ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL

Infra, mais uma importante contribuição às ciências da saúde.

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O embasamento e fundamentação científica na obra pablocassiana denota responsabilidade e comprometimento científico. Elementos que permitem-nos sempre bem recomenda-la como ótima e segura fonte de pesquisas. Prof. Dr. Mário Carabajal - Ph.D.

 

Pesquisador: Pablo Casso
Escritor, psicanalista e pesquisador Pablo Casso. Membro da Academia de Letras do Brasil.

Estresse: Repercussões Físicas e Mentais

Stress: Physical and Mental repercussions

Autor: Pablo Casso*

* Psicanalista, Escritor e Pesquisador, aluno do curso de Jornalismo da Universidade
Presidente Antônio Carlos – UNIPAC.

RESUMO
O estudo pretende, através das repercussões do estresse, relatar a importância de um
tratamento de saúde físico e psicológico ao paciente, que ajuste sua personalidade
para conviver com os estressores. O trabalho acredita que o estresse seja capaz de
desencadear doenças auto-imunes, genéticas e patologias mentais e orgânicas. Na
busca de um equilíbrio, o ser humano precisa compreender as interações do corpo
frente às ameaças do cotidiano.

Palavras-chave: estresse; diabetes; esquizofrenia;


ABSTRACT
The study intends, through the repercussions of the stress, to tell the importance
of a physical and psychological treatment of health to the patient, that his/her
adjustment personality to live together with the stresses. The work believes that
the stress is capable to unchain autoimmune diseases, genetics and mental and
organic pathologies. In the search of a balance, the human being needs to understand
the interactions of the body front to the threats of the daily.

Key words: stress; diabetes; schizophrenia;


INTRODUÇÃO
Os seres vivos sobrevivem devido à manutenção de um equilíbrio complexo, dinâmico e
harmonioso, chamado homeostase, que é ameaçado quando os organismos são expostos a
situações adversas. Nestas circunstâncias ocorre uma série de respostas adaptativas
que se contrapõem aos efeitos dos estímulos estressantes, na tentativa de
restabelecer a homeostasia. 1
O estresse é um desequilíbrio do organismo em resposta a influências ambientais.
Temporariamente e em quantidades moderadas, o estresse é um aspecto necessário à
vida, porém quando prolongado ou crônico, pode ser altamente prejudicial,
contribuindo para o desenvolvimento de doenças e até a morte. O estresse prolongado
provoca um desequilíbrio permanente no indivíduo, podendo gerar sinais e sintomas
físicos e psicológicos, os quais são responsáveis pelo aparecimento de doenças. 2
Hans Selye (1956) 3 afirma que o estresse é parte natural do funcionamento humano. A
personalidade e a maneira de enfrentar a vida influenciam nas questões do estresse.
A mesma situação que, para alguns representa uma oportunidade, para outros, pode
significar uma ameaça.

ESTRESSE
O estresse está presente no dia-a-dia das pessoas, é necessário conviver com ele, da
melhor maneira possível, para evitar os prejuízos dele decorrentes. 4
Na definição do estresse existem três perspectivas: ambiental, psicológica e
biológica. Todas se integram nas exigências ambientais que excedem a capacidade
adaptativa de um organismo, produzindo conseqüências psicológicas e fisiológicas,
que resulta no aumento do risco de se desenvolver uma doença. 5
No conteúdo da perspectiva ambiental estão os eventos ambientais que desequilibram o
organismo. A perspectiva psicológica constitui de avaliações subjetivas dos
indivíduos, das suas próprias capacidades para lidarem com os acontecimentos e
experiências específicas. A ativação de sistemas de reações orgânicas que são
modulados por condições físicas e psicológicas formam a perspectiva biológica. 5
Estresse é um processo no qual as demandas do ambiente excedem a capacidade
adaptativa do individuo, contribuindo para mudanças psicológicas e biológicas que
podem colocá-lo em risco de adoecer ou permanecer enfermo. 5
O ser humano moderno se defronta com as pressões do mundo contemporâneo, exigência
de resultados e fragmentação dos laços sociais, desenvolvendo assim, uma
globalização de ameaças, gerando o estresse ocupacional. 6
O estresse ocupacional é um estado em que ocorre desgaste anormal do organismo
humano e/ou diminuição da capacidade de trabalho, devido basicamente à incapacidade
prolongada de o indivíduo tolerar, superar ou se adaptar às exigências de natureza
psíquica existentes em seu ambiente de trabalho ou de vida.7 Os médicos
especializados em medicina ocupacional afirmam que 80% das consultas relatam a
presença de estresse, e declara que este componente perturbador pode matar um
indivíduo. 8
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), as situações que causam ansiedade ao
ser humano, desencadeando o estresse, geram desgastes não só emocionais, como também
físicos, com manifestações desagradáveis que podem desencadear doenças. 9

FASES DO ESTRESSE
Para tornar claro o processo de desenvolvimento do estresse é necessário considerar
que o quadro sintomatológico varia, dependendo da fase em que se encontra. 10
O conjunto de todas as reações gerais do organismo que acompanham a exposição
prolongada ao estressor é chamado de Síndrome Geral de Adaptação (SGA), e compreende
três fases: reação de alerta ou alarme (taquicardia, palidez, fadiga, insônia, falta
de apetite, pressão no peito, estômago tenso), de resistência ou adaptativa
(isolamento social, incapacidade de se desligar do trabalho, impotência para as
atividades, peso nos ombros) e de exaustão (depressão). 3
Na fase de alerta, considerada a fase positiva do estresse, o ser humano se mobiliza
por meio da produção da adrenalina, buscando a preservação da sobrevivência. 11
Na segunda fase, a da resistência, a pessoa automaticamente tenta lidar com os seus
estressores, de modo a manter a homeostase interna. Se os fatores estressantes
persistirem em freqüência ou intensidade, acontece a quebra da resistência da pessoa
e ela passa à fase de quase exaustão. Nessa fase, o processo de adoecimento se
inicia e os órgãos que possuem maior vulnerabilidade genética, ou adquirida, passam
a mostrar sinais de deterioração. Se não há alívio para o estresse por meio da
remoção dos estressores, ou pelo uso de estratégias de enfrentamento, ele atinge a
sua fase final, a da exaustão, quando doenças graves podem ocorrer nos órgãos mais
vulneráveis. 11

A exposição prolongada e contínua a estressores no ambiente de trabalho pode
desencadear exaustão física e psíquica, além de determinar um processo insidioso de
estresse. 10

O estresse modifica os ritmos biológicos, levando à dificuldade e lentidão de
sincronização, devido às modificações do ciclo sono-vigília, que induzem ao estado
de desgaste. O estresse ataca a saúde física e psicológica, o bem-estar, a família e
a vida social. 12

A duração da atividade, hora, ou execução da tarefa, e pressão dos ritmos e de
horários do meio social são elementos decisivos da dificuldade laboral, sendo
importantes fatores de processos fisiológicos e psicológicos para o trabalho. 13 O
impacto dos fatores estressantes sobre profissões que requerem condições de trabalho
específicas, com desgastes físicos e psicológicos, levam o trabalhador a desenvolver
a Síndrome do Esgotamento Profissional (Síndrome de Burned Out). 14
No trabalho de Reis et al. 15, foi realizada uma pesquisa sobre a saúde dos
professores, e como resultado ficou constatado que 55,9% tinham distúrbios psíquicos
menores, o que nos remete à uma situação de saúde mental preocupante.
Na investigação de sofrimento psíquico entre policiais civis, foi identificado que
as condições de trabalho e as pressões da sociedade exercem uma influência na saúde.
16 Outros estudos destacaram que policiais lidam com riscos reais e imaginários, os
quais geram estresse e sofrimento, e mesmo quando imaginários podem desenvolver
respostas de alerta e levar à morte. 17,18,19

Um estudo com funcionários de uma agência bancária demonstrou a preocupação com a
saúde mental dos trabalhadores, devido o ritmo intenso de mudanças, falta de
comunicação, o que gera insegurança no trabalhador que precisa manter a atenção em
suas tarefas e não cometer erros. 20

O esgotamento físico e emocional depende do ambiente social em que as pessoas
trabalham e o modo como elas enfrentam os estressores. Em geral, os trabalhadores
relatam sentir tristeza, vivências de mal-estar, sentimento de impotência e
depressão. Estudos relacionados ao trabalho de Enfermagem relatam a presença de
estresse, já que o exercício profissional no âmbito hospitalar tem diversas
exigências: lidar com a dor, sofrimento, morte e perdas, condições desfavoráveis de
trabalho, além da falta de valorização, o que contribui para a evolução de desgastes
físicos e mentais. 21,22,23,24,25

O estresse atinge primeiramente e silenciosamente a saúde mental das pessoas, que a
partir destes desequilíbrios psicológicos vêm a desenvolver doenças fisiológicas.
Para enfrentar os estímulos estressores, o indivíduo utiliza de seus esforços
cognitivos e comportamentos definidos para identificar, perceber, administrar,
avaliar e manter o equilíbrio em resposta ao estresse. 26
Com a persistência do estressor e a compatível adaptação, os sinais de reação de
alarme virtualmente desaparecem. Mas com a constância do estressor, ocorre a
exaustão, é quando os mecanismos de enfrentamento não são suficientes, desenvolvendo
doenças físicas e mentais. 3

REPERCUSSÕES DO ESTRESSE
O estresse é um termo que inclui o estímulo ou evento externo ao organismo
(estressor), a percepção e avaliação de uma experiência ou situação como estressante
e as respostas endócrinas/psicológicas originadas por esta experiência.27 O estresse
pode ser usado para descrever os muitos fatores psicológicos e fisiológicos que
causam alterações neuroquímicas no organismo. 28

As funções do organismo são reguladas por dois grandes sistemas de controle, o
sistema nervoso e o sistema endócrino. A ação do sistema nervoso autônomo ocorre
segundos depois de percebido o agente estressor, resultando em aumentos na secreção
de epinefrina proveniente da medula adrenal e da norepinefrina proveniente dos
neurônios do sistema nervoso autônomo central e periférico. A ativação do sistema
endócrino é dada através do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) e ocorre mais
lentamente, com aumentos na liberação do hormônio liberador de corticotrofina (CRH)
do hipotálamo. 29,30

A circulação de corticotrofina no sistema é a chave reguladora na secreção de
glicocorticóides pelo córtex da adrenal. Os glicocorticóides participam do controle
de toda a homeostase corporal e a resposta do organismo ao estresse. 31

O hipotálamo controla a secreção de corticotrofina do lobo anterior da hipófise
(adeno-hipófise). Quando aumentam os níveis de CRH, ocorre um estímulo na glândula
pituitária para liberar ACTH (hormônio adrenocorticotrófico) na circulação e este,
por sua vez, estimula o córtex da glândula adrenal a liberar cortisol. 32

O cortisol é um hormônio corticosteróide que aumenta a pressão arterial, a glicose
do sangue, e serve de modificador do sistema imune. Seu nome deriva de córtex,
devido ser sintetizado na zona fasciculata do córtex da glândula adrenal através da
progesterona. O cortisol é a principal secreção do córtex adrenal, embora também
produza aldosterona na zona glomerulosa e hormônios sexuais na zona reticulosa. 29

Nos seres humanos, o cortisol é o corticóide principal e participa na modulação do
sistema de estresse 33, sendo sintetizado e secretado pelo córtex da glândula
adrenal em uma taxa de 10mg/dia aproximadamente. 34 Em condições basais, interage
com os receptores de mineralocorticóides, os quais são importantes no controle da
homeostase dos processos metabólicos. Porém, quando o eixo HPA é ativado durante uma
experiência estressante, os níveis de cortisol podem aumentar em até 10 vezes. 34

Em níveis elevados, o cortisol tem pouca afinidade com os receptores de
glicocorticóides, acredita-se que essa interação funcione da seguinte forma:
aumentando o suprimento de glicose e oxigênio aos músculos estriados e ao músculo
cardíaco para facilitar sua ação e ao cérebro para facilitar a memória a curto
prazo; suprime as funções reprodutiva, imune e digestiva, para conservar energia;
promove analgesia; e ativa o sistema nervoso autônomo periférico. 35

Depois que os fatores estressores são eliminados, os níveis de cortisol livre tendem
a aumentar durante 15 a 20 minutos, antes de diminuírem. 36,37

Embora a ativação do cortisol em resposta ao estresse seja protetora em um curto
período, a ativação crônica ou extrema pode ter conseqüências negativas a longo
prazo. 35,38,39,40

O cortisol estimula o sistema imune frente a reações alérgicas e inflamatórias em
níveis normais, mas pode suprimir o sistema imune em níveis excessivos ou quando
prescrito terapeuticamente em forma de droga sintética. O excesso de cortisol
(hipercortisolismo) pode estar associado a doenças caracterizadas por
imunossupressão, e pode aumentar a susceptibilidade de desenvolver doenças
inflamatórias, crônicas e auto-imunes. 41

A atuação do cortisol sobre o sistema imune desenvolve a interrupção da síntese
protéica, incluindo a imunoglobina. A ação estende-se à alteração das populações
plasmáticas periféricas de eosófilos, linfócitos e macrófagos, causando a
imuno-supressão. 35 Altas doses de cortisol levam à atrofia do tecido linfóide do
timo, baço e nódulos da linfa 35, bem como ao aumento da apoptose dos linfócitos.
42,43

O cortisol também influencia no desenvolvimento de Diabetes e demais doenças
auto-imunes, agindo diretamente na resposta imune aos anticorpos. Fisiologicamente,
altas concentrações de glicocorticóides diminuem a produção de citocinas, inibindo a
atividade das células TH1 e TH2, levando à supressão de todas as respostas imunes
mediadas pelas células T. 44 O excesso de cortisol também pode levar à resistência a
insulina, a hipercolesterolemia, e hipertrigliceridemia, contribuindo assim para o
aparecimento de diabetes, doenças cardiovasculares e hipertensão. 45

A sensibilidade à atividade dos glicocorticóides depois de situações de estresse
repetidas ou extremos pode trazer como resultado uma desregulação no número de
receptores de glicocorticóides, com o feedback negativo aumentado. Este feedback
aumentado diminui a secreção de cortisol e pode levar a hipocortisolismo crônico. 46
No trato gastrointestinal, o cortisol promove a secreção gástrica. Este efeito é
oposto ao da norepinefrina, que a reduz. O cortisol em excesso pode estimular a
secreção gástrica de forma a provocar a ulceração da mucosa gástrica. 47

O cortisol exerce efeitos inibitórios sobre a libertação do hormônio luteinizante,
estradiol e testosterona. 48 Os efeitos inibitórios estendem-se a tecidos-alvo nas
gônadas, habitualmente resistentes à ação destes hormônios, provocando
hipogonadismo. 47

No fígado, um dos principais efeitos do cortisol é o de estimular a gluconeogenese,
levando à produção de glicogênio a partir de fontes não-carbohidatadas, tais como
amino e lipo-ácidos. O cortisol promove a elevação da glicose no sangue através da
sua ação junto de outros hormônios (epinefrina, glucagon e somatotrópico). 49
O cortisol tem uma ação decisiva sobre outros hormônios e o metabolismo protéico,
pois aumenta a síntese de proteína e RNA no fígado, elevando a quantidade de
aminoácidos. 47

Os hormônios liberados em resposta ao estresse alteram as funções reprodutivas
através do eixo hipotálamo-pituitária-gonadal (HPG), inibindo a secreção de hormônio
liberador de gonadotrofinas (GnRH) e, consequentemente, interferindo na liberação do
hormônio folículo estimulante (FSH) e do hormônio luteinizante (LH) e alterando o
efeito estimulatório das gonadotrofinas na secreção de esteróides sexuais. 1
Assim, o efeito adaptativo ou destrutivo do cortisol pode depender da intensidade,
tipo e duração do estressor e a duração da exposição do cortisol às células-alvo, os
órgãos mais vulneráveis. 47

Como se tornou evidente, o cortisol desempenha uma função extremamente importante na
saúde dos indivíduos. A sua medição objetiva é especialmente relevante na avaliação
das situações de estresse. A avaliação psicofisiológica das desordens psicológicas
tem tido um grande impulso nos últimos anos, em grande parte devido aos ganhos
secundários associados a estas situações. 49

A associação entre as emoções e as doenças tem sido explicada nas últimas décadas
devido aos avanços em biologia celular e molecular, genética, neurociências e em
estudos de imagem cerebral. Estes avanços revelaram as diversas conexões entre os
sistemas neuroendócrino, neurológico e o sistema imunológico e, dessa forma, entre
emoções e doenças. 50

O termo “Psiconeuroimunologia” foi introduzido por Robert Ader, em 1981, para
definir o campo da ciência que estuda a interação entre o sistema nervoso central
(SNC) e o sistema imunológico. Atualmente, um grande corpo de estudos tem fornecido
muitas evidências que revelam as comunicações bidirecionais entre os sistemas
neuroendócrino, neurológico e o sistema imunológico. Muitos estudos também têm
demonstrado que uma variedade de estressores físicos e psicossociais podem alterar a
resposta imune através dessas conexões. 51

O eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) e o sistema simpático adrenomedular são
os componentes neuroendócrinos e neuronais primários da resposta ao estresse. A
liberação do cortisol a partir do córtex adrenal, das catecolaminas a partir da
medula adrenal e da norepinefrina a partir dos terminais nervosos preparam o
indivíduo para lidar com as demandas dos estressores metabólicos, físicos e/ou
psicológicos e servem como mensageiros cerebrais para a regulação do sistema
imunológico. 51

Por outro lado, o sistema imunológico produz mensageiros químicos (citocinas) que
desempenham um papel crucial em mediar as respostas inflamatórias e imunes, e também
servem como mediadores entre os sistemas imunológico e neuroendócrino. As citocinas
pró-inflamatórias, liberadas na periferia, estimulam o Sistema Nervoso Central (SNC)
ativando o eixo HPA, conseqüentemente levando à produção de corticosteróide por
parte da glândula adrenal. Dessa forma, a resposta ao estresse regula o sistema
imunológico quando uma resposta imune não mais é necessária. As interrupções nessa
alça regulatória desempenham um papel importante na susceptibilidade e resistência
às doenças auto-imunes, inflamatórias, infecciosas e alérgicas. 52

A liberação excessiva desses hormônios de estresse antiinflamatórios, tais como o
cortisol, no momento equivocado, como ocorre durante o estresse crônico, podem
predispor o hospedeiro a mais infecções devido à imunossupressão relativa. Por outro
lado, uma ativação insuficiente da resposta hormonal ao estresse pode predispor a
doenças auto-imunes e inflamatórias tais como artrite, lupus eritematoso sistêmico,
asma alérgica e dermatite atópica. 51

A influência de fatores psíquicos sobre doenças dermatológicas é bastante comum.
Atualmente estima-se que pelo menos um terço dos pacientes com doença dermatológica
possua aspectos emocionais associados. 53 O início e o curso das dermatoses podem
ser influenciados por estresse, distúrbios emocionais e transtornos mentais. 54
As citocinas pró-inflamatórias, tais como interleucina-1 (IL-1), interleucina-6
(IL-6), interferons (IFNs) e o fator de necrose tumoral alfa (TNF alfa), que são
liberados durante uma infecção, induzem um conjunto de mudanças de comportamento e
mal-estar associados à enfermidade, denominados sickness behavior. Este consiste em
um conjunto de sintomas não-específicos que incluem: febre, fraqueza, mal-estar,
apatia, incapacidade de concentração, sentimento de depressão, letargia, anedonia e
perda do apetite. 51

Estudos em animais e humanos têm mostrado que a infusão de citocinas (sistêmica ou
central) induz sintomas de sickness behavior. Os mesmos sintomas são descritos em
voluntários injetados com moléculas que induzem a síntese de citocinas endógenas,
tais como os lipossacarídeos (LPS), o fragmento ativo da endotoxina do Gram
negativo. A demonstração de que as moléculas imunes são capazes de influenciar as
respostas comportamentais e o eixo HPA levantaram a questão sobre a ligação entre as
citocinas e os transtornos depressivos. 51

A administração de citocinas em pacientes não-psiquiátricos relatou a indução de
episódios depressivos. 55 Outra linha de investigação tem sugerido que genes que
codificam citocinas, que se expressam no cérebro, poderiam desempenhar um papel na
depressão. Em especial, o gene que codifica um membro-chave do sistema IL-1, o
receptor antagonista IL-1 (IL-1ra), o qual se expressa em áreas importantes do
sistema biológico, encontram-se desreguladas na depressão. 56

Os efeitos do estresse psicossocial pode desenvolver desequilíbrios na saúde física
e mental. O indivíduo perante os acontecimentos de vida, sente um estado geral de
ativação negativa, manifestando mudanças fisiológicas, emocionais, cognitivas e
comportamentais. Muitas vezes, períodos de depressão estão associados a
acontecimentos de vida adversos, colocando o indivíduo em déficit imunológico,
aumentando o seu risco de desenvolver uma doença. 57

Nos transtornos mentais, o compartimento central das citocinas estaria ativado. Essa
ativação central das citocinas, não necessariamente seria desencadeada por um
processo inflamatório, mas poderia estar relacionado a outros fatores, tais como
estresse, neurodegeneração e uma possível predisposição genética. 51,56

O sistema imunológico também desempenha um papel importante no Sistema Nervoso
Central (SNC) em relação à sobrevivência e morte neuronal. As citocinas podem atuar
no SNC como fatores de crescimento neuronal e como neurotoxinas, tendo influências
em doenças como Demência de Alzheimer, neuroAIDS, e trauma cerebral. 51

A liberação excessiva de cortisol numa situação de estresse, causa uma inibição da
utilização da glicose na memória, na região do hipocampo. Sem glicose no hipocampo,
existe uma deficiência de energia e o cérebro não consegue guardar os fatos com
exatidão, já que quimicamente, encontra-se danificado pelo excesso de cortisol
(hipercortisolismo). 58

O hipercortisolismo interfere na função dos neurotransmissores, havendo uma falha na
comunicação das células cerebrais, desenvolvendo uma confusão mental. O excesso de
cortisol danifica as células cerebrais, pois ocorre o rompimento do metabolismo
normal das células e uma quantidade elevada de cálcio acaba penetrando nelas. O
excesso de cálcio produz moléculas de radicais livres que matam as células
cerebrais, podendo desenvolver um distúrbio cerebral, como o Mal de Alzheimer,
caracterizado por morte de células cerebrais. 58

O cérebro não é a única parte do corpo danificada pelos radicais livres. Os radicais
livres podem ser produzidos por uma série de fatores. Até mesmo o oxigênio os produz
como um subproduto do processo natural da oxidação. Todas as células do corpo são
vulneráveis a este processo. 58

Os comportamentos baseados na emoção estão envolvidos na regulação da função
imunológica. Apesar de existirem evidências que o cortisol circulante é superior nas
situações de afeto negativo, na ansiedade, ações de hostilidade e depressão. 59

Na literatura encontram-se referências ao fato de indivíduos com sintomatologia
depressiva, ansiosa, fóbica e de estresse, apresentarem valores altos de cortisol.
60 Uma meta-análise de estudos que avaliava a depressão e a imunidade revelaram uma
relação entre a depressão e a redução da proliferação de linfócitos e da atividade
das células NK (natural killers). 61

O cortisol pode estar envolvido na Síndrome de Guillain Barré, que se caracteriza
pelo ataque do sistema imune contra a mielina (uma fina camada de gordura que
reveste as células nervosas). Essa doença auto-imune, na qual o indivíduo produz
anticorpos contra a própria mielina, tem como conseqüência a perda de habilidade de
grupos musculares de responder os comandos cerebrais, perda da capacidade de
detectar sensações do corpo e problemas respiratórios. 62 Na Síndrome de Cushing, o
hipercortisolismo é uma manifestação primária, apresentando depressão osteoporose,
hipertensão arterial sistêmica com lesões de órgão-alvo. 63,64,65

Nas situações de estresse contínuo, os hormônios norepinefrina e epinefrina são
liberados em abundância, resultando num conjunto de respostas que culminarão em uma
doença. Descargas excessivas de determinadas hormônios podem constituir diversos
estados patogênicos associados à percepção do estresse, conseqüentemente, podem
causar a supressão da função celular imune, 66 aumento da pressão arterial e
batimento cardíaco, 67 variações no ritmo cardíaco (arritmias ventriculares) que
podem levar à morte súbita 68 e produção de desequilíbrios neuroquímicos que
contribuem para o desenvolvimento de desordens mentais. 69

A ativação crônica ou extrema do cortisol pode levar a mudanças na atividade do eixo
HPA, evidenciadas por níveis anormais de cortisol, aumentando o risco de desenvolver
problemas de saúde. A normalização dos níveis de cortisol na resposta aguda depois
de terminado a situação estressora, protege contra os efeitos prejudiciais dos
glicocorticóides sobre os neurônios do hipocampo, na função imune e na saúde mental.
O hipocampo, que é importante para a memória e a cognição, é a região do cérebro com
o maior número de receptores de glicocorticóides e assim, ambos são locais
importantes de realimentação dos glicocorticóides e vulneráveis a neurotoxicidade
mediada pelos mesmos. Estes dados evidenciam que o estresse crônico pode desencadear
patologias mentais. 70,71,72,73 Acreditamos que esse processo nas células cerebrais
venha a desencadear a Esquizofrenia.

A Esquizofrenia é um distúrbio mental no qual se observam disfunção comportamental
acentuada, incapacidade de raciocínio coerente, distorção da realidade e alucinações
(sintomas positivos); e isolamento social, embotamento afetivo e diminuição de
atenção (sintomas negativos). 82,83,84

Os glicocorticóides influenciam o fluxo sangüíneo cerebral, o consumo de oxigênio e
a excitabilidade cerebral. O hipocampo é principal local da ação dos
neurocorticóides, incluindo a neurotoxicidade hipocampal. 74 Os glicocorticóides têm
ampla gama de efeitos em outros sistemas de neurotransmissores, incluindo a
modulação do fluxo de serotonina, equilíbrio dopaminérgico hipotalâmico e supressão
dos níveis de beta-endorfina no cérebro. 75,76

Os delírios, presentes na Esquizofrenia 79, estão diretamente ligados ao sistema
colinérgico central quando existe a disponibilidade diminuída de glicose e oxigênio
na região cerebral. 77,78

A deficiência central colinérgica é, freqüentemente, presumida como o principal
mecanismo fisiopatológico no delirium, o qual é diretamente influenciado pelos
glicocorticóides.77,78 Além de que, o hipercortisolismo tem efeitos sobre o humor,
sono e cognição. 75 Os déficts colinérgicos e dopaminérgicos podem explicar os
distúrbios de flutuação da atenção e da vigilância presentes na Esquizofrenia. 80
A Esquizofrenia caracteriza-se pelo aumento da atividade dopaminérgica em relação à
atividade colinérgica nas vias mesolímbica e mesocortical. 82

As vias dopaminérgicas caminham paralelas a vias colinérgicas no Sistema Nervoso
Central (SNC). O equilíbrio das atividades dopaminérgicas e colinérgicas é
importante para a normalização das funções destas vias. 81 A redução da atividade
colinérgica nas vias mesocortical e mesolímbia e o aumento da atividade
dopaminérgica relatam a presença de alucinação e delírios. 82

Na “hipótese de desconexão” da Esquizofrenia, estudos revelam que as anomalias
cognitivas e perceptivas que ocorrem nessa doença são causadas por desconexões
específicas dos mecanismos colinérgicos e dopaminérgicos expressos a nível
sináptico. Estas alterações temporais com a duração de apenas milisegundos seriam
responsáveis pelas alterações da capacidade dos doentes integrarem e
contextualizarem as entradas sensoriais e, em consequência, serem incapazes de
formarem respostas apropriadas e adaptativas. De acordo com esta hipótese, tais
desconexões interferem com os processos normais de novas aprendizagens, cujas
alterações são referidas como “dismetrias” entre o processamento cognitivo e o
perceptivo. 85,86,87,88,89

O estresse, quando não controlado, além de ter capacidade de desenvolver diversas
doenças fisicas e mentais, pode também constituir um comportamento desequilibrado,
com atitudes que priorizam a fuga de seu sofrimento orgânico e psíquico. Estes
indivíduos, acometidos pelo estresse poderão fumar mais, beber mais álcool, dormir
menos, fazer menos exercícios, ter pior alimentação e realizar ações descontroladas.
90,91 Sendo que todos estes comportamentos estão correlacionados com o aparecimento
de diversas doenças. 5

Ficou evidente que o Sistema Simpático-Adrenérgico--Medular (SAM) e o Eixo
Hipotalâmico-Pituitário-Adrenocortical (HPA) colocam os indivíduos em maior risco de
desenvolvimento de desordens físicas (enfarte do miocárdio, esclerose múltipla, dor
abdominal, desordens menstruais, infecções virais, diabetes, artrite reumatóide,
câncer) e psicológicas (depressão, ansiedade, neuroses, psicoses, esquizofrenia). 5

CONCLUSÃO
As respostas orgânicas, após a exposição aos estímulos estressores, podem
desencadear reações psicológicas que alteram o desequilíbrio fisiológico.
A resposta de luta-fuga 93 revela existir sistemas padronizados para realizar
determinadas reações para contrapor estímulos que são perceptíveis como “perigosos”
à espécie. A ativação continuada dessas reações, mesmo que receptíveis,
psicologicamente, emergem uma série de sintomas orgânicos que se resultarão em uma
doença. Este fato se concretiza devida a presença de hormônios, liberados mediante
os pensamentos e as reações pretendidas, o que altera o equilíbrio para promover uma
ação que garanta a sobrevivência. 49

Diante do exposto, torna-se prudente investir maiores esforços na prevenção do
estresse como controle da saúde dos pacientes, proporcionando um conhecimento sobre
a interação entre os sintomas físicos e mentais.
Portanto, é de suma importância para a saúde física e mental das pessoas que elas
saibam identificar as manifestações do processo de estresse, e que aprendam com os
profissionais de saúde a detectar quais são os estressores que desencadeiam o
processo doentio e como poderão utilizar “mecanismos de enfrentamento” eficientes
para a adaptação ao estressor e, conseqüentemente, interromper a evolução do
processo de estresse. 94,95,96,97

Estudos em seres humanos utilizando vários paradigmas experimentais apóiam a idéia
que o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) atua como um papel psicológico e
fisiológico importante para enfrentar o estresse e moderar seus efeitos na saúde e
no desenvolvimento de doenças relacionadas ao estresse 25,98,99,100,101

Cabe aos profissionais da área de saúde evoluir o tratamento para compreender o
sofrimento do paciente, formando uma assistência adequada que forneça subsídios para
o equilíbrio físico e mental.

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