensamento passe a ser o
predominante. Assim, o conteúdo latente do sonho tem
que ser traduzido para uma linguagem do processo primário,
caracterizada pelo predomínio das imagens visuais (em
detrimento da linguagem verbal), e pelos mecanismos de
condensação (fusão de duas ou mais representações)
e de deslocamento (substituição de uma representação
por outra).
Além disto, entre o inconsciente e o consciente
existiria uma instância censora, que deliberadamente
disfarçaria o conteúdo do sonho, para que o sonhador não
reconheça sua origem pulsional, proibida.
A teoria de ativação-síntese, de Hobson(28)
e McCarley,(37) é apresentada como uma contestação à
teoria psicanalítica sobre os sonhos. De acordo com
estes neurocientistas, a consciência da vigília seria
mediada pela noradrenalina e pela serotonina, e a consciência
do sonho - durante o sono REM -, pela acetilcolina.
No eletroencefalograma do sono REM são detectadas ondas
pontiagudas, chamadas ondas PGO, que se originam na
ponte. Essas ondas PGO, que são periódicas e aleatórias,
constituem os estímulos básicos dos sonhos. Cabe a níveis
cerebrais superiores a síntese das imagens aleatórias
produzidas pelas ondas PGO, construindo assim uma
narrativa seqüencial. Portanto os sonhos nasceriam, ao
nível do tronco cerebral, sem qualquer significado, não
relacionados a desejos proibidos, ao contrário do que
diz a psicanálise.
A bizarrice e incoerência dos sonhos seriam explicadas
pela natureza caótica das ondas PGO, pela ausência de
monitoramento do córtex frontal - inativado durante o
sono REM - e pelo déficit de memória. Assim, o que
torna os sonhos bizarros não seria a atuação de uma
instância censora. Os sonhos na verdade não estariam
disfarçando nada: pelo contrário, refletiriam de forma
transparente a atividade cerebral.
Todavia algumas contestações têm sido feitas à teoria
de ativação-síntese. Acredita-se que outras
estruturas, fora do tronco cerebral, como a amígdala, o
hipotálamo posterior ou o núcleo talâmico, também
possam estar envolvidas na produção do sono REM.(35)
Solms,(56) ao estudar 332 pacientes com lesões
cerebrais fez as seguintes observações: a) sonhos
podem ocorrer mesmo se a ponte é afetada; b) a
capacidade para sonhar é comprometida se as lesões
atingem o lobos parietais inferiores; c) a capacidade
para sonhar é afetada se as lesões atingem o lobo
frontal, na região mediobasal; d) se a área têmporo-ocipital
é afetada, os sonhos não se expressam mais através de
imagens visuais; e) se estruturas límbicas anteriores
estão lesadas, o indivíduo perde a capacidade de
distinguir entre sonho e realidade; f) pacientes que
apresentavam focos epilépticos em estruturas têmporo-límbicas
apresentavam pesadelos estereotipados recorrentes; g)
lesões na região frontal dorsolateral em nada alteram
o sonhar. A partir destas observações, Solms elaborou
uma hipótese, que, segundo ele, seria inteiramente
compatível com a teoria freudiana sobre os sonhos. Para
ele, o sono REM, embora esteja muito freqüentemente
associado a sonhos, não seria a causa destes. O sonho
poderia ser provocado por qualquer atividade cerebral
que perturbe o sono, até mesmo focos epilépticos. A
região frontal mediobasal - que está relacionada à
regulação dos afetos e controle dos impulsos, e as
estruturas límbicas anteriores - essenciais para o teste
de realidade - atuariam como um censor. Estas,
através de uma atividade inibitória e regulatória
sobre os impulsos neuronais, impediriam que eles
chegassem à região frontal dorsolateral - relacionada
à atividade motora -, e os desviariam para a região
parietal - relacionada à capacidade de simbolização e
ao pensamento espacial concreto - e para a região
ocipital - relacionada à percepção visual.
Outras teorias sobre os sonhos têm sido elaboradas.
Acredita-se que a ativação de sistema colinérgico que
ocorre durante o sono REM seja de grande importância
para a consolidação da aprendizagem e da memória.(28,62,65)
Para alguns autores, a finalidade principal do sonho
seria a integração das experiências recentes com os
registros permanentes de memória. Quando despertamos um
indivíduo durante o sono REM no início da noite, ele
nos relata sonhos que são a reprodução mais ou menos
fiel de eventos recentes, o que corresponde ao que Freud
chamou de "restos diurnos". No entanto, o
indivíduo que é acordado mais tardiamente relata
sonhos que se caracterizam por imagens que misturam
eventos recentes com eventos bem remotos, muitas vezes
da infância, os quais podem se referir a desejos
reprimidos.(27) Na visão de Palombo,(48) as impressões
recentes são comparadas e superpostas aos registros
permanentes de memória, particularmente às recordações
que possuam algum grau de similaridade com essas impressões
recentes, o que contribuiria para a consolidação da
memória. Este autor vê esse mecanismo como análogo ao
que Freud conceituou como "condensação".
A repressão (ou recalque)
Em Estudos sobre a histeria,(7) Breuer e Freud
afirmavam que "os histéricos sofrem principalmente
de reminiscências". Já nessa época pré-psicanalítica,
anterior à conceituação de "repressão",
eles acreditavam que memórias de eventos traumáticos
poderiam se afastar da consciência e se tornar patogênicas.
De acordo com a psicanálise, a repressão consiste num
mecanismo de defesa que atua excluindo da consciência
representações - pensamentos, recordações - ligados
a uma pulsão do id. O ego retira da idéia a catéxia
verbal - a ligação a uma representação de palavra -,
restando apenas a catéxia de pulsão. O que é
reprimido deixa de fazer parte do ego, e fica restrito
ao id.(18)
O fato de não conseguirmos nos lembrar de quase nada
dos primeiros anos de nossas vidas seria o resultado da
repressão em relação à sexualidade infantil.(6)
Todavia, as memórias da infância seriam recuperáveis
no tratamento analítico.(33)
Nas últimas décadas, houve um grande progresso no
conhecimento da neurobiologia da memória. As memórias
podem ser divididas em explícitas (ou declarativas) e
implícitas (ou não-declarativas). As memórias explícitas
representam informações sobre o que é o
mundo, informações estas que são acessíveis à
consciência, podendo ser evocadas voluntariamente e
expressas em palavras. Elas são processadas basicamente
no hemisfério cerebral esquerdo, e estão relacionadas
ao hipocampo e demais estruturas do complexo hipocampal,
e ainda ao diencéfalo, ao giro do cíngulo, e às regiões
ventromediais e dorsolaterais do córtex pré-frontal. Já
a memória implícita refere-se ao aprendizado de como
fazer as coisas. Expressa-se numa melhora de
desempenho em uma determinada atividade, que se dá em
função de experiências prévias. É um tipo de memória
automática e reflexa, que não pode ser expressa em
palavras, e que independe da recuperação consciente
das experiências que produziram o aprendizado. Há vários
tipos de memória implícita: memória de procedimento,
condicionamento clássico, condicionamento operante,
aprendizagem não-associativa, pré-ativação e memória
emocional. Esta última está relacionada à amígdala -
que ativa o sistema nervoso autônomo, armazena rotinas
básicas do comportamento instintivo, além de realizar
a memorização indelével de eventos traumáticos e de
exposição a perigos, sendo processada principalmente
no hemisfério direito.(43)
Somente as memórias explícitas seriam passíveis de
repressão; as memórias implícitas já são por
natureza inconscientes.(5,9) De acordo com alguns
neurocientistas, os mecanismos neurobiológicos
subjacentes à repressão estariam relacionados a uma
desconexão entre os dois hemisférios. Assim, recordações
afetivas dolorosas ou desagradáveis não teriam acesso
ao hemisfério esquerdo e, com isso, não poderiam ser
verbalizadas, não podendo se tornar conscientes.
Possivelmente a região orbitofrontal direita, através
de uma ação inibitória, teria alguma participação
nesse mecanismo.(14,43,46)
O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)
consiste em um transtorno de ansiedade que se sucede a
um evento psicológico extremamente traumático, o qual
ultrapassa a experiência humana usual. Caracteriza-se,
entre outras alterações, por uma hipermnésia em relação
ao trauma, ou então uma amnésia em relação ao mesmo.
Em situações de estresse, a amígdala, através do núcleo
pontino locus coeruleus, medeia a liberação de
adrenalina, noradrenalina e cortisol. A adrenalina e a
noradrenalina, quando liberadas em níveis médios, são
neurotróficas, melhorando a memória explícita, o que
poderia explicar o porquê de, em alguns casos, ser
excepcionalmente nítida a rememoração de um evento
traumático. Por outro lado, quando liberadas
excessivamente, passam a ser neurotóxicas, impedindo a
formação de novas sinapses. Daí, em muitos casos de
TEPT, não há lembrança explícita do evento traumático.
Seria isto uma defesa cerebral contra o trauma. Além
disto, o cortisol aumenta a atividade da amígdala, mas
diminui a do hipocampo. Presume-se que, no TEPT, níveis
muito altos de cortisol levariam a uma destruição de células
hipocampais e a uma diminuição do volume do hipocampo.
Com isso, é possível que a memória explícita do
evento traumático seja perdida, ao mesmo tempo em que a
sua memória emocional persistiria por toda a
vida.(31,33,41,43,45,71)
Atualmente, acredita-se que não temos memórias explícitas
dos primeiros anos de nossas vidas porque o hipocampo não
se torna plenamente funcional até a idade de 3 ou 4
anos. As lembranças mais precoces do ser humano são
principalmente emocionais e visuais. Diferentemente do
hipocampo, ao nascimento, a amígdala já se encontrada
bem desenvolvida. Estas primeiras lembranças são
armazenadas no hemisfério direito, não podendo ser
recuperadas verbalmente mais tarde na vida
adulta.(5,9,31,33,41,43,71)
Parece que a amnésia infantil seria também, em parte,
o resultado do extenso e contínuo remodelamento das
conexões sinápticas que ocorre nos primeiros anos de
vida. Nesse período, a plasticidade neuronal - com a
formação de novas sinapses e a eliminação de outras
- atinge seu auge, o que poderia acarretar o apagamento
de muitos engramas referentes às experiências precoces
da criança.(33,65)
As relações objetais
precoces, a transferência e o tratamento analítico
Psicanalistas como M. Klein, Bion, Winnicott, Kohut,
Spitz e Mahler, entre outros, ressaltaram a enorme
importância das primeiras relações objetais,
especialmente com a mãe, para o desenvolvimento psicológico
da criança. Ter tido uma boa "maternagem" na
infância, ou uma "mãe suficientemente boa" -
na conceituação de Winnicott -, seria fundamental para
se alcançar na vida adulta um funcionamento mental
adequado.(13,31)
O psicanalista britânico John Bowlby(4) desenvolveu a
"teoria do apego". De acordo com ela, o bebê
humano teria uma propensão natural a estabelecer laços
sentimentais profundos com a mãe (ou seu substituto). O
apego caracteriza-se por um comportamento do bebê de
constante procura por proximidade em relação à mãe,
estresse na separação e conforto na reunião. O
comportamento de apego já pode ser observado no
primeiro mês após o nascimento, e parece perdurar por
toda a vida (relacionado a outras pessoas, como o cônjuge).
Não só nos seres humanos observa-se o comportamento de
apego, mas também nos outros primatas e mamíferos.
Experiências com animais indicam que o comportamento de
apego possui um substrato biológico. Observou-se que
substâncias endógenas, como a oxitocina e a
vasopressina, induzem o comportamento de apego. A infusão
de agonistas benzodiazepínicos diretamente na amígdala
diminui o estresse de filhotes na separação, enquanto
que a de antagonistas benzodiazepínicos aumenta a
ansiedade, mesmo sem ter havido separação. Já a infusão
de naltrexona - uma antagonista opióide - aumenta o
comportamento de reunião tanto nos filhotes como nas mães,
enquanto que a morfina tem efeito contrário.(45)
Os estudos neurocientíficos têm demonstrado que a
formação das conexões sinápticas não depende
unicamente do código genético. O ambiente, isto é, as
experiências dos primeiros anos de vida, especialmente
as experiências afetivas, têm um papel fundamental na
construção das redes neuronais. Na infância, a
plasticidade neuronal é muito intensa. Mais do que em
qualquer outra época, há uma grande proliferação de
novas sinapses, principalmente no córtex orbitofrontal.
Aquelas que receberem estímulos ambientais mais freqüentes
serão fortalecidas e se tornarão duradouras, mas
aquelas pouco estimuladas serão eliminadas - é a lei
do "use-o ou perca-o".(12,44,66) Desta forma,
as primeiras relações objetais estarão inscritas na
arquitetura neuronal e determinarão, para cada indivíduo,
um padrão habitual de relacionamento, que será
reproduzido no convívio com as mais diversas pessoas do
decorrer de sua vida.(24) Para os cientistas
cognitivistas, este padrão, que é repetido de forma
automática e sem elaboração consciente, e está
relacionado ao que Freud chamou de "compulsão à
repetição"(20), seria codificado como uma memória
implícita (memória emocional).(9)
Todavia, os estudos de Kandel(31) com o molusco Aplysia
demonstraram que, nos processos de aprendizagem, de
formação de novas memórias de longo prazo, podem ser
formadas novas sinapses. A estimulação ambiental
repetitiva tem influência sobre a expressão genética:
novas proteínas podem ser sintetizadas e, conseqüentemente,
novas conexões neuronais podem ser criadas.
Vários pesquisadores(31,50,54,66,68) acreditam que a
psicoterapia, especialmente o tratamento analítico,
constituiria uma forma de aprendizagem, de aquisição
de novas memórias implícitas. Se o tratamento é bem
sucedido, é porque houve alterações estruturais no cérebro:
modificações duradouras nas conexões neuronais. No
relacionamento com o analista, em função da
"compulsão à repetição", o paciente
automaticamente repete a sua forma habitual de
relacionar-se. Trata-se da "transferência",
considerada por Freud essencial para o tratamento. O
paciente não se recorda, apenas repete. Repetir
automaticamente, sem recordação consciente, é uma das
características da memória implícita.(5,33) O
tratamento analítico atuaria reestruturando a memória
emocional do paciente.(24,68) Através das interpretações
do analista, o paciente pode dar-se conta de seu padrão
de comportamento mal adaptativo, optar conscientemente
por um outro padrão - mais adequado e saudável - e,
com a repetição deste dia após dia, torná-lo automático,
ou seja torná-lo memória implícita. Também o próprio
relacionamento com o analista, a "experiência
emocional corretiva" - conceituação do
psicanalista Franz Alexander -, poderá proporcionar
diretamente uma modificação na memória implícita
(emocional) do paciente.(9) E, como em qualquer processo
de aprendizagem, no tratamento analítico se faz necessária
a repetição dos estímulos. Daí se justifica a
necessidade de o tratamento ser tão longo e com sessões
tão freqüentes.(41,68)
O ego
Várias das funções atribuídas por Freud ao
"ego" - como controle sobre os impulsos e as
emoções, pensamento racional ("processo secundário"),
julgamento moral e atenção(21) - têm sido
relacionadas a uma mesma região cerebral: o córtex pré-frontal.(31,59)
A ansiedade
Freud distinguiu dois tipos de ansiedade: a ansiedade
traumática e a ansiedade-sinal. Quando o indivíduo é
submetido a um grande afluxo de excitações, de origem
externa ou interna, que ele não pode descarregar ou
dominar - "situação traumática" -, ele
reage automaticamente com uma ansiedade intensa. O protótipo
da situação traumática seria a experiência do
nascimento. Um exemplo freqüente de situação traumática
refere-se aos estímulos relacionados a pulsões do id
que são indesejáveis ou não podem ser satisfeitas.
A ansiedade traumática é
característica da infância, quando o ego ainda é
bastante imaturo, só reaparecendo na vida adulta nos
casos de neurose de ansiedade (que corresponderia
atualmente ao transtorno de pânico). Interessante
recordar que o hipocampo, sede da memória explícita,
ainda não está desenvolvido até os 4 anos de idade,
enquanto a amígdala, sede dos instintos e mecanismos de
conservação da vida, está plenamente ativa. Com o
desenvolvimento do ego e do hipocampo, adquire-se a
capacidade de identificar previamente situações de
perigo, isto é, de antever a iminência de uma situação
traumática baseando-se em engramas das experiências prévias
armazenados no hipocampo. O ego, então, diante de uma
situação de perigo, reage produzindo uma forma
atenuada de ansiedade - bem menos intensa que a
ansiedade automática , denominada ansiedade de alarme
ou ansiedade-sinal. Esta propicia a mobilização de forças,
entre as quais os mecanismos de defesa - para enfrentar
ou evitar a situação traumática.(22) Por alguma falha
não conhecida no uso do ferramental adulto das experiências
prévias registradas no hipocampo, ou devido a um
excesso de ativação das reminescências infantis
registradas na amígdala, surgem reações intensas e
instintivas, típicas da infância, caracterizando no
adulto sintomas semelhantes ao que hoje chamamos de
ataque do pânico.
Kandel percebeu uma relação entre a ansiedade-sinal,
de Freud, e o condicionamento aversivo clássico, de
Pavlov.(30,31,70) Neste último, há o pareamento de
dois estímulos: um neutro e outro nocivo. Repetidas
vezes o estímulo neutro é apresentado ao animal
imediatamente antes do nocivo. Depois de um certo tempo,
mesmo na ausência do estímulo nocivo, o estímulo
neutro será capaz de produzir uma reação de fuga no
animal. Tanto o condicionamento clássico, como a
ansiedade-sinal possuem um alto valor do ponto de vista
adaptativo: permitem ao indivíduo (ou animal) fazer
previsões sobre eventos no seu ambiente e reagir
defensivamente antes que o perigo iminente se torne uma
realidade. Ainda segundo Kandel, como o condicionamento
aversivo clássico está relacionado a um processo de
memória implícita mediado pela amígdala e, ao nível
neuronal, a uma facilitação pré-sináptica, é possível
que, subjacentes à ansiedade, haja mecanismos
semelhantes.
O inconsciente
Segundo Freud, a atividade mental seria em si mesma
inconsciente.(57) Apenas em condições especiais uma idéia
poderia se tornar consciente: ela teria que se ligar a
uma representação de palavra - a uma imagem verbal -,
que guarda características sensoriais e, além disso,
teria que se ligar a uma catéxia de atenção, uma
energia psíquica móvel que o ego tem à sua disposição.(19)
Freud descrevia a consciência como um órgão sensorial
voltado para o mundo interno, uma espécie de monitor
das outras funções mentais.(11,47)
Diferentemente da época de Freud, hoje em dia a existência
de processos psíquicos inconscientes não é mais polêmica.
A dificuldade agora está em se explicar os mecanismos
que geram a consciência. A neurociência, por enquanto,
não trouxe uma resposta satisfatória para esta questão.(42,57)
Estudos experimentais com humanos evidenciam atividades
mentais que ocorrem fora do alcance da consciência. Por
exemplo, num indivíduo que resolve realizar um
movimento muscular, como pegar um objeto, detectam-se,
no eletroencefalograma, potenciais elétricos nas áreas
frontais pré-motoras cerca de meio segundo antes de ele
tomar conhecimento de sua decisão. Isto significa que só
depois que a decisão é tomada é que esta chega à
consciência.(5,32)
Descobriu-se ainda que estímulos externos subliminares
são percebidos de forma não-consciente: na memória de
longo prazo podem ser armazenadas informações que
jamais chegaram à consciência. A conscientização da
percepção está relacionada ao hemisfério cerebral
esquerdo: estímulos visuais de objetos projetados na
metade esquerda do campo visual vão chegar inicialmente
ao hemisfério direito, mas só vão se tornar
conscientes quando a informação chegar ao hemisfério
esquerdo. Isto é demonstrado em estudos com pacientes
que sofreram secção do corpo caloso, comissura que
conecta os dois hemisférios.(44)
CONCLUSÃO
A necessidade da integração entre a psicanálise e as
neurociências se apoia, antes de tudo, em razões filosóficas.
Atualmente, a grande maioria dos filósofos - sem falar
nos neurocientistas - rejeita a visão dualista da questão
mente-corpo. Não parece haver sentido em se imaginar
estados mentais imateriais não relacionados aos fenômenos
físicos. De acordo com a visão monista - ou
materialista , predominante durante quase todo o século
XX, a mente é um atributo do cérebro; embora haja dúvidas
quanto a se os estados mentais são estados cerebrais,
se eles são redutíveis a estados mentais ou
se eles emergem de estados
cerebrais.(1,32,47,64)
Uma aproximação entre a neurociência e a psicanálise
não implicará em uma substituição desta por aquela.
As perspectivas objetivas da neurociência e subjetivas
da psicanálise não são mutuamente redutíveis, mas na
verdade, são complementares.(3,13,31,42) Uma disciplina
que unificasse a neurociência e a psicanálise, a
neuropsicanálise, aliada a outras disciplinas afins,
como a psicologia cognitiva, poderia levar a uma
compreensão da mente mais ampla e mais
profunda.(31,36,55,69) E isto não implicaria no
desaparecimento das disciplinas fundamentais, vide o
exemplo da criação da genética molecular, que não
extingüiu ou descaracterizou a genética clássica nem
a biologia molecular.(31,57)
Não se pode negar que se trata de uma tarefa muito árdua
promover uma aproximação entre a neurociência e a
psicanálise, disciplinas que se utilizam de linguagens
e métodos de investigação muito diferentes entre si.
Todavia, isto parece ser menos difícil agora do que há
mais de 100 anos, na época do projeto de Freud, em função
dos grandes avanços das neurociências. Alguns
psicanalistas e neurocientistas, uma minoria,
recentemente têm se interessado em estabelecer uma
ponte entre as suas respectivas áreas de conhecimento.
Em 1999, começou a circular a revista Neuro-psychoanalysis,
criada com o objetivo de favorecer o diálogo e a
integração entre a psicanálise e as neurociências.(40)
Fazem parte do corpo editorial desta revista importantes
neurocientistas, como Eric Kandel [prêmio Nobel de
fisiologia e medicina em 2000], António Damásio,
Oliver Sacks, entre outros - e psicanalistas - como
Charles Brenner, André Green, Otto Kernberg e Daniel
Widlöcher. Em julho de 2000, em Londres, foi realizada
a 1a Conferência Internacional de Neuro-psicanálise, -
com a participação de cerca de 300 psicanalistas e
neurocientistas, tendo sido fundada na ocasião a
Sociedade Internacional de Neuropsicanálise. E, em
2001, realizou-se em Nova York o 1º Congresso
Internacional de Neuropsicanálise. Também é digno de
nota que no congresso da Associação Psiquiátrica
Americana de 2001, cujo tema geral mind meets brain:
integrating psychiatry, psychoanalysis and neuroscience,
houve dois painéis de discussão intitulados
psychoanalysts and neuroscientists converse.
Elie
Cheniaux Jr.
Doutor em psiquiatria
/ IPUB-UFRJ, Professor-adjunto / FCM-UERJ, Pós-doutorando /
COPPE-UFRJ, Aluno do curso de formação analítica / IEP-SPRJ
Luís Alfredo Vidal de Carvalho
Professor-titular / COPPE-UFRJ, Pesquisador do CNPq
Créditos:
Sociedade de Psiquiatria do Rio de Janeiro
Editor de Pesquisas da Academia de Letras do Brasil:
Dr. Mário Carabajal - Ph.D. /Presidente
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