PROCÓPIO
GUAPOREANO
A HISTÓRIA DE UMA
VIDA
Selmo Azevedo Apontes
Membro da Academia de Letras do Brasil
Guajará-Mirim, Abril de 2002
Introdução?
O material que agora você tem nas mão foi resultado não de uma “pesquisa científica”, mas de uma pesquisa totalmente informal de alguém que é preocupado com suas origens e quer se conhecer um pouco fazendo o caminho inverso: conhecer sua história geracional, seus componentes e seus diluentes.
Devido a despreocupação metodológica, pode-se perceber no texto a constante interferência minha no diálogo. Não é querendo me desculpar mas apenas justificando: a conversa estava tão interessante que tive que fazer interferências, pois a imagem que estava montando na minha mente através daquilo que era contado era muito intensa que buscava detalhes, buscava mais pistas, buscava que meu avô materno (o entrevistado) deixasse revelado o seu eu e o seu conhecimento de vida como guaporeano.
Considero o estilo como “epopéia” ribeirinha, forjado pelas curvas dos rios levando a vida às vezes contra a correnteza. Mas, ao mesmo tempo a calma do rio que corre, a seu tempo, para o grande mar.
Fiquei muito preocupado em como deixar registrado certas peculiaridades próprias do falar do Sr. Procópio. Alguns podem taxar de “anti-gramatical”. Para deixar registrado, eu não estou nenhum pouco interessado, ou mesmo preocupado em ser taxado de tal. Queria deixar expresso o jeito simples do falar, do comunicar, do transmitir o conhecimento de sua experiência de vida que não foi impedido em nenhum momento por causa do uso da variedade não-padrão.
Está aí um material feito através de uma pesquisa artesanal que tinha
apenas um objetivo familiar. Mas que estendo à esta grande família pois não
somos ex-tranhos uns dos outros e sim in-tranhos uns aos outros.
Selmo Azevedo Apontes
Dedicatória?
A você que viveu
Batalhou
Batelou
Rimou a dor com a alegria
Remou a vida com pulsos fortes
Navegou no norte
Com mãos calejadas
Soube ser forte
Adquiriu a vida
Passando pela morte
Que como semente
É forte
É fecunda
E emerge
Da frágil e gentil
Terra.
O lençol de água cobre teu corpo
A bandeira vermelha cobre tua fé
Sorriso eterno cobre tua vida
Vida dividida com o Guaporé.
Procópio.
Selmo Azevedo Apontes
Vamos fazer uma entrevista com o Sr. Procópio Azevedo. Ele vai contar um pouquinho da sua história, da sua experiência de vida aqui nesse vale do Rio Guaporé e Mamoré.
Ele vai começar contando o lugar de seu nascimento, seus pais e daí por diante.
(Ele toma o gravador, põe próximo de si
e... cumeça...)
Primeramenti, meus pais sendo
Sérgio de Azevedo, maranhense, e Cipriana de Azevedo, matogrossence, são
os meus pais. Intonce, saí de Pedras Negras cun a idade de 13 anos pa corre o
mundo. Intonce, vim pra um lugá de nome Costa Marques. Saí, embarquei nu)a
embarcação por nome Santa Maria, vindo de Pedras Negras pa Costa Marques. Meu
patrão chamava-se João Suriadaks. Intonce, me ocorreu que durante 28 anos
trabalhei cun esse sinhô. Intonce, daí já fui procurá a minha vida. Ele foi
se embora pa Grécia, queria me levar e eu nun quis acumpanhá-lo. Intonce
fiquei aqui no meu Território de Rondônha juntamenti cun os meus familiares.
Que trabalho que o senhor fazia cun
o João Suriadaks?
Era impregado. Ele trabalhava, a embarcaçon dele
chamava-se Santa Maria. Intonce aí eu era Cumandanti[1],
Prático[2],
fazia tudo, intonce, nesse embarcaçon pra ele. Inton me ocorreu durante essis
28 ano que trabalhei cun ele, daí ele foi se embora pra Grécia acumpanhado da
sinhora dele, por nome Décima, intonce eu fiquei aqui no Guaporé, mas apoiado
pelo filho dele Eurípedes Suriadaks.
Nessa época o senhor já conheci a
Dona Benedita?
Inda non.
Intonce
aí foi indo, me casei, construí família. Isso era onde? Aqui,
lá em Pedras Negra. Intonce construí família, vim pra Costa Marque, aí
tivemo 10 filho, 6 home e 4 mulhé. Intonce tô aqui junto delis, durante.. todo
esse tempo, né? E meus filho também se encontra aqui também em Costa Marques.
Intonce nun saí mais daqui, fiquei aqui. Viajei muito na embarcaçon de Guajará
a Cabixi fazendo marretage[3]
juntamente cun os que trabalhava na embarcaçon dele. Intonce, depois que
construí família, fiquei aqui, trabalhando e ficando junto cun eles, botei meu
filho pra estudá. Intonce fiquei aqui trabalhando e continuando junto cun elis.
Sempre foi um hôme que me deu muito apoio, antes dele viajar fui bem
recumendado pelo filho dele, intonce eu fiquei trabalhando pur aqui pra mantê a
minha família, meus filho, que hoje em dia tá tudo aí, hôme feito, vários
deles son empregado do Governo e eu tô aqui nessa luta aqui, apoiando sempre
ele, cun a idade de 71 ano, intonce vô indo aqui.
Aí eu
arrumei aqui de me aposentá, graças a Deus eu já tô me aposentado. Eu acho
acho bom a minha vida, graças a Deus, e vô levando conforme Deus pérmite.
Todos seus irmãos também nasceram em
Pedras Negras?
Naquele tempo, qual era a povoação maior
aí do Guaporé?
Costa
Marque, Limoeiro (no rio São Miguel), Porto Murtinho e Santo Antônio,
Versalhes, Pedras Negra, Ilha das Flores, Laranjeiras, Remanso e Santa Cruz,
Cabixi.
Em todos esses eles trabalharam em que? Nessa
region a forma de trabalho era somente castanha, poalha, seringa e caucho. Esse
era nosso serviço.
Castanha era em que período? Em janeiro, do dia 20 de Janeiro a 20 – 30 de Março. Agora poalha, nós
cumeçava, terminava castanha, cumeçava mês de abril e passava pra poalha.
Poalha era o quê? Era um material que servia pra muito, pa medicina. Medicina? Hã
hã. O nome dela aqui pra nós era poalha. Vendia pra quem? Nois
vindia pro patron, Suriadaks, Massud, Cavaquinho, todos esses compravun. Intonce
esse aí se chamava poalha, intoce nós ajuntava aquele mutiron de 10, 20 30 hôme
e subia naquele garapé grande que tinha por aí pra fazê, pra arrancar, pra
procura aquela planta. Que tamanho era mais ou menos aquela planta? A
Planta dava uns 20 - 30 cm. Só isso? Ah
hã. Era rasteira? Non, non, non, non,
non, non, era em pé de serra. Em pé de serra aí que era o lugá dela. Não
era em campo? Non non non non non! Era em pé de serra! Aí a gente fazia aquelis picadon
na bera daquelas serra e ai procurava aquele mato, aquele, assim cumo dizê,
aquele capim ai, inton chegava e tava assim grosso, inton a gente chegava 10 -
12 dias trabalhando naquela... Colhendo!? Non, arrancando. Aí secava.. Arrancava.
A média do poalheiro bom mermo era 2
quilos por dia, dois quilos, verde, né?
Agora aquilo secava e ia dar uma base de 600 - 700 grama, depois de seca, depois
de seca ela estala assim. Tipo grama?
Iiiisso mermo, isso mermo. Aí a genti ... E o preço? O preço a gente.. Era
o mesmo da castanha? Non non non non. A castanha era por barrica[4].
E a barrica era quanto?
Barrica era 3 caxa de querosene, da altura da caxa de querosene, intonce a gente
usava aquela duas lata em uma caxa, aquilo pra nóich[5]
era uma caxa de castanha. Tinha hôme que trazia 4 caxa daquelas. Por dia?
Non, só duma viagem da mata pra, pro barranco. Já quebrada?
Já quebrada e tudo. Ele ia primero amuntuá. Aí quebrava aquela castanha e já
tinha o dia marcado cun o praton,
pro praton chegá. Aí ele quebrava aquela
castanha aí quebrava e butava na bêra ai vindia e entregava pro praton. O preço...
As caixa... O preço era naquele tempo
era 10 mi reis. A caixa? A barrica era
três caixa. A barrica era três caxa. Intonce.. (Ele dá uma gostosa risada...)
Hi
hi hi hi hi, intonce... Era trabalho pra
todo dia? Ma rapaz, né, i agora...
Passava quanto tempo pra conseguir aquela, essas três... aquela barrica? É. Num lugá
que tinha muito, você fazia mahomeno 3
- 6, nós fazia uma base de três
barrica por dia. Três barrica
por dia? É três barrica, num lugá que
tinha, mas cando[6]
num tinha era mais difíci pa fazer as três barrica, num lugá quando chegava
nas primera cabeçada[7] assim, aí dava pra fazê,
inton dava pra fazê alguma coisa.
Dava pra comprá umas ropinha, um calçadinho pros minino e enchê a barriga dos
guri.
Ai a
Poalha..
Era por quilo, por quilo. Inton eisi[8]
vinha e comprava o quilo. O quilo naquele tempo da poalha
cumu era difícil, nós achava mu)to bom , aquilo era mais caro, era
uma base de 15 mi reis o quilo. Era
mais difícil... Era, era mais difícil.
Era 15 mi reis o quilo. Inton nós naquele tempo, nós fazia a .... Daí saía
da poalha, cando cando chegava mês de abril a terra já tava seca, aquilo era
arrancado, ô Selmo, assim ... cun uma alavanca de ferro, inton aquela alavanca,
aquilo que nós arrancava ... Era
duro então? Nossa, nun era fácil (outra gostosa risada) hi hi hi hi , cun
aquela alavanca... todos cun aquela alavanca? Cun aquela alavanca, e aquela alavanca tinha que carregá, pur exemplo
se você fosse trabalhá cumu daqui a Santa Fé[9],
lá, adonde fosse...Fora muchila... fora
Muchila i ispingarda, você tinha que carregá
a alavanca purquê aquilo era tua.. cun aquilo que você ia fazê aquele
produto. Tudo nun panero? Nu
panero, nu panero, nu panero. Aquilo era o rancho, numa base de 20 - 30 quilo
de, de ... cunida... cumida, esse
pra trabalhar, a rede, a coberta e o
mosquitero, por causo da murisóca, e e e e tinha lugá, ô
Selmo, que ocê nun aguentava non, você tinha que se metê nu
musquitero, dividu a carapanã. O lugar que ces[10]
chegava era durmir do jeito que dava? Do
jeito que chegava, era só butá a corda da rede
e quem non tivesse era butá aí mermo no gramado... Não
tinha problema de de bicho? Bicho. Non non non non non, purquê munta gente, né, mutiron nun tinha esse
pobrema. Ai,
daí cando era de manhã todo mundo se levantava, tomava seu café da manhã,
cumia e tacava-se pro mato. Cando era duas, três hora da tarde vinha chegando
cun 1 kilo, dois quilo, caba[11]
bon trazia até três quilo, naquele lugá que tivesse, que tinha munto poalha
intonce ele arrancava até três quilo. Era folha que
servia? Non
non non non, era raiz. Raiz?! Raiz,
um hum. Só a raiz? Exato, o o o pau,
a folha tudo fica ai no mato... a
raiz... agora a raiz que nós trazia pra cá.
Aí era era era um sacri....(mais uma gostosa rizada, agora curta...) hi hi hi.
Daí já passava por? Daí ia secá
aquilo, cando chegava já pro barracon, secava, Cada um secava o seu,
é cada um secava o seu, quando era... Ai entregava pros patron aquela poalha. Aí
eles ganhava um bom dinhêro porque ele
vendia pros pros pros Estadusunido pra nun sei pra onde... Aquilo era era um
assim cumu...
A poalha,
pra quem nun tinha custume, eli imbriagava. Embriagava? O chá?
Non só a, o chêro da... Raiz da folha?
Só de você tá trabalhando cun eli, eli adoecia... Então muita gente
ficava tonto? Ficava bebo, sabe, assim cuno quando você bebe cachaça e fica assin...
puisé, ficava... Tinha gente... Então não era todo mundo que trabalhava
cun poalha? Era quase gente esculhido
pra... Mas ... é pra, mais resistente pra trabalhá cun aquela poalha. Nun
era, assim, qualque, nun era nêgo... E outra coisa, quen nun si si dava também
ficava cheio de pereba, só pelo chêro dela, só de trabalhar cun aquele
material... Um tipo de
alergia... É, um tipo de alergia sim,
assim aquelas perebadas pelo corpo tudo... Mas
chegava a morrer? Non nun nun, nun murria
porque depois nois inventemo, assim, tomá o chá da folha, inton tomá o chá
da folha arrebatia tudo todo do mal-está
do corpo, porque tinha nêgo que ia trabalhá e chegava caindo, deitado aí...
nun aguentava, bêbo bêbo bêbo só cun furtidon[12]
da da da raiz, purque aquilo era nun bizaco que a renti[13]
carregava aqui assim e cada pé daquilo que tinha raiz, você tirava e but... e
ia metendo dentro do ... Saco... bizaco, saco. Você
vê o sacrifício cumu qui é... De seringa,
bizaco de siringa? Non non non, nois fazia
de istopa, nos fazia uns bizaco bem feito ... E o trabalho que dava... É,
o trabalho que dava e a rente derramá, longe que ... nós ia viajar, as veiz[14],
conforme nois ia trabalhá ficava mais distante
o serviço. Intonce nois ia mudando, aquele lugá que nós sempre
procurava, aquele lugá que tinha água aí nun tinha ido aí a gente ia
arrudiando. Então em toda a berada do Guaporé já teve muita poalha? Já já já! Teve muita poalha. De Pimenteiras té...
Tudinho, de Cabixi até, vamo dizê, Costa Marque, Forte Príncipe da Bêra,
Conceiçon, esse lugá tudinho era lugá bom de de poalha; é,
esse trecho tudin.
Ai da poalha passava pra? Ai Siringa. Aí, nóis, quando chegava mês de abril maio, já, junho, já
ia pra trabalhá siringa. Agora os patron ia, assin, meis de maio. Ele já
trazia mercadoria lá de Guajará intonce ele colocava os freguês, por exemplo,
eli tinha 10 - 15 colocaçon ele colocava gente pra trabalhá, pa cortá a
siringa. Era três estrada pa cada um seringueiro. Agora... Se
desse sorte de achar seringa boa...
Siringa boa, e tivesse sorte ele fazia. Era, o siringueiro falado mermo era
1.200 1.400 - 1.500 quilos. Por? Por
cabeça! Por cabeça? Por cabeça! Demorava
quanto tempo? Demorava 6 meses. Agora
aquele era siringuero que patron adorava ele, você só nun tirava o que você
nun quiria. Você chegava no barracon assim... Agora também tem u)a coisa, o barriga verde, esse aí,
Num
queria saber de nada... (risadas).
O patron midia o rancho pra ele. Barriga verde por quê? Barriga
verde? É! Porque a burrachinha que
eli fazia era 200, 100, 200, 300 quilo, há há há há há. Enquanto uns
faziam 1.400... Eles só fazia essa
midida... Dava despesa pro patron....
É. Intonce esse aí, nós chamava ele de barriga verde e mela-buião. Mela-buião?
É! Mela-buião. Ai ai ai, esses eram os preguiçoso? É
esse era os preguiçoso, isso. Esse aí era em que período? De
junho a dezembro, aí cando chegava dezembro já entrava pa castanha já entrava
janêro e aí terminava a castanha entrava pa poalha. Esse era O
Calendário... O Calendário do Guaporé!
Agora a
seringa, voltando um poco atrás de novo, a seringa a rente vindia tambéin
pros, patron e tinha munto que tinha suas colocaçon própia e vindia pros
marreterros. Eles chegava em sua colocação e dizia “cunu é, tem u)a burrachina pra gente? A gente tem
mercadoria, se tiver borracha a gente cunpra“. Aí, as veis aquelis que nun
tinha cumpromisso cun patron, vivia mais ou menos né, nun ia esperá o patron.
Ele tinha o dele, tinha o dele. Assim a gente vivia, desde daqui, de Guajará a
Cabixi.
Quem era os patrões mais famosos de... Ah
ah, desse vale, desse seringal era o seguinte: João Suriadaks, Massud, Kalli,
João Carlos de Oliveira, que é o Cavaquinho que eu falava.... Intonce essis
era os patron mais forte. João
Suriadaks tinha imbarcaçon própria; Massud Calli tinha embarcaçon própria
dele inton eles subia. João Suriadaks era Grego... Era
Grego. Massud Calli , que é o pai do Badra, do Latifala, da Olinda, desse
pessoal lá, tudo esse era Turco. Turco?
Turco. Ele foi moradô muitos anos daqui de Costa Marque, o outro era Grego, o
Suriadaks, o Cavaquinho era brasilero.
Não tinha a história de um que era dono
da metade dos seringais... Non,
sin, mais esse aí era propriedade dele era em Santo Antônio. Esse chamava-se
Balbino Maciel. Balbino Maciel. É
Balbino Maciel. Agora esse, Selmo, viajava de Santo Antônio a Porto Velho de
rio. No rio? De rio! De Remo!.... Ele era patron e viajava. Butava embarcaçon,
butava 15 - 15 não 16, é vamo dizê 16 porque era de um lado e de outro num
batelonzinho que ele viajava nesse Mamoré, Guaporé até Guajará. Pegando
o pessoal? Non! Pra trazê mercadoria
de lá pra cá, à muque[15].
Vamo dizê de Porto Velho. Tinha estrada de ferro em Guajará. Ele trazia aquilo
e... naquele tempo não tinha os barco de hoje, intonce era na marra mermo...
Butava aqueles hôme pa viajá de dia e de noite: butava um poco pra remá de
dia e ôto poco de noite... Então
uma viagem dessa demorar era dias? Era mêis,
era mêis! Mais tombéin ele trazia tudo que precisava aqui po Guaporé. Intonce
todas as coisa dele era marcado e a residência dele era em Santo Antônio.
Intonce... Aí... depois de muitos ano houve um poblema cun ele, intonce ele,
conta o pessoal, porque naquele tempo eu não existia, assim de sabe o que se
passa, eu ouvi o pessoal contando né, ele era o hôme mais rico daqui de dentro
do Guaporé. As coisa dele cando vinha de lá de fora, assim vamo dizê
vasilhame, vinha tudo marcado “Balbino Maciel”. Tudo registrado. Tudo registrado: Balbino Maciel. Já vinha tudo marcadinho.
Então, Santo Antônio já foi um lugar
bonito. Santo Antônio já foi
lugá bunito. ... Aí, Selmo, ele foi, ele é que trocava os produto, aí
ele foi, aí houve um poblema cun ele e ele ficou meio doido, .... aí
ele.... se discontrolô... aí ele sismou que via... num sei o que é que
ele pensou... aí, Selmo, ele ajuntou, tinha aquelas libras isterlina. Isso
era do estrangeiro. Non, daqui do Brasil,
daqui do Brasil. Daí ele foi e .... e... butô dois cabra, mandô incaixota
aquele dinhêro, aquela libra isterlina, era moeda,
era assim cumo hoje tem essas muedas, aquelas libras cumu nois chamava, aí ele
foi e mandou encher aquelas caxas de libra isterlina, e acima de Santo Antônio
tem um remanso muito grande. Tem nome aquele remanso? Non, num tem nome porque, coisa assim, é, é, remanso de Santo Antônio.
Intonce ele sentô na canoa, bateu mon no rifle e ... (uma gostosa risada)...
uma 44 daquele tempo, aí ele sentô-se na popa da canoa e botô os cabra pá
remá lá po rumo daquele remanso. Aí ele chegou naquele remanso, ele foi, ele
era rico mermo, rico, e mais rico que existia em Rondônia, no Guaporé, porque
naquele tempo num existia Rondônia, era Guaporé, intonce ele foi, mandô os
cabra, num é jogá as caxa, derramá, jogá não, derramá. Jogá é uma coisa,
derramá é outra. Mandou os cabra derramá, e os cabra “não, num, num’,
ele arrastô o 44 (mais uma gostosa
risada) aí os cabra bateu as caxa no meio da canoa. – “Derrama aí!” - Aí
foram, aí foram derramando aqueles dinhêro, num foi jogado. É fundo lá? Vige
Maria, aquilo tem uma base de 20 ou 30 metro de fundura. Mais aí tem algum
bicho feio? Tem, tem. Aí é a moradia dessas, dessas cobra grande, por exemplo
dessa... Jaú, Pirarara, tudo esses pêxes grande du Guaporé. Num é o mais
fundo. Mais é numa base dessa que eu já falei pra tu. Bom, aí, depois que
terminou ele foi embora pra casa... E lá ele endoidou e foi indo, e foi indo,
adoeceu e faleceu, esse Balbino Maciel... Intonce, Santo Antônio já ficou
abandonando, e as pessoa foi saíndo porque já num tinha uma pessoa que tomasse
conta do local. Intonce abandonou, hoje em dia você vê Santo Antônio do jeito
que tá, abandonado, largado aí tudo. Era o lugá mais bonito. Era mermo que 7
Costa Marque, viu?
E as colocações, quem era que ficava,
era o pessoal vindo de Vila Bela ou era daqui mesmo?
Non, non, non, era daqui, porque veio um bucado de gente de fora, mais esse já
foi já de uns tempo de fora, de 40... É
mais ou meno isso aí, isso aí já foi gente daqui mermo, de Vila Bela do Mato
Grosso, né? Puraqui mermo, num sabe?! Aí despois, já de 40 prá ca, já veio
gente de fora. Já veio esses arigó, cunu nois tratava aqui, aí já encheu, já
preencheu aqui. Aí esse que já vieram, nenhum deles sabia trabalhar, extrair a
siringa, Intonce nois aqui que fumo sê o professor delis, insiná eles... Seu
pai? ... Era Maranhense. Maranhense.
Ele veio prá cá cun a idade de 10 ano. Aqui que ele casou, construiu família
intonce foi adonde ele teve filho, que sô eu Procópio Azevedo, Julião
Azevedo, Herculano de Azevedo, viu, Joaquim Azevedo, agora mulhé non, mulhé
ele num teve non. Só home. Só home. Só
home! Aí já foi que já foi chegando o pessoal de fora, que eles já vinhon de
lá, os patron traziun de lá, os arigó, né? Nois chamava de arigó, porque
ninguém sabia o nome de ninguém, -
“essis arigó aí – esses arigó daí” -. Intonce, daí é que foi
construindo família aqui e foram aumentando, foram aumentando, e hoje em dia
tem muita gente aqui, qui num sabe, qui num tem nem parenti aqui nem nada.
Chegaram, foi entrando, foi ficando... E também munto dos que chegaram,
coitados, foram morrendo, de malária?
Malária e Beriberi. Beriberi? É u)a doença que dá cá na bariga
d’água, cresce a barriga dos cabra, aqui.. Por causa de...
Por causo de que eles num cuzinhava, num sabia, era só no chibé, açúca cun
farinha d’água, elis misturava tudo... Eles não ia atrás de caça?
Non, non, non, non, .. as que nois dava pra elis, pra eles cumê, eles num sabia de nada, Selmo, coitado, num, num, elis num
sabia caçá, num sabium pescá, nada nada.
Bom, daí
agora, donde que nois vamo prá? Descendo.
Subindo. Nois tava falando do local adonde tinha os índio.
Agora você qué qual? Que parte você qué? Lá pra baixo, lá no Cabixi,
por Pimenteiras, num tinha? Ìndio mermo era difícil, era meio difícil. Aparecia, mas... Era acima
de Pimenteira era, No igarapé do Piolho?
É! Por aí mermo, Intonce, quando o finado Coronel Saldanha fazia viage até
Vila Bela do Mato Grosso, intonce ele chegava assim, eles inchergava as imbarcaçon,
eles saiam tudin nas praia. Elis vinha na praia pra pará a embarcaçon, aí
elis fazia aquele gesto, aquele sinal prá pará. Aí tinha uma coisa, Selmo,
você vêsse isso, tinha que guardá tudo, corrente, cordão, anel, você tinha
que guardá tudo, purque candu chegava – “Ele aqui qué essi, ele aqui qué
essi”, e arrancava mermo e levava – e entrava na embarcaçon e – “papai
aqui, papai aculá” – porque ele quando se dá cun uma pessoa ele só chama
de pai. Intonce eles sabia que era a lancha do Coronel Saldanha, intonce ele
dizia – “papai aqui, papai aqui” – ele mandava encostar e dava aqueles,
por exemplo assim, espelho, pente, coisa de butá na cabeça prá mulhé, roupa,
porque já sabia que eles iria pará... Se não parasse... Ah,
non, non, non, non, aí já nun prestava mais. Aí elis castigava, aí ia nu
brutal, na flecha delis... O Coronel Saldanha dava tudo aquilo prá eis, prá,
pro capiton... eles tem o capiton deles, o chefon, o que manda, aí eles
repartiom e aí eles contava, Selmo, ... assim cumu janeiro, fevereiro, aí eles
contavum lua lua lua lua lua lua lua, demoravam,
pá pá voltar de novo. O tempo deles eles marcavam pela lua. Tavum
marcando o tempo pa o Coronel passa de novo (mé dá um copo d’água Sêmo)...
Aí quando dava o tempo, elis tavun aí na pusiçon (bebe a água) esperando, o
Coronel Saldanha, ô motor ô
lancha que fosse, cando eles saíum nu barranco ô na praia tinha que pará.
Elis gostavun mais de coisa que... pintura, ma rapaz, eles ficavun munto
sastifeito,... Eles dava alguma coisa em troca?
E eles davun midubin, porque o
Coronel dava tudo prá elis. Eles
tinha Midubin? Tinham pássaros, que ele
quisessem elis pegavum arrara, pato, curica, macaco, tudo tudo eles traziam de
presente prá ele, assim quando eles bachava cun a imbarcaçon, naquele tempo
num tinha IBAMA, né? (risada)... Ai elis contarra[17]
“papai papai aqui, lua lua lua
lua lua non”. Ele dizia “tal mês eu vô tá aqui”, e eles contavam no
dedo, e quando dava o mês, elis tavun esperando no canto certo, no local prá
donde tinha que pegá as coisa e dexá pro Coronel Saldanha. Então o
Coronel era bem visto pelo pessoal? Era,
era! E o outro Coronel, Aluízio Ferreira também vinha. Vinha,
mas não era todo tempo que ele vinha non, tinha o tempo marcado prá ele vi por
aqui. Agora, o Coronel era quem fazia isso, o Paulo Saldanha, o João Saldanha,
era de descendência do Coronel Saldanha que viajava aqui no rio, dos que
primeiro cumeçavum a navegar, eles tinham lancha... é tinhun lancha, ... era, naquele tempo chamava-se SNG – num
era ENARO nem nada – era SNG – Serviço Nacional[18]
do Guaporé...
E a criação, como era? Como vocês foram
criado, era em Pedras Negras, néra? Ai, quando era pequeno, era criado cun
leite de castanha?...
Ah, esse
aí era “corredor de traíra”. Ah, lobó? É Lobó! Inton, nós fumo, qué dizer, nós fumo criado cun isso aí,
era misturado também cun castanha, milho, arroz, feijon, essis aí nossus pais
plantavum pra abastecer a casa... A macaxeira pra fazer farinha. Cun isso aí
que nós fumo criado. Mas tinha munto que tinha suas cabecinha de gado. Ele
tinha seu leite.
E vocês já acumpanhavam seus pais pra
pescar...? Cun a idade de 08 – 09 –10
anos nós já acumpanhava os véio na luta também, na roça também cun us véio.
E se num quizesse ir, os véio chamava “humbora, humbora”, num tinha
cunversa non., num tinha mermo. Eles quiria que nóis aprendesse.
A
dificuldade pra nóis aqui era a leitura, porque na leitura nóis aqui tinha
muntos, arguns que sabia. Intonce Dom Reys cumeço a navegá aqui no Guaporé,
intonce foi ua viage dessa ele veio cun o Coronel Saldanha pegando uas mocinha
assim cunu cun 12, 13 anos e levô pra Guajará-Mirim e butô num colégio pra
elas aprenderem. Inton, daí dessas menina que o bispo levô pra lá, o Dom
Reys, intonce elas estudarum, inton quando elas tinha o 1º o 2º ano aí ele já
foi espalhando aqui no Guaporé. Aí ele ia colocano ua aqui, duas ali de acordo
cun a populaçon que tinha – notu lugá ua, notu duas, e ia colecionando as
minina tudinho, né? Já abria a escolinha. Ele mermo era carpintero – Dom
Rey? – Ele num tinha negoço non. Ele remava canoa, ele varejava, ele pescava,
ele era motorista, ele era tudo aqui. Eu
cunhici ele.
Rezava? Rezava! Na hora da reza era cun
eli mermo. Cun eli num tinha negóço non. Era padre mas num tinha esse negóço
de dexá pra depois non.
Quando
ele foi dexá as professora lá em Pedras Negra, as carteira ele num troxe de
Guajará, nem genti de lá prá fazê aquilo non. Foi eli mermo e arguns
daquelis qui moravum lá e que sabiam apregá quarqué coisinha, eli chamava. Aí
chegava e “você vai trabalhá cumigo hoje e amanhã, e essas carteras nós
vamu fazê”. Égua,
num era prá depois não? Cun Dom Rey num
tinha esse negóço de dexá pra amanhã non, era na hora mermo. Viu?. ... Chegô
cun a professora num dia, ali eli subiu cun a Empresa, SNG, e quando chegô lá
dexô duas professôra: a Estela Lemos Madeira e Eremita Cordeiro, essas forum
as primêra professora de Pedras Negra. Até antes num tinha nada. Non,
non, non, non. Só o pessoal trabalhando... Só
o pessoal. Intonce, aí ele chegou num dia e no outra já tinha quarqué coisa.
Aí ele fez as cartêra tudim e quando foi cun uma semana já tava tudo pronto.
É... Aí ele chamo o pessoal, fez uma reunião, cunversô cun os pais, mãe do
pessoal, daí “vai ficá fulano de tal que vai ensiná pra mais tarde elis
aprendê”, cunversô bem cun elis. Intonce, daí “já vô dexá a escola
funcionando”, aí imbarcô, notro dia de manhã, nóis fumo acumpanhá eli nu
porto, aquele pessoalzon acumpanhando, filiz: “Êta, agora sim nois vamô tê
uma Escola”. Ficarum tudo alegre, nossus pais...
Então onde tinha lugá, ele ia dexando as
professôra? É, eli ia fazendo isso...
Mas eli num néga non, Selmo, serviço, se fosse na enxada era na enxada, se
fosse no machado era no machado, se fosse no teçado era no teçado, se fosse
pra varejá a canoa no veron era varejando, se fosse no motor.... Mas era um
home qui...
E ele falava bem o português? Tudo tudo, ele falava muito
bem, ave-maria! E era bom, era bom
quando ele chegava assim, trazia aquele monte de bombom, pros minino, pa dá pas criança, aí (risada)...
aquela mininada atrapalhava até eli trabalhá: “Non, non, non, non, meus
filho dexá eu trabalhá. Fica aqui, toma aqui”, dava um bucado de bombom pa
um, pa outro, aí ele sussegava. Mas amuntuava, chega ficava assim de minino atrás
deli. E era nois tudo, naquele tempo eu era mulequinho também, tava nessa
jogada ai juntu cun eli. Num dejava eli non, e eli gostava muntu de mim, graças
a Deus.... Dom
Rey, ichi... Então foi assim que ele começo a educá
o povo daqui...? É, cumeçô a educá,
educá, educá, educá, qui até hoje, graças a Deus, eu aprendi pur causa
deli. Num foi im outra escola, nim foi cun outro non. Foi cun eli, na Escola de
Dom Rey. Essa professora: a Estela Lemos Madeira e a professora Eremita
Cordeiro. Agora, a Eremita era filha daí de Pedras, a mãe dela chamava-se
Bernarda Paes de Azevedo. Agora a professora Estela, essa num era daí, ela lá
do Mamoré; mas ela se deu muito bem. Todu mundo gostava dela e acudia ela; nois
auxiliava ela.
[1] mmmmmm
[2] dfdfdf
[3] vvvvvvv
[4] 3 lata de 20 litros
[5] nós
[6] quando
[7] primeira queda de castanha,
[8] eles
[9] lugarejo próximo à Costa Marques, média de uns 30 km por estrada
[10] vocês
[11] cabra, homem
[12] exalação do cheiro
[13] gente
[14] às vezes
[15] à força
[16] não era
[17] contava
[18] de navegação
[19] Infelizmente, eu, no momento da gravação, só tinha uma fita e nesse momento terminou a gravação...