PROCÓPIO

 GUAPOREANO

A HISTÓRIA DE UMA VIDA

 

Selmo Azevedo Apontes
 Membro da Academia de Letras do Brasil

Guajará-Mirim, Abril de 2002

Introdução?

         O material que agora você tem nas mão foi resultado não de uma “pesquisa científica”, mas de uma pesquisa totalmente informal de alguém que é preocupado com suas origens e quer se conhecer um pouco fazendo o caminho inverso: conhecer sua história geracional, seus componentes e seus diluentes.

         Devido a despreocupação metodológica, pode-se perceber no texto a constante interferência minha  no diálogo. Não é querendo me desculpar mas apenas justificando: a conversa estava tão interessante que tive que fazer interferências, pois a imagem que estava montando na minha mente através daquilo que era contado era muito intensa que buscava detalhes, buscava mais pistas, buscava que meu avô materno (o entrevistado) deixasse revelado o seu eu e o seu conhecimento de vida como guaporeano.

         Considero o estilo como “epopéia” ribeirinha, forjado pelas curvas dos rios levando a vida às vezes contra a correnteza. Mas, ao mesmo tempo a calma do rio que corre, a seu tempo, para o grande mar.

         Fiquei muito  preocupado em como deixar registrado certas peculiaridades próprias do falar do Sr. Procópio. Alguns podem taxar de “anti-gramatical”. Para deixar registrado, eu não estou nenhum pouco interessado, ou mesmo preocupado em ser taxado de tal. Queria deixar expresso o jeito simples do falar, do comunicar, do transmitir o  conhecimento de sua experiência de vida que não foi impedido em nenhum momento por causa do uso da variedade não-padrão.

         Está aí um material feito através de uma pesquisa artesanal que tinha apenas um objetivo familiar. Mas que estendo à esta grande família pois não somos ex-tranhos uns dos outros e sim in-tranhos uns aos outros.

Selmo Azevedo Apontes

 

Dedicatória?

 

A você que viveu

Batalhou

Batelou

Rimou a dor com a  alegria

Remou a vida com pulsos fortes

Navegou no norte

Com mãos calejadas

Soube ser forte

Adquiriu a vida

Passando pela morte

Que como semente

É forte

É fecunda

E emerge

Da frágil e gentil

Terra.

O lençol de água cobre teu corpo

A bandeira vermelha cobre tua fé

 Sorriso eterno cobre tua vida

Vida dividida com o  Guaporé.

Procópio.

Selmo Azevedo Apontes

 

Vamos fazer uma entrevista com o Sr. Procópio Azevedo. Ele vai contar um pouquinho da sua história, da sua experiência de vida aqui nesse vale do Rio Guaporé e Mamoré.

Ele vai começar contando o lugar de seu nascimento, seus pais e daí por diante.

(Ele toma o gravador, põe próximo de si e... cumeça...)

Primeramenti, meus pais sendo  Sérgio de Azevedo, maranhense, e Cipriana de Azevedo, matogrossence, são os meus pais. Intonce, saí de Pedras Negras cun a idade de 13 anos pa corre o mundo. Intonce, vim pra um lugá de nome Costa Marques. Saí, embarquei nu)a embarcação por nome Santa Maria, vindo de Pedras Negras pa Costa Marques. Meu patrão chamava-se João Suriadaks. Intonce, me ocorreu que durante 28 anos trabalhei cun esse sinhô. Intonce, daí já fui procurá a minha vida. Ele foi se embora pa Grécia, queria me levar e eu nun quis acumpanhá-lo. Intonce fiquei aqui no meu Território de Rondônha juntamenti cun os meus familiares.

Que trabalho que o senhor fazia cun o João Suriadaks?

Era impregado. Ele trabalhava, a embarcaçon dele chamava-se Santa Maria. Intonce aí eu era Cumandanti[1], Prático[2], fazia tudo, intonce, nesse embarcaçon pra ele. Inton me ocorreu durante essis 28 ano que trabalhei cun ele, daí ele foi se embora pra Grécia acumpanhado da sinhora dele, por nome Décima, intonce eu fiquei aqui no Guaporé, mas apoiado pelo filho dele Eurípedes Suriadaks.

Nessa época o senhor já conheci a Dona Benedita?

Inda non.

 Intonce aí foi indo, me casei, construí família. Isso era onde? Aqui, lá em Pedras Negra. Intonce construí família, vim pra Costa Marque, aí tivemo 10 filho, 6 home e 4 mulhé. Intonce tô aqui junto delis, durante.. todo esse tempo, né? E meus filho também se encontra aqui também em Costa Marques. Intonce nun saí mais daqui, fiquei aqui. Viajei muito na embarcaçon de Guajará a Cabixi fazendo marretage[3] juntamente cun os que trabalhava na embarcaçon dele. Intonce, depois que construí família, fiquei aqui, trabalhando e ficando junto cun eles, botei meu filho pra estudá. Intonce fiquei aqui trabalhando e continuando junto cun elis. Sempre foi um hôme que me deu muito apoio, antes dele viajar fui bem recumendado pelo filho dele, intonce eu fiquei trabalhando pur aqui pra mantê a minha família, meus filho, que hoje em dia tá tudo aí, hôme feito, vários deles son empregado do Governo e eu tô aqui nessa luta aqui, apoiando sempre ele, cun a idade de 71 ano, intonce vô indo aqui.

Aí eu arrumei aqui de me aposentá, graças a Deus eu já tô me aposentado. Eu acho acho bom a minha vida, graças a Deus, e vô levando conforme Deus pérmite.

Todos seus irmãos também nasceram em Pedras Negras?

Tenho três irmon: Herculano Azevedo, Julião Azevedo e Joaquim Azevedo. Dois é falecido, só se encontra eu e Julião Azevedo. Todos nasceram em Pedras? Tudinho nasceram em Pedras Negra.. Então lá era um povoado.  Era um povoado bem grande, bem grande mermo, intonce foi aí que eles se criaram tudinho e daí depois que pegaram uma idadezinha cada um procurou já seu rumo, um trabaio pra se manter, porque aí era difícil pra se mantê, emprego, essas coisas, tudo era difícil.

Naquele tempo, qual era a povoação maior aí do Guaporé?

Costa Marque, Limoeiro (no rio São Miguel), Porto Murtinho e Santo Antônio, Versalhes, Pedras Negra, Ilha das Flores, Laranjeiras, Remanso e Santa Cruz, Cabixi.

Em todos esses eles trabalharam em que? Nessa region a forma de trabalho era somente castanha, poalha, seringa e caucho. Esse era nosso serviço.

Castanha era em que período? Em janeiro, do dia 20 de Janeiro a 20 – 30 de Março. Agora poalha, nós cumeçava, terminava castanha, cumeçava mês de abril e passava pra poalha.

Poalha era o quê? Era um material que servia pra muito, pa medicina. Medicina? Hã hã. O nome dela aqui pra nós era poalha. Vendia pra quem? Nois vindia pro patron, Suriadaks, Massud, Cavaquinho, todos esses compravun. Intonce esse aí se chamava poalha, intoce nós ajuntava aquele mutiron de 10, 20 30 hôme e subia naquele garapé grande que tinha por aí pra fazê, pra arrancar, pra procura aquela planta. Que tamanho era mais ou menos aquela planta? A Planta dava  uns 20 - 30 cm. Só isso? Ah hã. Era rasteira? Non, non, non, non, non, non, era em pé de serra. Em pé de serra aí que era o lugá dela. Não era em campo? Non non non non non! Era em pé de serra! Aí a gente fazia aquelis picadon na bera daquelas serra e ai procurava aquele mato, aquele, assim cumo dizê, aquele capim ai, inton chegava e tava assim grosso, inton a gente chegava 10 - 12 dias trabalhando naquela... Colhendo!? Non, arrancando. Aí secava..  Arrancava. A média do poalheiro bom mermo era  2 quilos por dia, dois quilos, verde, né? Agora aquilo secava e ia dar uma base de 600 - 700 grama, depois de seca, depois de seca ela estala assim. Tipo grama? Iiiisso mermo, isso mermo. Aí a genti ... E o preço? O preço a gente..  Era o mesmo da castanha? Non non non non. A castanha era por barrica[4]. E a barrica era quanto? Barrica era 3 caxa de querosene, da altura da caxa de querosene, intonce a gente usava aquela duas lata em uma caxa, aquilo pra nóich[5] era uma caxa de castanha. Tinha hôme que trazia 4 caxa daquelas. Por dia? Non, só duma viagem da mata pra, pro barranco. Já quebrada? Já quebrada e tudo. Ele ia primero amuntuá. Aí quebrava aquela castanha e já tinha o dia  marcado cun o praton, pro praton chegá. Aí ele quebrava  aquela castanha aí quebrava e butava na bêra ai vindia e entregava pro praton. O preço... As caixa... O preço era naquele tempo era 10 mi reis. A caixa? A barrica era três caixa. A barrica era três caxa. Intonce.. (Ele dá uma gostosa risada...) Hi hi hi hi hi, intonce...  Era trabalho pra todo dia? Ma rapaz, né, i agora... Passava quanto tempo pra conseguir aquela, essas três... aquela barrica? É. Num lugá que tinha muito, você fazia mahomeno  3 - 6, nós  fazia uma base de três barrica  por dia. Três barrica por dia? É três barrica, num lugá que tinha, mas cando[6] num tinha era mais difíci pa fazer as três barrica, num lugá quando chegava nas primera cabeçada[7] assim, aí dava pra fazê, inton  dava pra fazê alguma coisa. Dava pra comprá umas ropinha, um calçadinho pros minino e enchê a barriga dos guri.

Ai  a Poalha..  Era por quilo, por quilo. Inton eisi[8] vinha e comprava o quilo. O quilo naquele tempo da poalha  cumu era difícil, nós achava mu)to bom , aquilo era mais caro, era uma base de  15 mi reis o quilo. Era mais difícil... Era, era mais difícil. Era 15 mi reis o quilo. Inton nós naquele tempo, nós fazia a .... Daí saía da poalha, cando cando chegava mês de abril a terra já tava seca, aquilo era arrancado, ô Selmo, assim ... cun uma alavanca de ferro, inton aquela alavanca, aquilo que nós arrancava ...  Era duro então?  Nossa, nun era fácil (outra gostosa risada) hi hi hi hi , cun aquela alavanca... todos cun aquela alavanca? Cun aquela alavanca, e aquela alavanca tinha que carregá, pur exemplo se você fosse trabalhá cumu daqui a Santa Fé[9], lá, adonde fosse...Fora muchila... fora Muchila i ispingarda, você tinha que carregá  a alavanca purquê aquilo era tua.. cun aquilo que você ia fazê aquele produto.  Tudo nun panero? Nu panero, nu panero, nu panero. Aquilo era o rancho, numa base de 20 - 30 quilo de, de ...  cunida... cumida, esse pra trabalhar, a rede, a coberta e  o mosquitero, por causo da murisóca, e e e e tinha lugá, ô  Selmo, que ocê nun aguentava non, você tinha que se metê nu musquitero, dividu a carapanã. O lugar que ces[10] chegava era durmir do jeito que dava? Do jeito que chegava, era só butá a corda da rede  e quem non tivesse era butá aí mermo no gramado...  Não tinha problema de de bicho?  Bicho. Non non non non non, purquê munta gente, né, mutiron nun tinha esse pobrema. Ai, daí cando era de manhã todo mundo se levantava, tomava seu café da manhã, cumia e tacava-se pro mato. Cando era duas, três hora da tarde vinha chegando cun 1 kilo, dois quilo, caba[11] bon trazia até três quilo, naquele lugá que tivesse, que tinha munto poalha intonce ele arrancava até três quilo. Era folha que servia? Non non non non, era raiz. Raiz?! Raiz, um hum. Só a raiz? Exato, o o o pau, a folha tudo fica ai no mato...  a raiz... agora a raiz que nós trazia pra cá. Aí era era era um sacri....(mais uma gostosa rizada, agora curta...) hi hi hi. Daí já passava por? Daí ia secá aquilo, cando chegava já pro barracon, secava, Cada um secava o seu, é cada um secava o seu, quando era... Ai entregava pros patron aquela poalha. Aí eles ganhava um bom dinhêro porque  ele vendia pros pros pros Estadusunido pra nun sei pra onde... Aquilo era era um assim cumu...

A poalha, pra quem nun tinha custume, eli imbriagava. Embriagava? O chá? Non só a, o chêro da... Raiz da folha? Só de você tá trabalhando cun eli, eli adoecia... Então muita gente ficava tonto? Ficava bebo, sabe, assim cuno quando você bebe cachaça e fica assin... puisé, ficava... Tinha gente... Então não era todo mundo que trabalhava cun poalha? Era quase gente esculhido pra... Mas ...  é pra, mais resistente pra trabalhá cun aquela poalha. Nun era, assim, qualque, nun era nêgo... E outra coisa, quen nun si si dava também ficava cheio de pereba, só pelo chêro dela, só de trabalhar cun aquele material...  Um tipo de alergia... É, um tipo de alergia sim, assim aquelas perebadas pelo corpo tudo...  Mas chegava a morrer? Non nun nun, nun murria porque depois nois inventemo, assim, tomá o chá da folha, inton tomá o chá da folha arrebatia tudo todo do  mal-está do corpo, porque tinha nêgo que ia trabalhá e chegava caindo, deitado aí... nun aguentava, bêbo bêbo bêbo só cun furtidon[12] da da da raiz, purque aquilo era nun bizaco que a renti[13] carregava aqui assim e cada pé daquilo que tinha raiz, você tirava e but... e ia metendo dentro do ...  Saco... bizaco, saco. Você vê o sacrifício cumu qui é... De seringa, bizaco de siringa? Non non non, nois fazia de istopa, nos fazia uns bizaco bem feito ... E o trabalho que dava... É, o trabalho que dava e a rente derramá, longe que ... nós ia viajar, as veiz[14], conforme nois ia trabalhá ficava mais distante  o serviço. Intonce nois ia mudando, aquele lugá que nós sempre procurava, aquele lugá que tinha água aí nun tinha ido aí a gente ia arrudiando. Então em toda a berada do Guaporé já teve muita poalha? Já já já! Teve muita poalha. De Pimenteiras té... Tudinho, de Cabixi até, vamo dizê, Costa Marque, Forte Príncipe da Bêra, Conceiçon, esse lugá tudinho era lugá bom de de poalha; é,  esse trecho tudin.

Ai da poalha passava pra? Ai Siringa. Aí, nóis, quando chegava mês de abril maio, já, junho, já ia pra trabalhá siringa. Agora os patron ia, assin, meis de maio. Ele já trazia mercadoria lá de Guajará intonce ele colocava os freguês, por exemplo, eli tinha 10 - 15 colocaçon ele colocava gente pra trabalhá, pa cortá a siringa. Era três estrada pa cada um seringueiro. Agora...  Se desse sorte de achar seringa boa... Siringa boa, e tivesse sorte ele fazia. Era, o siringueiro falado mermo era 1.200 1.400 - 1.500 quilos. Por? Por cabeça! Por cabeça? Por cabeça! Demorava quanto tempo? Demorava 6 meses. Agora aquele era siringuero que patron adorava ele, você só nun tirava o que você nun quiria. Você chegava no barracon assim... Agora também tem u)a coisa, o barriga verde, esse aí, Num queria saber de nada...  (risadas). O patron midia o rancho pra ele. Barriga verde por quê? Barriga verde? É! Porque a burrachinha que eli fazia era 200, 100, 200, 300 quilo, há há há há há. Enquanto uns faziam 1.400... Eles só fazia essa midida... Dava despesa pro patron.... É. Intonce esse aí, nós chamava ele de barriga verde e mela-buião. Mela-buião? É! Mela-buião. Ai ai ai, esses eram os preguiçoso? É esse era os preguiçoso, isso. Esse aí era em que período? De junho a dezembro, aí cando chegava dezembro já entrava pa castanha já entrava janêro e aí terminava a castanha entrava pa poalha. Esse era  O Calendário...  O Calendário do Guaporé!

Agora a seringa, voltando um poco atrás de novo, a seringa a rente vindia tambéin pros, patron e tinha munto que tinha suas colocaçon própia e vindia pros marreterros. Eles chegava em sua colocação e dizia “cunu é, tem u)a burrachina pra gente? A gente tem mercadoria, se tiver borracha a gente cunpra“. Aí, as veis aquelis que nun tinha cumpromisso cun patron, vivia mais ou menos né, nun ia esperá o patron. Ele tinha o dele, tinha o dele. Assim a gente vivia, desde daqui, de Guajará a Cabixi.

Quem era os patrões mais famosos de...  Ah ah, desse vale, desse seringal era o seguinte: João Suriadaks, Massud, Kalli, João Carlos de Oliveira, que é o Cavaquinho que eu falava.... Intonce essis era os  patron mais forte. João Suriadaks tinha imbarcaçon própria; Massud Calli tinha embarcaçon própria dele inton eles subia. João Suriadaks era Grego...  Era Grego. Massud  Calli , que é o pai do Badra, do Latifala, da Olinda, desse pessoal lá, tudo esse era Turco. Turco? Turco. Ele foi moradô muitos anos daqui de Costa Marque, o outro era Grego, o Suriadaks, o Cavaquinho era brasilero.

Não tinha a história de um que era dono da metade dos seringais...  Non, sin, mais esse aí era propriedade dele era em Santo Antônio. Esse chamava-se Balbino Maciel. Balbino Maciel. É Balbino Maciel. Agora esse, Selmo, viajava de Santo Antônio a Porto Velho de rio. No rio? De rio! De Remo!.... Ele era patron e viajava. Butava embarcaçon, butava 15 - 15 não 16, é vamo dizê 16 porque era de um lado e de outro num batelonzinho que ele viajava nesse Mamoré, Guaporé até Guajará. Pegando o pessoal? Non! Pra trazê mercadoria  de lá pra cá, à muque[15]. Vamo dizê de Porto Velho. Tinha estrada de ferro em Guajará. Ele trazia aquilo e... naquele tempo não tinha os barco de hoje, intonce era na marra mermo... Butava aqueles hôme pa viajá de dia e de noite: butava um poco pra remá de dia e ôto poco de noite...  Então uma viagem dessa demorar era dias? Era mêis, era mêis! Mais tombéin ele trazia tudo que precisava aqui po Guaporé. Intonce todas as coisa dele era marcado e a residência dele era em Santo Antônio. Intonce... Aí... depois de muitos ano houve um poblema cun ele, intonce ele, conta o pessoal, porque naquele tempo eu não existia, assim de sabe o que se passa, eu ouvi o pessoal contando né, ele era o hôme mais rico daqui de dentro do Guaporé. As coisa dele cando vinha de lá de fora, assim vamo dizê vasilhame, vinha tudo marcado “Balbino Maciel”. Tudo registrado. Tudo registrado: Balbino Maciel. Já vinha tudo marcadinho.

Então, Santo Antônio já foi um lugar bonito. Santo Antônio já foi  lugá bunito. ... Aí, Selmo, ele foi, ele é que trocava os produto, aí ele foi, aí houve um poblema cun ele e ele ficou meio doido, .... aí  ele.... se discontrolô... aí ele sismou que via... num sei o que é que ele pensou... aí, Selmo, ele ajuntou, tinha aquelas libras isterlina. Isso era do estrangeiro. Non, daqui do Brasil, daqui do Brasil. Daí ele foi e .... e... butô dois cabra, mandô incaixota aquele dinhêro, aquela libra isterlina, era moeda, era assim cumo hoje tem essas muedas, aquelas libras cumu nois chamava, aí ele foi e mandou encher aquelas caxas de libra isterlina, e acima de Santo Antônio tem um remanso muito grande. Tem nome aquele remanso? Non, num tem nome porque, coisa assim, é, é, remanso de Santo Antônio. Intonce ele sentô na canoa, bateu mon no rifle e ... (uma gostosa risada)... uma 44 daquele tempo, aí ele sentô-se na popa da canoa e botô os cabra pá remá lá po rumo daquele remanso. Aí ele chegou naquele remanso, ele foi, ele era rico mermo, rico, e mais rico que existia em Rondônia, no Guaporé, porque naquele tempo num existia Rondônia, era Guaporé, intonce ele foi, mandô os cabra, num é jogá as caxa, derramá, jogá não, derramá. Jogá é uma coisa, derramá é outra. Mandou os cabra derramá, e os cabra “não, num, num’, ele arrastô o 44  (mais uma gostosa risada) aí os cabra bateu as caxa no meio da canoa. – “Derrama aí!” - Aí foram, aí foram derramando aqueles dinhêro, num foi jogado. É fundo lá? Vige Maria, aquilo tem uma base de 20 ou 30 metro de fundura. Mais aí tem algum bicho feio? Tem, tem. Aí é a moradia dessas, dessas cobra grande, por exemplo dessa... Jaú, Pirarara, tudo esses pêxes grande du Guaporé. Num é o mais fundo. Mais é numa base dessa que eu já falei pra tu. Bom, aí, depois que terminou ele foi embora pra casa... E lá ele endoidou e foi indo, e foi indo, adoeceu e faleceu, esse Balbino Maciel... Intonce, Santo Antônio já ficou abandonando, e as pessoa foi saíndo porque já num tinha uma pessoa que tomasse conta do local. Intonce abandonou, hoje em dia você vê Santo Antônio do jeito que tá, abandonado, largado aí tudo. Era o lugá mais bonito. Era mermo que 7 Costa Marque, viu?

E as colocações, quem era que ficava, era o pessoal vindo de Vila Bela ou era daqui mesmo? Non, non, non, era daqui, porque veio um bucado de gente de fora, mais esse já foi já de uns tempo de fora, de 40...  É mais ou meno isso aí, isso aí já foi gente daqui mermo, de Vila Bela do Mato Grosso, né? Puraqui mermo, num sabe?! Aí despois, já de 40 prá ca, já veio gente de fora. Já veio esses arigó, cunu nois tratava aqui, aí já encheu, já preencheu aqui. Aí esse que já vieram, nenhum deles sabia trabalhar, extrair a siringa, Intonce nois aqui que fumo sê o professor delis, insiná eles... Seu pai? ...  Era Maranhense. Maranhense. Ele veio prá cá  cun a idade de 10 ano. Aqui que ele casou, construiu família intonce foi adonde ele teve filho, que sô eu Procópio Azevedo, Julião Azevedo, Herculano de Azevedo, viu, Joaquim Azevedo, agora mulhé non, mulhé ele num teve non. Só home. Só home. Só home! Aí já foi que já foi chegando o pessoal de fora, que eles já vinhon de lá, os patron traziun de lá, os arigó, né? Nois chamava de arigó, porque ninguém sabia o nome de ninguém, -       “essis arigó aí – esses arigó daí” -. Intonce, daí é que foi construindo família aqui e foram aumentando, foram aumentando, e hoje em dia tem muita gente aqui, qui num sabe, qui num tem nem parenti aqui nem nada. Chegaram, foi entrando, foi ficando... E também munto dos que chegaram, coitados, foram morrendo, de malária? Malária e Beriberi. Beriberi? É u)a doença que dá cá na bariga d’água, cresce a barriga dos cabra, aqui.. Por causa de... Por causo de que eles num cuzinhava, num sabia, era só no chibé, açúca cun farinha d’água, elis misturava tudo... Eles não ia atrás de caça? Non, non, non, non, .. as que nois dava pra elis, pra eles cumê,  eles num sabia de nada, Selmo, coitado, num, num, elis num sabia caçá, num sabium pescá, nada nada.

E as colocações, não tinham confusão de briga de índio, gente não morria? Ah!, non, aqui no Guaporé? Tinha, mais..., era mais difícil. Mas aí, acima de Guajará-Mirim. Aí era o berço deles? Aí sim, aí era o local, eles matavam. Se entrasse aí... Era difícil ele se saí. Inton, imbarcaçon eles flechavun, eles tinha esses lugares, aqueles barranco alto, na espera, eles flechavun. O rio era cheio de curvas... Era assim, assim, garapé, eles ficavam amoitado aí. Quando a embarcaçon ia passando, eles metiam flecha para cima, flechavun nego... Matavun, flechavun, degolavun, faziam tudo qui elis intendia. Agora aqui de Guajará, do Mamoré prá cá, era mais difícil. Até a boca non, esse trecho era mais difícil. Eles viviun longe, sabe? da boca do rio, sabe? Tinhon a ardeia deles, mas era mais longe, vamo dizê o Cautário, viu, tinha aldeia? Tinha, tinha ardeia, mas num era na bera, mais era mais longe, do Cautário, São Domingo, São Miguel, o Rio Branco do Revoredo. Aí também era uma ardeia grossa, aí tinha muito índio que néra[16] brincadeira non. Aí o pessoal trazia os índio prá baixo prá não criar confusão... É, non, viu, eles aí, o Revoredo, tinha aqueles, os índio velho..  O Revoredo era o quê?. Era o patron daí do Rio Branco. Intonce ele só trabalhava mais cun o índio, num trabalhava cun civilizado non. O causo dele era só índio, só índio. Aí ele ia pá Guajará... Era brasileiro, esse Revoredo? Aí ele carregava a embarcaçon dele, ele tinha motô, ne? motô de centro, daí ele ia pá Guajará, de lá ele vinha diretamente prá aí. Aí ele tinha um seringal que chamava-se Laranjal, intonce era a situação adonde localizava os, índios tudim ficavun aí. Só trabalha cun índio? Só, e os índios gostavun muito dele, e chamava ele de “papai – papai aqui”, intonce, e ele aprendia a gíria do índio... Intonce ele tava em casa, intonce os índios faziun tudo que ele queria. Ele era um home, a estatura dele era cumu, assim uns 30 – 40 ki.. (risadas) ... era bem magrinho, Selmo, magrinho, só a cabeça dele era..., era meio cabeçudo. A média  30 ou 40 quilo, num era mais do que isso. Tinha mulhé? Tinha, tinha  sim,  Ah, é... (risada) pé di pano por aí. ... Mas o sangue dele se deu cun os índio e os índio gostava muito dele. Tinha esse lugá por nome Laranjal que era o setô dele mermo. Ma rapaz, chegava lá tinha de tudo. Os índio trabalhava prá ele, fazia roça, fazia burracha, castanha, puaia, tudo, e “elis sabia donde as cabra malhava”, porque índio já sabe, ele sabe né?... E ele era um patron bem quisto em Guajará-Mirim, esse Revoredo. E ele trabalhava só mermo cun us índio.

Bom, daí agora, donde que nois vamo prá? Descendo. Subindo. Nois tava falando do local adonde tinha os índio. Agora você qué qual? Que parte você qué? Lá pra baixo, lá no Cabixi, por Pimenteiras, num tinha? Ìndio mermo era difícil, era meio difícil. Aparecia, mas... Era acima de Pimenteira era, No igarapé do Piolho? É! Por aí mermo, Intonce, quando o finado Coronel Saldanha fazia viage até Vila Bela do Mato Grosso, intonce ele chegava assim, eles inchergava as imbarcaçon, eles saiam tudin nas praia. Elis vinha na praia pra pará a embarcaçon, aí elis fazia aquele gesto, aquele sinal prá pará. Aí tinha uma coisa, Selmo, você vêsse isso, tinha que guardá tudo, corrente, cordão, anel, você tinha que guardá tudo, purque candu chegava – “Ele aqui qué essi, ele aqui qué essi”, e arrancava mermo e levava – e entrava na embarcaçon e – “papai aqui, papai aculá” – porque ele quando se dá cun uma pessoa ele só chama de pai. Intonce eles sabia que era a lancha do Coronel Saldanha, intonce ele dizia – “papai aqui, papai aqui” – ele mandava encostar e dava aqueles, por exemplo assim, espelho, pente, coisa de butá na cabeça prá mulhé, roupa, porque já sabia que eles iria pará... Se não parasse...  Ah, non, non, non, non, aí já nun prestava mais. Aí elis castigava, aí ia nu brutal, na flecha delis... O Coronel Saldanha dava tudo aquilo prá eis, prá, pro capiton... eles tem o capiton deles, o chefon, o que manda, aí eles repartiom e aí eles contava, Selmo, ... assim cumu janeiro, fevereiro, aí eles contavum lua lua lua lua lua lua lua, demoravam, pá pá voltar de novo. O tempo deles eles marcavam pela lua. Tavum marcando o tempo pa o Coronel passa de novo (mé dá um copo d’água Sêmo)... Aí quando dava o tempo, elis tavun aí na pusiçon (bebe a água) esperando, o Coronel Saldanha,  ô motor ô lancha que fosse, cando eles saíum nu barranco ô na praia tinha que pará. Elis gostavun mais de coisa que... pintura, ma rapaz, eles ficavun munto sastifeito,... Eles dava alguma coisa em troca? E eles davun  midubin, porque o Coronel dava tudo prá elis.  Eles tinha Midubin? Tinham pássaros, que ele quisessem elis pegavum arrara, pato, curica, macaco, tudo tudo eles traziam de presente prá ele, assim quando eles bachava cun a imbarcaçon, naquele tempo num tinha IBAMA, né? (risada)... Ai elis contarra[17] “papai  papai aqui, lua lua lua lua lua non”. Ele dizia “tal mês eu vô tá aqui”, e eles contavam no dedo, e quando dava o mês, elis tavun esperando no canto certo, no local prá donde tinha que pegá as coisa e dexá pro Coronel Saldanha. Então o Coronel era bem visto pelo pessoal? Era, era! E o outro Coronel, Aluízio Ferreira também vinha. Vinha, mas não era todo tempo que ele vinha non, tinha o tempo marcado prá ele vi por aqui. Agora, o Coronel era quem fazia isso, o Paulo Saldanha, o João Saldanha, era de descendência do Coronel Saldanha que viajava aqui no rio, dos que primeiro cumeçavum a navegar, eles tinham lancha...  é  tinhun lancha, ... era, naquele tempo chamava-se SNG – num era ENARO nem nada – era SNG – Serviço Nacional[18] do Guaporé...

E a criação, como era? Como vocês foram criado, era em Pedras Negras, néra? Ai, quando era pequeno, era criado cun leite de castanha?... 

Ah, esse aí era “corredor de traíra”. Ah, lobó? É Lobó! Inton, nós fumo, qué dizer, nós fumo criado cun isso aí, era misturado também cun castanha, milho, arroz, feijon, essis aí nossus pais plantavum pra abastecer a casa... A macaxeira pra fazer farinha. Cun isso aí que nós fumo criado. Mas tinha munto que tinha suas cabecinha de gado. Ele tinha seu leite.

E vocês já acumpanhavam seus pais pra pescar...? Cun a idade de 08 – 09 –10 anos nós já acumpanhava os véio na luta também, na roça também cun us véio. E se num quizesse ir, os véio chamava “humbora, humbora”, num tinha cunversa non., num tinha mermo. Eles quiria que nóis aprendesse.

E as dificuldades?

A dificuldade pra nóis aqui era a leitura, porque na leitura nóis aqui tinha muntos, arguns que sabia. Intonce Dom Reys cumeço a navegá aqui no Guaporé, intonce foi ua viage dessa ele veio cun o Coronel Saldanha pegando uas mocinha assim cunu cun 12, 13 anos e levô pra Guajará-Mirim e butô num colégio pra elas aprenderem. Inton, daí dessas menina que o bispo levô pra lá, o Dom Reys, intonce elas estudarum, inton quando elas tinha o 1º o 2º ano aí ele já foi espalhando aqui no Guaporé. Aí ele ia colocano ua aqui, duas ali de acordo cun a populaçon que tinha – notu lugá ua, notu duas, e ia colecionando as minina tudinho, né? Já abria a escolinha. Ele mermo era carpintero – Dom Rey? – Ele num tinha negoço non. Ele remava canoa, ele varejava, ele pescava, ele era motorista, ele era tudo aqui.  Eu cunhici ele. Rezava? Rezava! Na hora da reza era cun eli mermo. Cun eli num tinha negóço non. Era padre mas num tinha esse negóço de dexá pra depois non.

Quando ele foi dexá as professora lá em Pedras Negra, as carteira ele num troxe de Guajará, nem genti de lá prá fazê aquilo non. Foi eli mermo e arguns daquelis qui moravum lá e que sabiam apregá quarqué coisinha, eli chamava. Aí chegava e “você vai trabalhá cumigo hoje e amanhã, e essas carteras nós vamu fazê”. Égua, num era prá depois não? Cun Dom Rey num tinha esse negóço de dexá pra amanhã non, era na hora mermo. Viu?. ... Chegô cun a professora num dia, ali eli subiu cun a Empresa, SNG, e quando chegô lá dexô duas professôra: a Estela Lemos Madeira e Eremita Cordeiro, essas forum as primêra professora de Pedras Negra. Até antes num tinha nada. Non, non, non, non. Só o pessoal trabalhando... Só o pessoal. Intonce, aí ele chegou num dia e no outra já tinha quarqué coisa. Aí ele fez as cartêra tudim e quando foi cun uma semana já tava tudo pronto. É... Aí ele chamo o pessoal, fez uma reunião, cunversô cun os pais, mãe do pessoal, daí “vai ficá fulano de tal que vai ensiná pra mais tarde elis aprendê”, cunversô bem cun elis. Intonce, daí “já vô dexá a escola funcionando”, aí imbarcô, notro dia de manhã, nóis fumo acumpanhá eli nu porto, aquele pessoalzon acumpanhando, filiz: “Êta, agora sim nois vamô tê uma Escola”. Ficarum tudo alegre, nossus pais...

Então onde tinha lugá, ele ia dexando as professôra? É, eli ia fazendo isso... Mas eli num néga non, Selmo, serviço, se fosse na enxada era na enxada, se fosse no machado era no machado, se fosse no teçado era no teçado, se fosse pra varejá a canoa no veron era varejando, se fosse no motor.... Mas era um home qui...

E ele falava bem o português? Tudo tudo,  ele falava muito bem,  ave-maria! E era bom, era bom quando ele chegava assim, trazia aquele monte de  bombom, pros minino, pa dá pas criança, aí (risada)... aquela mininada atrapalhava até eli trabalhá: “Non, non, non, non, meus filho dexá eu trabalhá. Fica aqui, toma aqui”, dava um bucado de bombom pa um, pa outro, aí ele sussegava. Mas amuntuava, chega ficava assim de minino atrás deli. E era nois tudo, naquele tempo eu era mulequinho também, tava nessa jogada ai juntu cun eli. Num dejava eli non, e eli gostava muntu de mim, graças a Deus.... Dom Rey, ichi... Então foi assim que ele começo a educá o povo daqui...? É, cumeçô a educá, educá, educá, educá, qui até hoje, graças a Deus, eu aprendi pur causa deli. Num foi im outra escola, nim foi cun outro non. Foi cun eli, na Escola de Dom Rey. Essa professora: a Estela Lemos Madeira e a professora Eremita Cordeiro. Agora, a Eremita era filha daí de Pedras, a mãe dela chamava-se Bernarda Paes de Azevedo. Agora a professora Estela, essa num era daí, ela lá do Mamoré; mas ela se deu muito bem. Todu mundo gostava dela e acudia ela; nois auxiliava ela.

Vocês aprendia o quê, escrever...? Cumeçamo (rizada) a cartêra, o Dom Reys  trose aquelas carterinha piquinininha – A B C D  - Essi era nossas cartêra.. Mash us home quase tudo brutu (risada),... num sabia pra onde que ia... tanto tazia, de cabeça para cima ô de cabeça pra baxo, otros num aprendia a letra ai passava... (risada) fazia só o buraco em cima da letra... (risada). Pra podê lembrá?... Só fazia o buraco, tudo brutu... Mas já era gente de 12 – 13 anos ou era criança? Non, Selmo, agora, era numa média de 6 – 7 – 8 ano. Agora já tinha munto que já tinha 10 – 11 – 12  ano, intonce... Acostumado no cabo da enxada. É, e mexer cun a ponta do lápis.  Era lápis ou era pena? Era lápis e a pena, num tinha caneta cumu a caneta, hoje em dia.  Colocava a tinta aí tinha uma peninha que metia aí, num sei se você chegô a cunhecê?! Não! Num cunheceu, pois é. Agora, os otro que era inteligente né, quando era tempo da gente fazê a prova, tinha muito que se saia bem, mas tinha munto burro cumu o diacho qui (risada)..., mas era uma graça. Agora nu dia da gente fazê a prova, num era cun a própia professora da gente. Era, pur exemplu, lá cun o delegado, cun quarqué pessoa particula do local que fazia o exame da gente, num era cun a professora. Agora, sempre muntos assim qui, a nossa média lá era, aluno bom mermo, qui num fosse  ruim da memória, era 9,0 – 1,0; 9,0 – 1,0. Ensinava a escrever depois ensinava... Ensinava escrever e ensinava matemática. Agora na matemática tinha nêgo de dançava, né? A matemática nossa era dia de sábado, sábado era o dia da matemática. Todo sábado? Todo sábado. E o dia de semana... O dia de semana era pras otras matéria. Non, dia de sábado era contabilidade. A professora chamava você, e nois fazia assim, intonce, ainda tinha a palmatória,  e perguntava assim “tanto cun tanto quanto é que é?” – “é tanto” – Aí passava. Agora  se perguntava a você “5 cun 5 quanto é que é?” – aí você ficava alí bobeando, e o outro já ali cun a régua, e era un minuto, dois minuto e o bicho  atrapaiava e preguntava o otro daqui  “quanto é 5 mais 5”, aí o outro dizia “é 10”, tudo bem, aí a professora intregava a palmatória pra eli  dá um bolo, mas num era um bolu de cumadi, bolinho assim divagarinho non. Tinha eu ser um bolu meio pesadinho o bicho, né?,  pra eli senti,  num errá. Num era a professora que dava non, era o próprio colega da genti. Cumu eli acertô, era eli que dava o bolo. Ai o bicho butava a mão assim, pudia ser do tamanho dessa coisa, mas tinha que receber a bolada. Assim  sucessivamente era a roda tudin, até terminar aquela leitura tudin...

Agora, tinha o caticismo também, agora se eu num mi ingano, parece qui era quinta-feira. Todo dia? Non, porque nois estudava de manhã até o meio-dia, onze hora. Tinha professora que via que a gente tava munto atrasado, inton ela fazia dois tempo. O negoço num era fácil non. Mash,  graças ao meu bom Deus eu aprendi um poquinho, hoje im dia sei ao menos iscrevê meu nome, porque se non tivesse Dom Reys pra butá essa escola lá, Selmo, essa turma do meu tempo tudo era burro burro, sem sabê nada, porque num tinha... Seria inganado, né? Ichi-Maria. Só queria uma boquinha pra querer enrolar o outro... (risada). Quanto é que deu lá  ... 500 quilo de borracha, cumo é que ele.. num pudia questiná. Quanto a isso, graças ao meu bom Deus num tenho que reclamá. E o senhor, pesava borracha? Pesava burracha, fazia recibo, graças a Deus eu aprendi. Tô sastifeito cun essas grande coisa qui Dom Rey fez pra nois aí em Pedras Negra, aqui no Guaporé, tudinho o Guaporé, cada um lugazinho ele butô uma professora. Tanto o pessoal gostava quanto era respeitado?! E era respeitado! Quando ele chegava aquele dia era feriado. Quando ele chegava, Dom Rey chegava, todo mundo ia esperar. “quando ele vai chegá?” – “Tal hora”, aí todo mundo já tava lá no porto, chega ficava carregado... (risada), eita, mas era munto bom. Antes dele num passava padres? Non, eu acho qui, Selmo, daí pá diante que eu já fui  entendê. Eu num sei o que passô daí pra trás, sei bem do meu tempo... Mas daí, quando ele chegava, uns tava caçando, pescando, daí tinha um sino pá chamá o pessoal, assim cumu quando qué i na igreja. ...Us minino num soltava deli non, era agarrado... Aí ele naquele tempo usava aquele cinto de São Francisco, aí ele pegava, “venha cá - porque você não fez isso, assim, assim, vai apanhá” (risada). Mas eli batia assim divagarinho, num sabe, pa fazê graça pas criança. Até eu ele pegava assim no braço e “você vai apanhá, porque num feiz isso assim assim, via apanhá”. Aí ele tirava a ponta do cinto, num era cinturon, era o cordão de São Francisco, mas ele era na brincadeira e a mulecada: “bate em mim, bate em mim”, num sabe cumu criança é. Ele gostava, ele gostava. Oh nosso Guaporé, né?! É! E era respeitado. Quando ele ia chegá, era feriado. E as cumida, pra eli...  ah, tinha de tudu, tudu, também levava de tudo, era cun ele mermo.  Então o Guaporé era farto...  Era, farto mermo, hoje em dia que tá... tá ficando difícil... o pessoal tem levado muitas coisa daqui... Mas naquele tempo tinha, bicho de casco era à vontade, só us bitelo, os crecido. Intonce, o pessoal cumeçarun a leva e levá e leva pur aqui e leva pur alí e vai acabando as criaçon do Rio Guaporé. Se elis num prevesse antes, isso ia acabá. Porque do jeito que ia...[19]


[1] mmmmmm

[2] dfdfdf

[3] vvvvvvv

[4] 3 lata de 20 litros

[5] nós

[6] quando

[7] primeira queda de castanha,

[8] eles

[9] lugarejo próximo à Costa Marques, média de uns 30 km por estrada

[10] vocês

[11] cabra, homem

[12] exalação do cheiro

[13] gente

[14] às vezes

[15] à força

[16] não era

[17] contava

[18] de navegação

[19] Infelizmente, eu, no momento da gravação, só tinha uma fita e nesse momento terminou a gravação...