A TÉCNICA PARA ANALISAR RESISTÊNCIAS

  Professor Dr. Mário Carabajal - Ph.D.
Psicanalista Clínico.

                                                               

(...) para se analisar uma resistência, o paciente, primeiro, deve estar sabendo que há uma resistência em ação. A resistência tem que ser demonstrável e o paciente tem que se defrontar com ela.  Em seguida, a variedade especial ou o detalhe preciso da resistência tem que ser muito bem enfocado. A confrontação e o esclarecimento são adjuntos necessários à interpretação(...)  ( p. 106 – Fonte )

 

 

Abrangendo essencialmente a repetição e elaboração de interpretações, a elaboração leva o paciente de uma compreensão interna inicial de um fenômeno especial para uma mudança duradoura de comportamento e também reativa do paciente.

 

À  eficácia da interpretação, necessitamos de uma também boa e eficaz elaboração.

 

DINÂMICA DA SITUAÇÃO DE TRATAMENTO

 

(...) A situação de tratamento mobiliza tendências conflitantes dentro do paciente. Antes de tentarmos analisar as resistências do paciente, seria útil examinar o alinhamento das forças dentro do paciente:

 

 

 

 

 

 

 

-forças que são favoráveis ao psicanalista, aos processos e procedimentos psicanalíticos.;

 

 

1-        A desgraça neurótica do paciente que o impele a trabalhar na análise por mais doloroso que seja;

2-        O ego racional consciente do paciente que não perde de vista os objetivos de longo alcance e tem uma noção da base lógica da terapia;

3-        O id, o reprimido e seus derivativos; todas aquelas forças dentro do paciente à procura de descarga e com tendência para aparecer nas produções do paciente;

4-        A aliança de trabalho que capacita o paciente a cooperar com o psicanalista apesar da coexistência de sentimentos transferências opostos.

5-        A transferência positiva desinstintualizada que permite ao paciente supervalorizar a competência do analista;

6-        O superego racional que impele o paciente a cumprir seus deveres e compromissos.

7-        Curiosidade e desejo de se conhecer que motivam o paciente para se explorar e se revelar.

8-        O desejo de progresso profissional e outros tipos de ambição.

9-        Fatores irracionais, como sentimentos competitivos em relação a outros pacientes, valorizar o próprio dinheiro, a necessidade de reparação e confissão, tudo isso constituindo aliados inseguros e provisórios do psicanalista.

 

... todas as forças enumeradas acima, influenciam o paciente a trabalhar na situação analítica. Elas variam em valor e eficiência e mudam no decorrer do tratamento... (p.107 – Fonte)

 

(...) As forças que, dentro do paciente, se opõem aos processos e procedimentos analíticos, podem ser examinadas da seguinte maneira:

 

1-         As manobras defensivas do ego inconsciente que fornecem os modelos para as operações de resistência;

2-         O medo da mudança e a busca de segurança que impele o ego infantil a se agarrar aos padrões neuróticos familiares:

3-         O superego irracional que exige sofrimento a fim de expiar uma culpa inconsciente.

4-         A transferência hostil que motiva o paciente a derrotar o psicanalista;

5-         A transferência romântica e sexual que leva à inveja e frustração e, finalmente, a uma transferência hostil;

6-         Impulsos sádicos e masoquistas que impulsionam o paciente a criar uma variedade de prazeres dolorosos;

7-         Impulsividade e tendências à atuação que impelem o paciente na direção de gratificações rápidas e, ao mesmo tempo, lutando contra a compreensão interna;

8-         Os ganhos secundários da doença neurótica que tentam o paciente a ficar preso à sua neurose.

 

... Estas são as forças que a situação analítica mobiliza no paciente. Quando se ouve um paciente, convém trazer em mente esta divisão bem simplificada de forças. ( p. 108-F)

 

COMO É QUE O PSICANALISTA ESCUTA

 

...O analista escuta com três objetivos em mente:

 

1-                 Traduzir as produções do paciente para seus antecedentes inconscientes. Os pensamentos, fantasias, sentimentos, comportamento e impulsos dos pacientes têm que ser pesquisados até os seus predecessores inconscientes.

2-                 Os elementos inconscientes devem ser sintetizados em introvisões inteligíveis. Os fragmentos da história passada e presente, conscientes e inconscientes, devem ser relacionados entre si de maneira a dar uma idéia de continuidade e coerência à vida do paciente.

3-                 As introvisões obtidas devem poder ser comunicáveis ao paciente. A medida que se escuta, é preciso verificar que material -  daquilo tudo que veio à tona – será utilizado construtivamente pelo paciente.

 

(...) O analista escuta com atenção flutuante uniforme. Não se faz uma tentativa consciente para se lembrar. O analista  vai  lembrar dos dados importantes se ele presta atenção e se o paciente não está despertando as reações transferênciais do próprio analista. A atenção não-seletiva, não-direcionada, irá governar nossas próprias tendências especiais e irá permitir que o analista acompanhe a conduta do paciente. Dessa atenção flutuante uniforme, o analista pode oscilar e fazer misturas com o que veio de suas associações livres, empatia, intuição, introspecção, raciocínio solucionador, (p.108/109-F)conhecimento teórico(...)

 

O psicanalista deve evitar quaisquer interferências que afetem as oscilações supra.

 

Anotar tudo quanto o paciente diga, é negativo à boa análise. Contudo, são importantes as anotações, desde que não vão em prejuízo a interação,  fruto da atenção flutuante do psicanalista.

 

A interação clínico/paciente, deve ser moderada, controlada, contra-resistida. Deixar evidenciarem-se resistência e conflitos internos no paciente.

 

Resistências  simples de ser identificadas, são todas aquelas que acompanhadas de “não” do paciente, diante a confrontação de um dado de sua associação livre.

 

-         Um paciente cujo pai faleceu de infarto, e tendo ele, nosso paciente, medo de morrer do mesmo mal do pai, com freqüentes sufocações, sudorese, e oscilações na pressão arterial... No momento em que o psicanalista “confronta” - faz esta associação, é comum, o paciente dizer; “não, o que eu sinto não tem nada a ver com a morte do meu pai”

 

Exatamente aí está uma resistência a ser trabalhada, aprofundada, esclarecida, interpretada e sofrer elaboração.

 

(...) O analista tem que fornecer compreensão e entendimento com objetivos terapêuticos. Ele escuta para obter introvisão(...)

                                                                                      (p.109-F)

 

Faze-se necessário reforçarmos a existência de resistências óbvias, como a citada supra. Todavia, temos que ter em mente que resistências outras, sutis, complexas, vagas (egossintônicas), estão a interagir, tanto no paciente, quanto no psicanalista.

 

Atenção e respiração profunda são necessidades básicas ao psicanalista.

 

Para se deixar elevar e mesmo evidenciar uma resistência, o psicanalista deve ser capaz de acumular, resistir e suportar. Estes elementos, são pré-requisistos indispensáveis ao bom psicanalista.

 

Uma jovem de vinte anos, após quarenta e cinco minutos de sessão, sempre chorando e soluçando, com sérios transtornos, oriundo de incompreensões, desafetos, drogas...Nos últimos cinco minutos, sem saber onde encontrar o ponto inicial a ser trabalhado, com um mínimo de possibilidade da origem de tamanha lamúria, coloquei-lhe o seguinte problema: - estamos em um navio e você só pode salvar a uma pessoa, quem você salvará? Perguntou-me: - qualquer pessoa, mesmo sem ser da família? Reforcei: - o tempo está se esgotando; - quem você vai salvar? – Minha mãe!   Continuei: -sobrou um lugar, quem mais você irá salvar? Respondeu-me a jovem sem pestanejar: -Obi. Indaguei: - quem é Obi? - Um amigo que conheci quando eu tinha onze anos.  Pedi que me falasse sobre ele. Atendendo-me:

-Eu o conheci no enterro de seu pai. Ele chorava muito. Hoje ele tem vinte e sete anos. É uma pessoa muito problemática. Tem muito problema interior.

Nesse momento, encerrei a sessão, pois, uma senhora de setenta anos aguardava na sala de espera. Pude, contudo, encontrar um forte elo que deverá nortear as próximas sessões. Obi, pode ser real ou fantasia, todavia, é a maneira que a minha jovem paciente encontrou de falar de si própria. Sendo Obi real, suas impressões marcaram profundamente a jovem. possivelmente, ela o tenha invejado, ainda que inconscientemente. Em uma situação como a por ela colocada, Obi deveria ter o universo girando ao seu redor. Criança, onze anos, no enterro do pai. Tanto ela pode tê-lo  invejado, pelo universo que o cercava, como por estar  ele livre do seu pai, já que ela, pelo menos na atualidade, sofre muito com as trocas hostis entre o pai e a mãe, o que pode perdurar desde sua remota infância. Certamente, estando estas hipóteses todas refutadas, obi é o que de concreto possuo para investigar as origens de tanta tristeza da jovem Isa.

 

O ESCLARECIMENTO DA RESISTÊNCIA

 

Após evidenciarmos e participarmos ao nosso paciente a existência de uma resistência (como o “não”  do paciente após levantarmos a possibilidade de seu profundo mal estar relacionar-se com a morte por infarto de seu pai) evidenciam-se três caminhos ao decurso da análise, sendo:

 

1-       Porque o paciente está evitando?

2-       O que o paciente está evitando?

3-       Como o paciente está evitando?

 

As duas primeiras perguntas, segundo Greenson, à página 116 de nosso livro fonte; “ podem, juntas, ser consideradas como motivo para a resistência. A pergunta: como o paciente está evitando, refere-se ao modo ou meios de resistência” – dessa forma, em ambos os casos, prosseguimos pelo esclarecimento do assunto examinado, aumentando o enfoque no processo psíquico que estamos a analisar. Devemos isolar o motivo ou modo especial da resistência manifesta;  “- Os detalhes importantes teriam que ser desenterrados e cuidadosamente separados do assunto externo” (p. 116 – F)

 

Greenson, objetivamente orienta-nos a perguntar-nos: - qual afeto doloroso ele está tentando evitar? Ainda; - quais impulsos instintuais ou lembranças traumáticas provocam o afeto doloroso?

 

Greenson, ainda na página 116 do livro-Fonte, alerta-nos para que devamos estar conscientes que o motivo imediato da defesa e da resistência é evitar o sofrimento (afetos dolorosos).

 

Ralph Greenson orienta-nos a utilizarmo-nos de uma linguagem segundo o estado emocional e sobretudo comportamental do nosso paciente.

 

(...)Se o paciente parece estar vivenciando um afeto como se fosse uma criança (...)   “Você parece assustado”, porque essa é uma palavra infantil. Jamais diria: “Você parece apreensivo” porque isso não serviria, essa é uma palavra adulta. Além disso, “assustado”  é evocativo, desperta cenas e associações ao passo que  “apreensivo” é banal(...) (p. 117-F)

 

 

(...)  Se a forma de resistência é bizarra e “descaracterizada” para o paciente, ela é, geralmente, uma ação sintomática e, comumente, mais facilmente acessível ao ego racional do paciente(...) (p.129-F)

 

 

 

 

 

PROCEDIMENTOS GERAIS NA ANÁLISE DAS RESISTÊNCIAS.

 

1-       Identificar a resistência;

2-       Demonstrar a resistência ao paciente;

a)         Permitir que a resistência se torne demonstrável esperando por circunstâncias especiais.

b)        Intervir de tal maneira que a resistência aumente;ajudar a resistência a se tornar demonstrável.

3-       Esclarecer os motivos e formas de resistência.

a)         Qual afeto doloroso específico está tornando resistente este paciente?

b)        Qual impulso instintual em particular está causando o afeto doloroso neste momento?

c)         Qual forma e método precisos utiliza o paciente para expressar sua resistência?

4-       Interpretar a resistência.

a)         Que fantasias ou recordações estão provocando os afetos e impulsos existentes por trás da resistência?

b)        Acompanhar a história e os objetivos inconscientes destes afetos, impulsos ou acontecimentos dentro e fora da análise e no passado.

5-       Interpretar a forma de resistência.

a)         Acompanhar esta e outras formas semelhantes de atividade, dentro e fora da análise.

b)        Ir até à origem e objetivos inconscientes desta atividade no presente e passado do paciente.

 

6-       Elaboração:

                           -repetições e elaborações dos passos (4 a); (4 b) e 

                            (5 a); (5 b).

 

(...) o que é resistência, num caso, pode ser aquilo que está sendo bloqueado, num outro caso já que a resistência é um conceito relativo(...) um paciente está falando de coisas banais porque tem vergonha de ficar em silêncio e ter que revelar que nada tem a dizer. Temos então duas fugas em ação: ele está fugindo de algo que o torna silencioso e está encobrindo o silêncio falando de coisas banais. (...) lida com o silêncio como se este fosse um impulso proibido(...) (p. 138-F)

 

 

MOTIVOS DE GERAÇÃO DE RESISTÊNCIAS DE RESISTÊNCIA

 

Entre os elementos motivadores à criação de “resistências de resistências”, Greenson à página 138, de nosso livro fonte, destaca dois pontos como fundamentais:

 

1-       Que o paciente pensa que para ser um bom paciente, ou melhor, pensando erroneamente que um bom paciente não tem resistência, fala o tempo todo, ainda que de banalidades.

2-       Tem o paciente, nestes casos, medo de se encontrar com novas resistências, tendo que enfrentar novos e difíceis esclarecimentos.

 

(...) Se examinarmos a situação de resistência no paciente, ela está estruturada da seguinte maneira: uma nova compreensão interna  provoca dor, ressentimento e ansiedade (...) (p.139-F)

 

Descobrir os segredos inconscientes de nossos pacientes é  uma de nossas tarefas em psicanálise.

 

O psicanalista, para o bem do próprio paciente e da boa análise, deve ser exigente em relação aos segredos. Nenhuma exceção deverá ser feita ou concedida para segredos do paciente. Um segredo, pode tornar-se o véu ou cortina por onde tantos outros irão esconder-se.

 

Greenson à página 142 exemplifica a impossibilidade de se aceitar segredos, assim como Freud também recomendara: Imagine se a polícia aceitar a criação de uma cidade como paraíso criminal. Ali, todos os criminosos, dos mais leves aos mais pesados se alojariam. Assim, funciona com os segredos; - um pequeno segredo poderá encobrir grandes e patológicos raciocínios e conceitos..

 

            Greenson orienta para que analisemos a resistência antes do conteúdo, o ego antes do id, principiando sempre pela superfície.

(

“Não impomos nossos interesses ou preocupações teóricas ao paciente”

 

Freud (1905a-p.12) segundo Greenson à página 160, fez a recomendação técnica no caso Dora:  deixar o paciente escolher o assunto da sessão (...) ele relacionou isso ao seu conselho para que começássemos nosso trabalho analítico pela superfície da mente do paciente. (...) O método da associação livre se baseia em nosso desejo de deixar que o paciente escolha o assunto da sessão(...) Suas associações nos revelam quais são suas preocupações, o que está tentando emergir na consciência, o que desperta interesse nele. (...) As associações, ou a ausência das mesmas, também nos mostram o que ele está procurando evitar(...)

 

 

LAPSO   - MUDANÇA DE ASSUNTO DE FORMA INCONSCIENTE (p.160-f)

 

O paciente inicia a sessão dizendo querer falar sobre sua mulher. Após descrever minuciosamente sua mulher, por um lapso, diz: - minha mãe é muito exigente sexualmente. Nesse momento, inconscientemente, ele possibilita-nos conduzir o assunto a uma nova perspectiva. Neste ponto, mudo o enfoque da sua conversa pedindo-lhe que me diga que comparações faz entre sua mãe e sua mulher. Na verdade, realmente não mudei de assunto: ele, inconscientemente, é que o mudara. Eu simplesmente o acompanhei nessa direção. Situação vivenciada por Greenson (p160/162-F)

 

O PACIENTE DETERMINA O ASSUNTO DA SESSÃO (p 161-F)

 

 Deixar o paciente escolher o assunto da sessão, significa:

1-       Deixar o paciente começar cada sessão com conteúdo manifesto que o está preocupando e não forçar seus interesses sobre o paciente. Se o material da sessão anterior parecia muito importante a você, você deve deixar de lado seu interesse e acompanhá-lo enquanto  estiver trabalhando produtivamente.

2-       Os candidatos à formação analítica, muitas vezes, forçam a entrada do material de suas sessões de supervisão no trabalho que estão fazendo com os seus pacientes quando isso não é importante.

3-       O paciente escolhe o material com que vai começar a sessão mas nós selecionamos do seu material aquilo que achamos ser ou que deveria ser sua preocupação real. Por exemplo: - o paciente nos fala de seus prazeres sexuais, mas nós selecionamos seu embaraço ao falar sobre sexo. Selecionamos aquilo que achamos que está realmente preocupando o paciente, embora ele possa estar inconscientemente desligado disso. Pode fazer-se  uma analogia com sonho e dizer que o paciente escolhe o conteúdo manifesto e nós agarramos material latente significante.

 

RESISTÊNCIAS SECUNDÁRIAS

 

A técnica psicanalítica diferencia-se de todos os demais métodos por analisar as resistências. Contudo, Greenson aconselha-nos a não analisarmos todas as resistências.

 

(...) Pode lidar-se com as resistências pequenas e secundárias simplesmente ficando em silêncio e deixando que o paciente supere sua própria resistência. Ou então, pode fazer-se alguma observação para facilitar. Por exemplo: o paciente está quieto ou hesitante e você diz : “Sim?”ou Ö quê?”e o paciente então começa a falar. Não precisamos, necessariamente, voltar atrás e analisar o significado, o objetivo ou o conteúdo de cada resistência. Isto é verdadeiro enquanto o paciente parece superar sozinho a resistência e se consegue comunicar de maneira significativa(...) Ralph Greenson (p.161-F)

 

PERDA DAS FUNÇÕES DO EGO ( 162/163 – Fonte )

 

(...) um paciente pode começar a falar de maneira incompreensível numa verdadeira salada de palavras ou falar como um bebê. Aqui também, temos que ser pacientes, sem medo e firmes. Finalmente, temos que interromper e dizer ao paciente: - “agora, vamos dar uma olhada no que aconteceu – você estava falando como uma criancinha”. Intervindo desta maneira, o analista funciona como  lembrete e como modelo para o paciente diante de seu ego racional temporariamente perdido. Usando um tom firme ele mostra que não está com medo, o que tranqüiliza o paciente(...) em algumas situações, alguns pacientes ficaram apavorados, com medo de perder todo o controle e de que se possam tornar violentamente agressivos ou sexuais.

 

 

 

Diante a verificação dos temores reais dos pacientes, Greenson adotou a postura de:

 

...Não se preocupe, não vou deixar que você se machuque ou a mim...

 

TRANSFERÊNCIA (p 167 – Fonte)

 

(...) As reações transferenciais oferecem ao analista uma oportunidade inestimável para investigar o passado inacessível e o inconsciente ( FREUD, 1912 a, p. 108, citado por Greenson, p.167-F). A transferência também desperta resistência que se transforma no maior obstáculo ao nosso trabalho. Toda a definição de técnica psicanalítica deve incluir, como elemento fundamental, a análise da transferência. Toda a escola psicanalítica divergente pode ser descrita por alguma aberração na maneira pela qual se lida com a situação transferencial. As reações transferenciais ocorrem em todos os pacientes que fazem psicoterapia. A psicanálise se diferencia de todas as outras terapias pela maneira pela qual incentiva o desenvolvimento da reações transferenciais e também por tentar sistematicamente analisar os fenômenos transferenciais(...)

 

DEFINIÇÃO PRÁTICA (p 167 – Fonte)

 

(...) A característica principal é a vivência de sentimentos – em relação a uma pessoa – que não está endereçada àquela pessoa e que, na verdade, está à outra. Fundamentalmente, uma pessoa no presente é reativada como se fosse uma pessoa do passado(...)

 

(...) A repetição pode ser uma cópia exata do passado, uma réplica, uma recordação ou pode ser uma edição nova, uma versão modificada, uma representação distorcida do passado. Se uma modificação do passado transpira no comportamento transferencial, então é, em geral, em direção a satisfação do desejo(...) (p.169-F)

QUADRO CLÍNICO: CARACTERÍSTICAS GERAIS

 

Greenson às páginas 171 à 180 de nosso livro fonte, define cinco características gerais aos quadros clínicos, sendo:

 

1-       Inadequação; 2- Intensidade; 3- Ambivalência;

4- Inconstância; 5- Tenacidade.

 

Passaremos aos conceitos extratificadamente oferecidos por Greenson:

 

1-       INADEQUAÇÃO: Se  o paciente ficar aborrecido por que o analista interrompeu as associações do paciente por ter atendido telefone, não deve-se considerar o aborrecimento do paciente como sendo uma reação transferencial.

 

2-       INTENSIDADE:  O paciente fica furioso quando o analista não reconhece seu erro mas, ao contrário, interpreta que o paciente, inconscientemente, por pensar estar sendo chato, tem a expectativa de que o analista durma enquanto ele fala.

 

3-       AMBIVALÊNCIA: A figura do analista é dividida num objeto bom e num objeto mau, cada um deles tendo uma vida independente na vida do paciente. Quando os pacientes reagem desta maneira – são eles sempre  os pacientes mais regredidos – conseguem perceber a ambivalência que sentem pelo objeto unitário, isso demonstra que houve um progresso enorme.

 

4-       INCONSTÂNCIA: Os sentimentos transferenciais são, em geral, inconstantes, irregulares e excêntricos. Principalmente no começo da análise. Glover (1955) citado por Greenson à p. 177-F, chamou, com muita felicidade, tais reações de “reações transferenciais  flutuantes”.

 

5-       TENACIDADE: O fato de possuir uma natureza contraditória constitui uma característica impressionante das reações transferenciais(...) Enquanto as reações esporádicas costumam aparecer no início da análise, as reações rígidas e prolongadas têm mais probabilidade de surgir nas fases mais avançadas embora não haja regra absoluta para isso(...) Os pacientes vão adotar uma série crônica de sentimentos e atitudes em relação ao analista que vão custar a se render à interpretação. Essas reações tenazes exigem um longo período de análises, algumas vezes anos e anos.

 

 ELEMENTOS DE TRANSFERÊNCIA

 

.  Ralph Greenson relaciona a transferência com  os elementos:

-Transferência e relações objetais;

-Transferência e funções do ego;

-Transferência e repetição;

-Transferência e regressão;

-Transferência e resistência;

-Transferência e neurose.

 

 

 - TRANSFÊRENCIA E RELAÇÕES OBJETAIS (p.190-F)

 

(...) Uma reação transferencial – nos neuróticos – é um relacionamento envolvendo três pessoas ao todo – um indivíduo, um objeto passado e um objeto presente (Searles, segundo Greenson).

 

(...) Na situação analítica, dessa reação geralmente participam o paciente, alguma pessoa significativa do passado e o analista.

 

(...) Os psicóticos perderam suas representações objetais internas e lutam para preencher a sensação de um vazio terrível através da criação de objetos novos(...) introjetam e projetam em suas tentativas de construir ou reconstruir seus relacionamentos objetais perdidos(...)

 

(...) O relacionamento dessas pessoas com o analista vai estar repleto de fusões do eu (self) e imagens objetais (...) –  Greenson ( p 192 – F ),

 

 - TRANSFERÊNCIA E FUNÇÕES DO EGO

 

Nesta situação, o paciente abandona, temporariamente, algumas de suas funções que testam a realidade.

 

(...) O deslocamento se refere à baldeação de sentimentos, fantasias (...) de um objeto ou representação objetal no passado para um objeto ou representação objetal no presente.

 

(...) Introjeção  é a incorporação de alguma coisa de um objeto externo na representação do eu (self)  (...) Durante o tratamento pode haver projeção e introjeção, mas estas, ocorrem como um acréscimo ao deslocamento(...)

 

 – TRANSFERÊNCIA E REPETIÇÃO

 

(...) Uma das principais características das reações transferenciais é sua repetitividade. Sua resistência à mudança, sua tenacidade(...)

 

(...) A TRANSFERÊNCIA  É UMA REVIVÊNCIA DO PASSADO REPRIMIDO (...) DO PASSADO CENSURADO (...)

 

 ALIANÇA DE TRABALHO ( p. 212 – F )

 

(...) O núcleo seguro da aliança de trabalho é formado pela motivação do paciente para superar sua doença, sua sensação de desamparo, sua disposição racional e consciente em cooperar e sua aptidão para seguir as instruções e compreensões do analista(...) A aliança real se forma basicamente entre o ego racional do paciente e o ego analisador do analista(...)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VISÃO DA LITERATURA EM RELAÇÃO A ALIANÇA

 

Freud, 1913b, pp 139-140, citado por Greenson p. 214 – F, diz-nos:

 

“ O primeiro objetivo do tratamento continua sendo fazer com que ele [ o paciente ] se prenda a ele [rapport] e à pessoa do médico. Para garantir isso, não é preciso fazer nada a não ser dar tempo ao paciente. Se alguém mostra um interesse sério por ele, supera cuidadosamente as resistências que brotam no início e evita cometer determinados erros, ele, por si mesmo, vai criar este apego... Certamente é possível desperdiçar este primeiro êxito se, desde o início, for adotado qualquer ponto de vista que não seja o da compreensão compassiva”

 

(...) Um racionalismo prolongado em análise é um pseudo-racionalismo, o paciente se está agarrando inconscientemente ao racionalismo por uma série de motivos neuróticos inconscientes(...) ( p.223 – F )

 

Greenson à p. 212 – F  - cita: Zetzel (1956); Fenichel (1941) e Stone (1961); que utilizam para “aliança de trabalho” as respectivas denominações: “aliança terapêutica” ; “transferência racional” e “transferência madura”. Todos, ao definirem conceitualmente tais nomeclaturas, falam de conceitos semelhantes ao utilizado por Sigmund Freud – “aliança de trabalho”.  Logo, temos validada a “aliança lógica” e aproveito para criar mais um termo, comprovando a assertiva do impressionante fenômeno Freud, ao definir o tácito entendimento pró esclarecimento e interpretação, no divã, de tudo quanto diga respeito as traumatopsicosugestões incorporadas pelos pacientes, e também, com vistas à evolução pessoal do ser. Centenas e mesmo milhares de patologias são alcançadas, isoladas e clinicamente abordadas pela psicanálise, onde, pela terapêutica da especialidade, são eliminadas, pelo o que podemos chamar de “cirurgia psicolibertadora-interacional”.

 

ALIANÇA DE TRABALHO NO PACIENTE ANALÍTICO CLÁSSICO

 

Estes pacientes interrompem um relato um tanto incoerente e comentam estar fugindo de alguma coisa. Perguntam a si próprio de quê fogem. Ao ficarem em silêncio, eles próprios antecipam-se ao analista e confessam estar escondendo algo, colocando-se espontaneamente em busca do que estão a esconder.                    

 

“A aliança de trabalho é um fenômeno transferencial relativamente racional, dessexualizado e desagressificado”.

                                                                    Greenson ( p. 229 –  F ).

 

Para a boa aliança de trabalho, o paciente deve ser capaz de se comunicar por palavras, por sentimentos, tudo de maneira inteligível, com ordem e lógica. Dar informações quando necessário e também ser capaz de regredir parcialmente e fazer uma certa quantidade de associações livres. ( p. 230 – F )

 

É comum, (...) o ambiente de análise ficar impregnado por um fluxo oculto, constante e sutil de ansiedade e medo em relação ao analista e à aliança de trabalho(...) (p.233-F)

 

O RELACIONAMENTO REAL ENTRE PACIENTE E ANALISTA

 

(...) O termo “real” na frase “relacionamento real” pode significar realista, voltado para a realidade ou não-distorcido se comparado com o termo  “transferência” que conota irreal, distorcido e inadequado(...)

 

“O paciente utiliza a aliança de trabalho a fim de entender o ponto de vista do analista, mas suas respostas transferenciais tomam a dianteira se aparecem. No analista a aliança de trabalho toma a dianteira sobre todas as outras respostas  diretas ao paciente”                              ( p. 240/241 – F).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PROBLEMAS NA VISÃO PSICANALÍTICA

 

FLEXIBILIDADE EM PSICANÁLISE

 

Ser flexível, não corresponde ao conceito “curvar-se”, mas, em se tratando de psicanálise clínica, à capacidade de “acumular”; “resistir” e “suportar” sem curvar-se. “Ser grande”,  maior que os problemas que chegam ao nosso divã, conscientes, que problemas não existem, existem sim maior e menor capacidade de solução. Os problemas nessa ótica, serão inversamente proporcionais a capacidade de soluções de quem os enfrenta.

 

PROBLEMAS GRANDES: temos em problemas grandes duas variáveis:

1a. O gerador do problema é grande e necessita de grandes tensões para conseguir seu nível ideal. Se gerou, é capaz de desfazê-lo.

 

2a. O gerador do problema é pequeno, o que permite agigantar-se o problema.

 

Os problemas são direta e inversamente proporcionais a quem os gera:

 

-         diretamente porque existem a partir de nosso próprio atrito com os meios, sendo que atrito não corresponde somente a choque, mas toda interação.

-         Inversamente porque diante de “problemas grandes” não encontramos homens pequenos, encontramos sim, menor organização preparo e objetivos – menor capacidade de soluções, e isto sim torna o problema grande. Os mesmos problemas que pela falta de capacidade de soluções agigantam-se, são pequenos e efêmeros se  diante a homens com maiores capacidades de soluções.

 

PROBLEMAS NÃO EXISTEM, EXISTE SIM, MAIOR E MENOR CAPACIDADE DE SOLUÇÕES.

 

MAIOR O PROBLEMA – MENOR É A CAPACIDADE DE SOLUÇÃO  “TOMADA DE DECISÃO” DE QUEM O ADMINISTRA.

 

MENOR O PROBLEMA- MAIOR  É A CAPACIDADE DE SOLUÇÃO  “TOMADA DE DECISÃO” DE QUEM O ADMINISTRA.

 

Em um hotel, durante o café da manhã, uma jovem estudante de pós-graduação coloca para os dois colegas que com ela dividem a mesa, ter um “imenso problema”, sem saber como, após ao café, retornaria até seu apartamento para escovar os dentes e terminar de se arrumar, antes de ir para mais um seminário. Nervosa, trêmula, não conseguia nem mesmo tomar seu café, preocupada, - um grande problema, sem solução para ela, chegou até mesmo falar que pararia com o café para  “tentar” fazer alguma coisa.  O colega que encontrava-se na mesa, calmamente fez um sinal para o garçom, pediu o “telefone sem fio”, solicitou ao garçom colocá-lo em contato com a recepção e a eles informou o ocorrido (o que para ele  não era um problema). Após oferecer o número do apartamento da jovem, disse estar no restaurante, pedindo-lhes trazerem a chave na mesa em que se encontravam. Ainda na mesa, durante o café, a jovem recebeu sua chave. Sua felicidade e expressão de alívio, demonstrava sua expectativa, confirmando haver ultrapassado a um “problema”.

 

OS PROBLEMAS SÃO INVERSAMENTE PROPORCIONAIS A CAPACIDADE DE SOLUÇÃO DE QUEM OS ADMINISTRA.

 

Denominamos “problema” aquilo para o qual  não tenhamos solução, ou, ainda que sabendo existir solução, tem complexidades, particularidades, implicações e ramificações. Não encontram-se definidos e claros, todos os “trechos” a serem trilhados até a equação efetiva da questão.

 

 No relacionamento real entre paciente e psicanalista, devem ser observadas as distâncias conceituais, fundamentalmente em questões políticas e sociais.

 

A franqueza do psicanalista é fundamental à boa análise. Deve  colocar de forma clara ao paciente suas impressões pessoais sobre assuntos aos quais discorde do paciente e, ao mesmo tempo, seja de interesse do paciente, por questões econômicas e políticas, manter-se contrário ao analista. Particularmente, acredito ser possível, em contextos de divergências sócio-políticas e econômicas, o psicanalista utilizar-se dos princípios elementares à condição clínica terapêutica, sendo: “acumular”; “resistir”; “suportar”.

 

ACUMULAR: O Psicanalista deve ter, como uma de suas principais condições e pré-requisitos à análise, a capacidade de acumular. Sendo esta capacidade, literalmente, reter informações, ainda que, algumas, contrárias ao seu ponto de vista. Devendo, contudo, valer-se dessa divergência, para confrontar os pontos que sustentam o psicanalisado, oferecendo ao mesmo, pelo aprofundamento e confrontação, maior fundamentação e argumentação à defesa dos ideais que o mantém e ao seu “status quo”.

 

RESISTIR: Deve o psicanalista resistir as pressões do meio analítico, consciente que ele  próprio, e sua condição privilegiada, são os geradores de tudo quanto emergir do interior do ser. Portanto, pode o clínico, psicanalista, resistir  a vontade  e impulsos pessoais. Respirar um pouco mais fundo e dar tempo ao paciente  quando frente a questões políticas, econômicas e sociais, permitindo-lhe experimentar o rearranjo psico-reativo natural, sendo este, direta e inversamente inter-reativo com suas vivências e experiências de ensaio-erro e acerto. O psicanalista pode, isto sim, diante a tais problemáticas, buscar no interior do paciente os elos em tempos passados e presente, onde ouve sucesso e retorno favoráveis, sem conflitos obviamente e distorções de valores básicos e essenciais à existência e evoluir humano.

 

SUPORTAR: Muito próximo de “acumular”e “resistir”  - o suportar vem para que sejamos insistentes em manter o paciente em seu campo psico-experimental vivencial. Não pode o psicanalista desconsiderar o campo vivencial experimental do paciente. Nenhuma inferência, sejam sugestões ou quaisquer recomendações, devem ser ministradas aos pacientes, sem a profunda investigação do paradigma real, concreto, vivencial e experimental a que encontra-se o paciente. Por isso deve o psicanalista  “suportar”. Suportar a si mesmo, caso não tenha material suficiente para, com segurança e responsabilidade, retornar ao paciente.

 

 Dentre uma infinidade de observâncias à técnica e prática em psicanálise, devemos destacar o “achismo” – o psicanalista nunca deve utilizar-se desta terminologia. O “acho” deve, entre tantas outras variáveis, ser subistituido por,...”cientificamente...” –  “em psicanálise...” - “dou por” – “tenho como” – “vejo” – “é válido” – “observo” – “concluo” – “pressuponho” – “relaciono” – “é possível”. 

 

SORO DA VERDADE

 

Há uma grande especulação sobre  o que  se trata por “soro da verdade”. Na  realidade, tal “soro não existe”. Tão somente, utilizamo-nos do Thiopental sódico em baixíssimas dosagens, baixíssimo significa concentrações mínimas do Thiopental sódico. Com baixas dosagens desta substância química, solicitado seu preparo à bioquímicos em laboratórios de manipulação, preferencialmente colhendo-se impressões de anestesistas experientes, poderemos induzir uma resposta sem críticas. A crítica é quem trata de acobertar valores, reprimir emoções, logo, inibindo-se a crítica colheremos impressões do paciente em faixas de retorno menos censuradas por sua própria auto-defesa. O thiopental tem seus valores discutíveis, sem contudo refutarmos sua eficácia.

 

Estas informações constam de pesquisas pessoais, sempre em linha de discussão e observações de outros profissionais especializados, sobretudo em anestesia, neurologia, cardiologia,  farmacologia e bioquímica. Pode-se somar a esta equipe, pesquisadores de diversas áreas comportamentais, químicas e  tecnológicas.

 

Neste momento, conto com o apoio técnico em minhas pesquisas, do Dr. José Jorge, anestesista e Marconi, farmacêutico e bioquímico.

 

 

 

 

CLASSIFICAÇÃO GERAL DAS REAÇÕES TRANSFERENCIAIS

 

“Não há maneira de classificar os fenômenos transferenciais que levem em conta todas as diferentes variedades. Por mais que se procure separar as inúmeras formas clínicas de transferência, acaba-se sempre ou com uma classificação não-sistemática, com a omissão de muitíssimos modelos clínicos importantes ou então podemos abranger as variedades clinicamente importantes(...)  (p. 248 – F)

 

TIPOS DE REAÇÕES TRANSFERENCIAIS

 

Ralph Greenson faz referência e nós sistematizamos didaticamente, orientados pelo Ph.D Rômulo Vieira Telles, o que é predominante, o que é clinicamente importante por um período de tempo determinado, durante uma análise. ( p. 248 à 284 ).

 

Antes de entrarmos nas reações transferenciais propriamente ditas, temos de conclamar a todos os pesquisadores e clínicos da Psicanálise, que tenham em mente sempre o espírito de solidariedade, de amor e de compaixão por todos quantos lhes procuram. Somente o psicanalista motivado por emoções sinceras de auxílio ao próximo, de amor à Humanidade e de ideais sublimes em busca da saúde e equilíbrio de seus pacientes, poderá, efetivamente, remover as angústias, medos e tensões depositadas no âmago do ser. Bem como, passar segurança àqueles que dependem de drogas e outros tantos que sofrem das mais variadas perturbações, esquizofrenias e neuroses, todas, sempre com profundas e dolorosas repercussões psicossomáticas.

 

Com o amor conseguimos curas que sem ele tornam-se crônicas e incuráveis.

 

São nove os tipos de reações transferenciais predominantes durante a análise.

 

1.         Transferência Positiva;

2.         Transferência Negativa;

3.         Transferência Objetal;

4.         Transferência Libidinal;

5.         Transferência Estrutural;

6.         Transferência Identificativa;

7.         Transferência Gratificativa;

8.         Transferência Defensiva;

9.         Transferências Generalizadas;

 

1 – Transferência Positiva: Freud reconheceu muito cedo serem os fenômenos transferências ambivalentes por natureza, todavia, o rótulo de transferência positiva e negativa continuaram a ser suas formas favoritas de nomeclatura. Ainda que com toda, a ambigüidade e erros que este tipo de classificação acarreta, continuou sendo a designação mais freqüente utilizada entre os psicanalistas praticantes. (p. 248/249 – F)

 

A Transferência Positiva descreve àquelas que formadas fundamentalmente de amor. Reconhecendo-se suas múltiplas formas, antecessores e derivativos.

 

Às esperadas paixões e transferências amorosas em suas variáveis formas, devem ser tratadas pelo analista de forma madura, ou seja, ser o analista capaz de acumular, resistir e suportar seus próprios impulsos. Não deve, em momento algum, incentivar tais sentimentos.

 

Diante a confissões e paixão, amor e desejos, deve o psicanalista manter o silêncio, manter sua condição de clínico, sobretudo consciente que qualquer passo em direção a atender as buscas e anseios do paciente, acarretará em bloqueio total das possibilidades de análise. Se cobrado pelos pacientes quanto a um posicionamento sentimental, deve ser capaz de retornar ao paciente dizendo ser o seu papel entender, interpretar e permitir a elevação e expansão psicomaturacional  de seus impulsos.

 

Quando questionado por pacientes do sexo oposto, um tanto sofisticadas: - Doutor, quando é que vou apaixonar-me por você?

 

Deve haver uma resposta objetiva:

 Tudo o que um paciente deve fazer, é seguir a regra  da associação livre, deixar os pensamentos e sentimentos fluir livremente sem censura e contar com o máximo de precisão possível os pensamentos e sentimentos.

 

Não existe um padrão individual para aquilo que um paciente deve sentir já que cada indivíduo é diferente.

 

Não há jeito de saber quais sentimentos  vivenciarão os pacientes, em especial, num determinado momento, em suas reações ao analista.

 

Quaisquer sentimentos em relação ao analista, são desdobramentos de necessidades primitivas recalcadas, não satisfeitas e, pela situação especial durante a análise, não é raro isto vir a ocorrer, sem, contudo, constituir-se em uma regra geral. Todavia, ocorrendo, vamos identificar suas reais necessidades à expansão psicomaturacional evolutiva à que busca alcançar.

 

Dizer-lhe:

 

 - Eu, consciente, farei a minha parte para que sua evolução  seja leve e possível de ser visualizada. Você, deve seguir a “associação livre”, relatando tudo quanto se passar em sua mente, por mais complexo e difícil que possa parecer. O objetivo é você caminhar livremente, sem deixar que barreiras agigantem-se em sua trajetória evolucional, mesmo que uma dessas barreiras seja seus “sentimentos pelo analista”, da mesma forma que os seus sentimentos pelos seus pais e irmãos, ex-namorados e situações amorosas, não podem e não devem refrear sua escalada psicomaturacional.

 

Esclarecer ao paciente, que qualquer ser é digno de sentimentos, de paixão e amor, desde que venhamos a aproximarmo-nos dele. Assim, também sou merecedor de seus sentimentos, todavia, devemos estar conscientes que quaisquer objetos, uma vez por nós tocados, traduzimos suas impressões em valores também especiais. 

 

Uma pedrinha, se por nós recolhida, passa a ser diferente das outras, e, por ela, interiorizamos sentimento, este, quantificado e dimensionado em energia libidinal, assumindo valor catéxico.

 

Sentimentos transformam-se em impulsos potenciais, depositados em memória codificada mesencefálica e neo-cortical.

 

Sob a eletroquímica neuroencefálica, a partir de impulsos, advindos dos meios externos, são acionados os neurotranscodificadores e motoneurônios, propiciando a reunião e elevação de todos os estímulos armazenados que relacionem-se com o evento “objeto/estímulo”-sejam pessoas, objetos ou conceitos validados e mesmo refutados” – desencadeando reação psico-neuro-motoras que, sob a seleção da parede de retorno, chegarão aos níveis mais superficiais de consciência reativa ou, por for força da própria parede de retorno, quando superior a força de tensão, ofertada pelo extensor, onde os estímulos se agrupam para tentarem passar a parede de retorno até chegarem   a atingir  a consciência  supramilesimal de presente.

 

Podem, por força do  limiar paradigmático já desenvolvido, serem devolvidos aos níveis codificados de potenciais reservados.

 

Só ultrapassam a parede de retorno, àqueles estímulos cujo potencial integrado por todos de mesmo conjunto e peso catéxico, consigam ultrapassar as impressões depositadas como máximas na parede de retorno.

 

A parede de retorno é constituída por projeções paradigmaximizativas de todos os estímulos recebidos e interiorizados catexialmente pelos seres. Logo, quaisquer novos estímulos dependem de limiares superiores aos anteriores, para só então conquistarem lugar como referencial na parede de retorno. Caso contrário, de acordo com seu limiar axiológico, não ultrapassa as paredes que levam aos inúmeros níveis de armazenamento. Muitos são nossos contatos com infinitas pessoas, objetos e conceitos. Quando suplantados os anteriores, encontramo-nos frente a possibilidades de criação de novos referenciais.  Um objeto pode assumir a frente como referencial a outros até  então observados e validados. Não refutaremos o anterior, continuará compondo o conjunto, porém não mais como extremo, retornando à níveis mais profundos de armazenamento. Àqueles últimos, mais fortes e sempre mais perfeitos, mantém-se nos níveis mais superficiais de consciência. Daí a paixão o amor e os profundos sentimentos pelo analista.

 

Os pacientes e clientes, querem e buscam referenciais, esclarecimentos, direcionamentos. Os pacientes e clientes de psicanálise,  precedentemente, acreditam que o seu psicanalista  é perfeito, alguém que pode auxilia-lo à auto-realização. Alguém que irá tirá-lo dos problemas, que evidenciará caminhos.

 

Pelas razões supra, e pela fisiologia detalhadamente exposta, o analista vem a formar sozinho a parede de retorno total do ser, conquistada ao longo de uma existência. A partir dele, conceitos serão validados ou refutados. Ele passa a ser o referencial de verdade, de real e irreal, de mentira, de medo, bem estar, certo e errado, de possibilidades concretas...

 

É o psicanalista o responsável pela programação, reprogramação, dimensionamento e redimensionamento, tanto da vida sentimental, quanto da vida interacional, física e mesmo econômica e científica do ser sob análise.

 

Por encontrar-se em linha direta das necessidades máximas do ser, o psicanalista é, por força axiológica catexial, a própria parede de retorno, ocupando papel mesmo de consciência do ser.

 

Como vemos,  o ser sob análise, está vulnerável às interpretações e tendências do seu psicanalista. Utilizamos “seu” exatamente por, para o paciente, o psicanalista pertencer-lhe, assim como sua  própria consciência.

 

A auto-imagem do cliente é forçosamente espelhada pelo analista.

 

O paciente ou cliente, tem  ao psicanalista, como algo único, personalizado, bastante exclusivo. Como a pedrinha que uma vez colhida, passa a ser especial.

 

O sentimento do paciente pelo psicanalista, é o mesmo do psicanalista por ele, porém com a diferença de àquele não ser psicanalista, pesquisador e estudioso do comportamento humano.  Daí naquele se traduz como amor e ao psicanalista ser somente um sentimento a ser esclarecido e corretamente direcionado.

 

Sobre as demais transferências não se faz necessário aprofundamento como na Transferência Positiva.

 

As bases fisiológicas são todas as mesmas, diferem contudo, no tipo de codificação catéxica, variando inclusive, como positivo e negativo, de acordo com o conjunto experimental.

 

2 – Transferência Negativa: O termo Transferência Negativa é empregado por Ralph, para designar sentimentos de transferências que se baseiam no ódio em qualquer de suas modalidades, seus antecedentes e seus derivativos.

 

“A análise do ódio transferencial é tão importante quanto a do amor transferencial” ( p.261-F)

 

A transferência negativa pode manifestar-se como uma resistência contra a transferência positiva.

 

3 – Transferência Objetal: Entendida como as reações transferenciais que ocorrem de acordo com as relações objetais, são manifestadas quando rotulamos e relacionamos o fenômeno com os objetos da infância primitiva  ao qual esse fenômeno deve sua origem. Dessa forma, podemos falar de uma transferência paterna, de uma transferência materna, transferência para o irmão (...) À medida que o reprimido se torna acessível à consciência, mudam, contudo, as necessidades e vai mudar, também, a natureza da reação transferencial.

 

4 – Transferências Libidinais: Os sentimentos traduzidos em transferências, determinarão a fase libidinal em que se encontra esse paciente.

 

Oral - os sentimentos do paciente, amor ou ódio, confiança ou desconfiança, irão determinar se isto é sentido principalmente como uma transferência materna oral positiva ou negativa.

Anal – pode, contudo, demonstrar a fase anal, reage às observações do analista como intrusões dolorosas. Nessa fase, o isolamento tem tudo para ser o mecanismo de defesa predominante.

Fálica – essa fase, quando revivenciada em relação ao analista e à situação analítica, provoca experiências dramáticas. São traços dessa fase; o amor incestuoso e ansiedade de castração, ainda a rivalidade invejosa e os desejos de morte, também o desejo de ter um bebê ou um pênis, compreendem ainda esta fase o retorno das fantasias de masturbação edipianas e os sentimentos associados com culpa.

 

O método supra para classificar transferências, para uma maior aplicabilidade, deve ser aprofundado, para tanto é indicado a leitura de Freud, 1905d; Abraham, 1924; Fenichel, 1945a; Erikson, 1950; A. Freud, 1965.  Preocupamo-nos tão somente em apresentar extratificadamente a possibilidade da análise a partir desse prisma, evidenciados por Ralph Greenson (p.267-F).

 

5 – Transferência Estrutural: A transferência pode se dar de forma a assumir o analista, no âmago do paciente, o id, ego ou superego.

Quando estruturalmente o analista assume a função do superego, é sentido basicamente como crítico, hostil e negativo.

Quando estruturalmente o analista assume a função do id, o paciente desloca e projeta no analista suas próprias tendências instintuais. Nesse momento, por exemplo, ele pode achar que o analista quer que ele se masturbe, seja agressivo, promíscuo...o analista é sentido como um sedutor, provocador e tentador. Isto pode levar os pacientes a atuar como se estivessem meramente se submetendo à vontade do analista. Ou então, isto pode provocar um comportamento pseudo-sexual ou pseudo-agressivo que, na realidade, é uma tentativa oculta de obedecer e agradar o analista. Este padrão de comportamento se pode complicar porque o comportamento pode ser pseudo-instintual conscientemente e mesmo assim esconder impulsos instintuais reais.

 

O analista pode assumir as funções do ego do paciente – caracteriza essa transferência estrutural quando temos do paciente a confirmação do teste; - o que é que meu analista faria agora? Como reagiria nessa situação? O processo de usar o analista como um ego auxiliar é muito importante nos pacientes que têm dificuldade com o teste de realidade, principalmente os casos fronteiriços. É útil para todos os pacientes em situação de crise.

 

6 – Transferência Identificativa: Essa forma de transferência se dá quando o paciente assume parte das posturas e questionamentos do analista. Ocorre inclusive, de o paciente antecipar os questionamentos com o propósito de antecipar-se ao seu psicanalista. Essa identificação pode ocorrer não só em gestos e palavras, como também, no vestuário, na proposta analítica de tudo e todos que os rodeie...

 

7         - Transferência Gratificativa: as fases libidinais transformadas em desejos em relação ao analista, podem resultar em expectativas de gratificação por parte do analista. A persistência do paciente nesse tocante, levará a análise a duas perspectivas; a) seu fim por não receber o paciente a gratificação esperada; b) o psicanalista interromper a análise, conscientizando ao paciente que a gratificação física e concreta não é o objeto da análise. Poderá o analista, contudo, continuar com a análise, utilizando-se desse deslocamento transferencial  para exigir cada vez mais do paciente em relação ao esclarecimento profundo de seu universo interior, observando, para não gratificar sob hipótese alguma sua transferência gratificativa, sob a ameaça de ter sua proposta analítica invadida pela apropriação do paciente, perdendo a identidade de clínico, para dar lugar a uma identidade usurpadora, aproveitadora e sobretudo abusiva da condição sempre receptiva a que se encontram todos os pacientes. Perde o psicanalista se vir a gratificar o paciente, perde o paciente por jamais vir a crer na clínica psicanalítica. Perde toda a classe psicanalítica, pelos efeitos multiplicadores e devastadores da difusão negativa a partir de um gesto imaturo e podemos mesmo chamar irresponsável.

 

 

8         – Transferência Defensiva: Uma das formas de transferência defensiva mais comuns se dá quando o paciente persiste em manter um pensamento racional em relação ao analista. O pensamento racional esconde ou acoberta os pensamentos tidos como; instintual, emocional e irracional.

 

9         - Transferências Generalizadas: O que distingue esta forma de transferência das outras é que as reações ao analista são as habituais, representativas e típicas do paciente com as pessoas em geral. Os pacientes que reagem ao analista com transferência generalizada, vão ter sentimentos, atitudes, impulsos, expectativas, desejos, medos e defesas que foram moldados em seu caráter e que se tornaram sua apresentação externa para o mundo em geral.

 

10     – Atuação das reações transferenciais: Colocamos a “atuação das reações transferenciais” neste rol, por entendermos que sem a “atuação”, nenhuma resistência manifestar-se-ia.

 

“A atuação ocorre numa variedade enorme de circunstâncias e não só como uma reação transferencial (...) A ação é uma repetição do passado ligeiramente disfarçada mas o paciente não é capaz de relembrar a recordação ou recordações passadas(...) O paciente parece concentrado em atuar em vez de recordar(...) é uma defesa contra a memória(...) os pacientes atuam suas reações transferenciais em vez de comunicá-las com palavras e sentimentos(...) (p.287-F)

 

11     – Atuação dentro do ambiente analítico: Sob atuação dentro do ambiente analítico, o paciente comporta-se como se com arrogância, critica o analista, recusa-se a falar, esquece seus sonhos – está ele a atuar sobre seus sentimentos em vez de contá-los, reencena-os em vez de recordá-los.

 

12     – Atuação fora da análise: Sob atuação fora do ambiente analítico, o paciente remonta concretamente seus desejos frustrados para com o analista. Se uma jovem paciente deseja o analista, poderá buscar fora do ambiente de análise alguém com as mesmas características.

 

A TÉCNICA DE ANALISAR A TRANSFERÊNCIA

 

“A interpretação de uma reação transferencial é o passo técnico fundamental para lidar com os fenômenos transferenciais:  mas, para interpretar a transferência com eficiência, existe uma variedade de passos preliminares necessários”. Ralph Greenson (p. 298-F)

 

(...) como a técnica psicanalítica clássica tem por objetivo facilitar o desenvolvimento máximo de todas as variedades e intensidades das reações transferenciais e, como os fenômenos transferenciais surgem espontaneamente no paciente, nossa técnica deve incluir a espera não-intrusiva e paciente (...) O uso criterioso da espera em silêncio é uma das ferramentas mais importantes para facilitar o desenvolvimento da transferência (...) O silêncio, no analista, pode ajudar o paciente a desenvolver e sentir uma intensidade maior das suas reações transferenciais (...)  ( p. 299 F)

 

(...) A sugestão também tem seu lugar no manejo da transferência. Pedimos aos nossos pacientes que associem livremente e que deixem seus sentimentos fluir espontaneamente. Dessa maneira sugerimos que seus sentimentos são manejáveis e admissíveis. Nosso silêncio também pode sugerir ao paciente que esperamos que ele suporte determinados sentimentos por mais dolorosos que sejam e que isso vai levar a um final proveitoso (...) ( p. 299 F ).

 

 

O QUE A TÉCNICA PSICANALÍTICA DEVE ABRANGER

 

Como protegemos a evolução natural da transferência do paciente?

Quando devemos permitir que a transferência se desenvolva espontaneamente e em que condições é previsto intervir?

Quando se torna necessário intervir, quais as medidas técnicas exigidas para a análise da reação transferencial?

Como é que facilitamos o desenvolvimento da aliança de trabalho?

 

Proteção da transferência; - trata esse ponto especificamente da necessidade de se manter  um bom e satisfatório grau de confiabilidade do paciente em relação ao analista, possibilitando assim o desenvolvimento, variações e intensidades nas relações  transferenciais, “respeitando sua própria e única história individual e suas necessidades”. ( p. 301 F )

 

O psicanalista como um espelho; - Freud ( 1912b) recomendou que o psicanalista devia ser como um espelho para seu paciente. ( p.301 F ). Deve o psicanalista refletir ao paciente tudo quanto o mesmo manifeste, sobretudo, inconscientemente, permitindo ao mesmo ter uma visão externa de si mesmo. Ainda que esta visão seja conceitual. A introvisão, desta forma, ganha um reflexo externo, o que até então era limitado e encerrava-se no próprio ser.

 

A regra de abstinência:  - Freud fez uma recomendação importante ; “o tratamento deveria ser realizado, o máximo possível, com o paciente num estado de abstinência”. Ele afirmou com muita clareza: “O tratamento analítico deve ser conduzido, até onde for possível sobre privação – num estado de abstinência”. Os sintomas do paciente, que o levaram ao  tratamento, são, em parte, constituídos por instintivos reprimidos em busca de satisfação. Estes impulsos instintuais se vão voltar para o analista e para a situação analítica enquanto o analista evitar, com firmeza, a oferta de gratificações substitutivas ao paciente. A frustração prolongada vai induzir o paciente a regredir de tal forma que sua neurose inteira será revivenciada na transferência(...)  (p. 306 F)

 

Ralph chama a nossa atenção quanto a má interpretação da regra de abstinência, dizendo que esta chegou a ser entendida como que o paciente não poderia  receber, ou melhor, estava proibido de usufruir qualquer gratificação instintual durante a análise. Na verdade Freud estava tentando evitar que o paciente fizesse  uma fuga para a saúde, prematura e efetuando uma assim chamada “cura transferencial”.

 

 

 

Análise da transferência

 

A nossa explanação anterior, nos diz Ralph, sobre transferência e resistência, deixou bem claro até que ponto podem estar intimamente ligados estes fenômenos. Algumas reações transferenciais provocam resistências, algumas reações transferências parecem resistências, algumas ajudam como resistências contra outras formas de trasferências e algumas resistências ajudam a reprimir reações transferenciais. O ponto técnico importante é que, sempre que uma reação transferencial de qualquer tipo se opõe ao trabalho analítico, quando sua função predominante é resistência ou quando ela auxilia um objetivo obstrutivo importante ainda que não predominante, neste caso, conclui Ralph,  toda, a transferência tem que ser analisada.

 

Mas esta regra tem que ser modificada de acordo com nossos conhecimentos sobre a aliança de trabalho. Só analisamos a resistência transferencial quando um ego racional, uma aliança de trabalho está presente. Se a resistência transferência é importante mas não demonstrável, nosso primeiro trabalho consiste em nos assegurarmos para que ela se torne demonstrável. Em outras palavras, antes de analisar devemos ter certeza da presença de um ego racional, de uma aliança de trabalho. Para agir assim, a técnica utilizada é exatamente a mesma que foi descrita para lidar com outras resistências.

 

Habitualmente o silêncio do analista é suficiente para fazer sobressair a resistência transferencial. Se isto não acontece, a confrontação, muitas vezes, vai fazer o paciente perceber a resistência transferencial, por exemplo, em intervenções como: Você parece estar com medo de me falar abertamente sobre isto ou aquilo”, ou  “Você parece estar evitando os sentimentos que tem a meu respeito”.

 

Se estes dois métodos não forem suficientes, pode tentar-se intensificar a resistência transferencial fazendo perguntas sobre aquele setor que o paciente está tentando evitar.

 

Os níveis de intensidade

 

Outra regra útil relacionada com a pergunta: quando é que devemos intervir na situação transferencial, é a seguinte:  O analista vai permitir que a reação transferencial evolua até atingir um nível ideal de intensidade. Agora temos que definir o que queremos dizer com este termo “nível ideal de intensidade”. Isto não se refere a uma quantidade delimitada mas depende do estado do ego do paciente e o que o analista está tentando alcançar num determinado momento. Basicamente, queremos que a experiência transferencial seja emocionalmente significativa para o paciente mas não que ele seja oprimido por ela. Queremos impacto e não trauma.

 

Em geral, o analista prefere deixar que os sentimentos transferenciais do paciente se desenvolvam espontaneamente e que se tornem mais fortes a não ser que alguma resistência interfira com o trabalho analítico ou com a evolução futura destes sentimentos. Se não há resistência presente, o analista vai esperar antes de intervir até que a intensidade dos sentimentos transferenciais tenha atingido um ponto que torna genuína e viva a reação transferencial para o paciente. Sabemos que uma experiência dessas trás consigo uma sensação de convicção incomparável no processo de ser analisado. As intensidades mais brandas das reações transferenciais podem levar à negação, isolamento, intelectualização e outras resistências defensivas.

 

Algumas modificações e elaborações

 

Algumas vezes, pode ser uma experiência significativa para o paciente se ele mostra o mais leve traço de um sentimento transferencial. Este será o caso quando, ao lado de uma reação transferencial moderadamente forte, podemos detectar um vestígio de outra de tonalidade oposta.

 

Existem ocasiões em que se mostra ao paciente a ausência prolongada de reações transferenciais especiais. Essa também pode ser uma experiência significativa se a ausência de sentimento é evidente e surpreendente para o paciente. É evidente, então, que há uma resistência transferencial em ação, que requer análise como descrevemos anteriormente. É importante controlar a intervenção por um tempo suficientemente longo para que a confrontação produza um impacto e seja sentida como convincente pelo paciente.

 

Algumas vezes, a intensidade ótima não é uma quantidade de sentimento transferencial moderadamente forte mas uma quantidade extremamente alta. É provável que isso aconteça já no final de uma análise quando o paciente já vivenciou repetidamente reações transferenciais de intensidade moderada mas não vivenciou a intensidade máxima que provém do auge da neurose infantil. O analista, nos diz Ralph, tem de perceber quando é necessário deixar que reações transferenciais moderadamente intensas aumentem de intensidade mesmo a ponto de parecer atingir proporções esmagadoras a fim de permitir que o paciente sinta a força enorme dos sentimentos infantis.

Novas compreensões internas

 

Uma compreensão interna nova  pode vir à tona enquanto estamos tentando analisar uma resistência transferencial ou só depois que foi alcançada uma intensidade ótima.

 

Os problemas do esclarecimento e interpretação dos fenômenos transferenciais não são fundamentalmente diferentes do esclarecimento e interpretação de quaisquer outras produções do paciente.

 

Ponderações essenciais:  o estado da aliança de trabalho do paciente e a clareza do material do qual devemos fazer a interpretação ou esclarecimento. O estado do ego racional do paciente será determinado pela natureza e quantidade das resistências. A clareza do material transferencial a ser analisado vai depender de uma variedade de fatores. Um dos elementos mais importantes será a intensidade e complexidade dos afetos ou impulsos em relação ao analista. (  p. 322 – F )

 

Afetos internos

 

O momento de fazer da transferência  o objetivo da interpretação surge quando a reação transferencial contém os afetos mais fortes se comparados com o resto do material do paciente. Quando ouvimos as produções de um paciente temos de decidir qual objetivo ou situação tem ao seu dispor a maior dose de afeto. Vamos sempre interpretar o aspecto transferencial se o mesmo parece conter uma dose razoável de afeto. Na sessão analítica, os afetos são indícios mais seguros do que os afetos nos sonhos. A ausência de afetos onde seria de esperar a sua presença, também indica que há algum trabalho analítico a ser feito. O mesmo é válido para afetos inadequados.

 

Contradições

 

Ocorre quando o paciente compara elementos diferentes e atribui qualidades, virtudes ou defeitos não reais, facilmente contraditórios. Como uma paciente que diz ser o analista igual ao marido, logo, diz que o analista é inteligente e amável, para imediatamente dizer ser seu marido grosseiro e burro.

 

Repetições

 

O paciente observa tudo por um só prisma, tanto pode ser otimista, fatalista, negativista, positivista, cientista, místico, crente, casuísta, causualista, casualista, espiritualista...Este paciente mantém uma linha única de entendimento. Mudam os personagens e situações, contudo a visão, causa e efeito é somente um segundo sua concepção repetitiva.

 

Semelhanças

 

Um paciente complacente e dócil descreve, numa sessão analítica, como se  havia descontrolado com um amigo seu. Estavam andando de carro por quase uma hora e o paciente tentou fazer o amigo entrar na conversa mas o amigo continuou quieto, dava apenas uns grunhidos e se recusava a participar. Mas que egoísmo, que falta de consideração, que frieza! E foi continuando a desabafar sua raiva. Quando se acalmou, Ralph lhe mostra que, como analista, também passava quase uma hora com ele e raramente contribuía para a conversa, exceto para um ou outro grunhido. O paciente reage com uma risada rápida e fica em silêncio. Depois de uma pausa longa, sorri e diz resignadamente: “Bem, nessa você me pegou”. E diz ainda, com um riso engasgado, “juntos por quase uma hora, nada de conversa, apenas grunhidos, recusando-se a participar – certo, você realmente parece que acertou em alguma coisa(...)” E Ralph lhe responde:

 - “Você foi capaz de demonstrar uma raiva de verdade pelo seu amigo mas parece incapaz de ficar com raiva de mim pelo mesmo motivo”.

O paciente então parou de sorrir e começou a trabalhar. ( p.326-F)

 

Simbolismo

 

Existem momentos em que o paciente utiliza-se de símbolos para dizer ao seu psicanalista determinados episódios de sua vida, que, em palavras  é  incapaz de  expressar. Uma jovem paciente por exemplo, em uma sessão, fala livremente de pensamentos que se formam em sua mente. Relata encontrar-se em uma praia, com pescadores, logo afasta-se dali e chega a uma colina, lá tem uma estrada, pega uma carona...a condutora do veículo diz ser viciada em cocaína e pede-lhe ajuda...

 

A jovem fala dela mesma, cria contudo um veículo simbólico para pedir ajuda ao psicanalista. Não admite ser viciada, mas no simbolismo confessa. Em outro momento, essa mesma jovem vê um lago e ela própria transforma-se em um ciclone, de onde penetra no lago, depois, lá no fundo, encontra Alpes e uma grande ponte de tábuas falhas ligando grandes penhascos. É uma forma simbólica de admitir estar entrando ou aprofundando seus sentidos em níveis de profunda inconsciência para dizer-nos do medo que sente em relação a vida e a insegurança que tem ao caminhar meios as diversas instâncias e possibilidades que a vida oferece. As tábuas falhas representam sua família, um sustentáculo incapaz de oferecer-lhe a segurança que necessita. Os grandes penhascos representam as possibilidades de vir a mergulhar nas drogas caso não receba o devido auxílio, rápido, preciso e  eficaz. Sente encontrar-se sob uma falsa realidade que a qualquer momento pode desmoronar. O que também representa a situação de seus pais, já que bem conhecemos suas realidades em relatos de sessões anteriores.

 

Associações chaves

 

Às vezes, é uma única associação que nos fornece a pista mais importante para saber se devemos interpretar a transferência e qual aspecto dessa transferência escolher para ir em frente.

 

Determinadas associações têm prioridade sobre outras, mesmo sobre um número enorme de outras associações porque estas parecem abrir caminho para novas e importantes áreas de investigação.

Tais associações chaves se caracterizam por ser mais espontâneas, imprevistas e surpreendentes do que outras associações. Algumas vezes elas se encadeiam, de maneira impressionante, com as associações do analista, uma ocorrência que indica que essa associação é potencialmente significativa.

 

Medidas técnicas ao analisar a transferência

 

Para analisar os fenômenos transferenciais, temos que levar a cabo as mesmas medidas técnicas que são essenciais na análise de qualquer fenômeno psíquico; o material tem que ser demonstrado, esclarecido, interpretado e elaborado. Além destes procedimentos básicos, algumas outras medidas técnicas se fazem necessárias devido a peculiaridades específicas dos fenômenos transferenciais. E, a seguir, uma descrição geral do procedimento para analisar a transferência.

 

Antes de passarmos à investigação dos sentimentos transferenciais, é preciso que o paciente perceba que o assunto em discussão é exatamente a sua reação ao analista. Isto pode ser óbvio ao paciente: na verdade, ele próprio pode perceber que isso acontece sem qualquer ajuda do analista. Por outro lado, surgem situações em que é muito difícil para o paciente detectar seus sentimentos transferenciais.

 

Como primeiro passo para analisar a transferência, é imprescindível que o paciente passe por uma confrontação quanto às suas reações transferenciais, conscientizando-se das mesmas.

 

Se, por qualquer motivo, o paciente não percebe as reações transferenciais que desejamos investigar, temos então que demonstrá-las a ele. Nesse ponto, existem muitas medidas técnicas que nos podem ajudar. ( p 330-F)

 

Silêncio e Paciência

 

Muitas vezes, se esperarmos que os sentimentos transferenciais aumentem de intensidade, um paciente vai perceber espontaneamente uma reação transferencial. Em geral, esse aumento se torna possível simplesmente deixando que o paciente continue com suas produções sem intervenção do analista.

 

Em toda a análise, existem ocasiões em que se torna necessário que o próprio paciente se conscientize de suas reações transferenciais, ocasião em que seria errado o analista demonstrá-las para o paciente. Isso é particularmente evidente quando a intensidade dos sentimentos está suficientemente acentuada, quando o paciente já não é mais um iniciante e quando há o risco de que esteja tirando alguma gratificação passiva ao deixar de participar totalmente do trabalho analítico.

 

Algumas vezes, a simples confrontação do paciente em sua luta para exprimir seus sentimentos transferenciais pode ajudar a superar temporariamente a resistência. Nossa atitude tolerante e a verbalização ajudam  o paciente a perceber que sua luta é inadequada e desnecessária. Em outras ocasiões, a confrontação constitui apenas o primeiro passo para analisar a resistência. Teríamos, então, de passar pelas fases de esclarecimento e interpretação. O problema decisivo é se  num determinado ponto da seqüência dos fatos, o procedimento indicado será o de superar a resistência ou analisá-la.

 

Se a reação transferencial que desejo demonstrar ao paciente é uma resistência transferencial, eu, então, faço com que se confronte com o fato. Ou eu mostro ao paciente que ele parece estar evitando algum sentimento ou atitude em relação a mim ou, se tenho uma noção mais exata dos sentimentos específicos que ele está procurando evitar, aí então, mostro quais são esses sentimentos ao paciente. Em outras palavras, fazemos o paciente se defrontar tanto com a resistência como com os sentimentos que estão provocando a resistência, começando sempre pelo lado da resistência. Assim, eu poderia dizer ao paciente: “Você parece estar lutando com sentimentos de amor ( ou ódio ou sexo ) a meu respeito”. Talvez, “Você parece ter dificuldade para expressar o seu amor (ou ódio ou sexo) . Observem, mais uma vez, a linguagem e o tom de voz. Além disso, Ralph sempre acrescenta a frase “a meu respeito” ou “em relação a mim”. Ralph justifica por não querer que o paciente evite o fato de que os sentimentos em questão visam a mim, à pessoa, não “à análise” ou a qualquer outro conceito mais impessoal. ( p. 331 e 332-F).

 

O uso da evidência

 

Só se utiliza uma evidência para convencer um paciente de que está tendo uma reação transferencial no caso em que o paciente viesse a achar que o analista tem poderes mágicos. Acho que utilizo esta abordagem principalmente no começo da análise como uma forma de mostrar ao paciente como é que o analista trabalha, para superar suas idéias mágicas sobre o analista e para ajudá-lo estabelecer uma aliança de trabalho.

 

O uso da evidência, segundo Ralph, é um apelo à inteligência do paciente. (p332 –F)

 

Esclarecimento da transferência

 

Uma vez que o paciente reconheceu que está envolvido numa reação transferencial, estamos prontos, portanto, para o procedimento técnico seguinte o esclarecimento da transferência. Desejamos, agora, que o paciente torne mais aguçado, esclareça mais, aprofunde mais e preencha o quadro transferencial.

 

Buscamos a origem histórica  dos fenômenos transferenciais. Os detalhes levam aos afetos, impulsos e fantasias do paciente. Pedimos ao paciente que, com o máximo de sua capacidade, filtre, ornamente e elabore seus sentimentos...também lhe pedimos que inclua as associações que poderiam surgir enquanto está buscando a elaboração.

 

Procurando o desencadeador da transferência

 

Outro método valioso para esclarecer uma reação transferencial determinada consiste em descobrir qual a característica ou detalhe de comportamento, no analista, funcionou como estímulo desencadeador ou estopim.  É muito comum os pacientes perceberem espontaneamente que um determinado traço ou atividade do analista despertou uma reação especial. Em outras ocasiões, este desencadeador transferencial não só permanece desconhecido para o paciente, mas,  terá resistências muito fortes para identificá-lo.  Algumas vezes, o comportamento do analista fará aparecer no paciente uma reação que não é um fenômeno transferencial porque pode ser uma reação adequada. Finalmente, deve compreender-se que, algumas vezes, nós, analistas, podemos ser inibidos demais para investigar com o paciente quais das nossas idiossincrasias pessoais pode ter servido de estímulo transferencial.

 

A interpretação da transferência

 

O método psicanalítico se distingue de todas as outras formas de psicoterapias. A interpretação é o instrumento decisivo e fundamental da técnica psicanalítica. Todos os outros procedimentos técnicos utilizados em psicanálise são as bases para tornar possível a interpretação. Mais do que isso, qualquer outro artifício técnico pode, eventualmente, tornar-se o assunto da análise e seus efeitos sobre o paciente devem ser interpretados.

 

Dentro da estrutura da psicanálise, interpretar significa tornar consciente um fenômeno psíquico inconsciente. O objetivo fundamental de todas as interpretações é permitir que o paciente compreenda o significado de um determinado fenômeno psíquico, inconsciente. Interpretamos a transferência desvendando a história inconsciente, os antecedentes, origens, objetivos e interconexões de uma determinada reação transferencial.

 

Busca da origem dos antecedentes da figura

 

É comum, segundo Ralph, a utilização das seguintes formas de questionamentos à descoberta dos antecedentes da figura: “Quando foi que você se sentiu assim no passado? Ou ainda; Em relação a quem você se sentiu assim no passado?

 

Investigação das fantasias transferenciais

 

É preciso, algumas vezes, fazer com que o paciente enfoque diretamente suas fantasias, particularmente quando os afetos, impulsos ou objetos transferenciais parecem vagos, inacessíveis ou improdutivos.

 

Elaboração das interpretações transferenciais

 

No máximo, uma única interpretação transferencial constitui apenas uma explicação parcial. É preciso elaboração de cada uma das interpretações para chegarmos a uma compreensão completa e à mudança permanente no comportamento do paciente.

 

 

 

 

Considerações teóricas

 

O processo da elaboração trata fundamentalmente da repetição e elaboração das compreensões internas (insights) obtidas através da interpretação. A repetição é necessária particularmente ao tentar analisar e superar as resistências transferenciais. Isso se deve à relutância do ego em abandonar as velhas defesas e arriscar abordagens novas: o ego precisa de tempo para dominar as ansiedades antigas e para confiar em suas novas capacidades adaptativas. Na experiência clínica, é muito comum não conseguirmos mudança alguma ou uma mudança mínima, quando interpretamos, pela primeira vez, o significado de uma determinada resistência transferencial.Todo o trabalho que vem após a compreensão nova e provoca uma mudança na atitude ou comportamento pode ser considerado como o processo de elaboração.

 

 

Procedimentos técnicos: a busca e a reconstrução

 

O material precedente é um exemplo típico de como se interpreta e se trabalha (parcialmente) as reações transferenciais de um paciente.  Uma interpretação eficaz e completa não pode ser alcançada numa única intervenção mas exige repetição e trabalho minucioso.

 

·        O Psicanalista deve estar atento com o que está acontecendo na situação transferencial depois que tiver feito uma interpretação transferencial nova ou diferente. Isso não significa, necessariamente que ele vá continuar com sua interpretação para o paciente:

·        * ele pode agir assim se o paciente parece mostrar que está trabalhando positivamente com àquela interpretação;

·        * ele pode sair em busca de outra  variação da transferência se o material do paciente parece tomar esse rumo;

·        * ele pode perguntar ao paciente o que achou sobre as últimas interpretações.

( isto, se ele, analista, não vê conexões ou derivativos palpáveis no material do paciente).

 

O psicanalista pode esperar tranqüila e calmamente que o paciente trabalhe com a nova interpretação à sua própria maneira e dentro do seu próprio ritmo. De  qualquer forma, o analista ficará particularmente atento a todas as mudanças e evoluções, assim como às ausências de mudanças que vêm após qualquer interpretação transferencial nova ou original.

                                                                               (p. 359  f.)

 

A reconstrução é um trabalho preliminar e, se estiver correto, vai levar a novas recordações, novo comportamento e a mudanças na auto-imagem.                                    (p. 360 f)

 

O objetivo da interpretação é tornar consciente algum fato psíquico inconsciente para que possamos entender melhor o significado de uma determinada parcela do comportamento.

                                                                                 ( p. 361)

 

 

PROBLEMAS ESPECIAIS AO ANALISAR AS REAÇÕES TRANSFERENCIAIS.

 

“Uma explosão emocional aguda pode levar o paciente a embarcar em alguma atuação (acting out) perigosa de seus sentimentos transferenciais”     (p. 363 f)

 

Em situações especiais de explosão emocional, outras técnicas se farão necessárias, que não a abordagem puramente psicanalítica como a concebemos. Isto, pela ausência temporária de um ego racional.

 

Nos últimos vinte anos, muitas mudanças têm ocorrido na perspectiva analítica. O tipo de paciente que procura o tratamento psicanalítico é uma delas.

 

 Após  a Segunda Guerra Mundial, a psicanálise clínica ganhou forte projeção no mundo inteiro. Isto, devido as “psicotraumatosugestões”  sofridas pelos combatentes diante do convívio diário com a possibilidade de morte e também pelas fortes impressões emocionais vividas naquele momento.

 

A psicanálise, na atualidade, não detém-se mais neste perfil de paciente, dividindo o divã, com pacientes com outras ordens de patologias.

 

Nossos pacientes na atualidade, são em sua maioria, seres que querem se encontrar cem por cento. Não buscam meias verdades. Resistem aos tratamentos químicos, com administração de tranqüilizantes e psicotrópicos gerais. Querem simplesmente serem “normais”, não sentindo quaisquer emoções que os desestabilizem. Querem negar a própria ordem natural de agressões psicotraumatosugestivas.

 

Os pacientes da atualidade, em sua maioria, não gostariam de tratarem-se analiticamente, o fazem, por estarem cansados de suas próprias vidas, querem respostas imediatas e contundentes. Todavia, se assim procedermos, estes assustam-se, passam a ver a pessoa do psicanalista como um adversário  - um destruidor de sonhos. Sendo que estes “sonhos”, são ilusões, sem bases concretas e nenhum ingrediente de estabilidade. São falsas verdades, meias verdades e verdades incompletas que infelizmente os têm sustentado por longos e ininterruptos anos, arraigando-se assim, em níveis muito profundos  paradigmáticos, como se verdades plenas fossem, evitando o desenlace psico-evolutivo.

 

Deveríamos esforçarmo-nos para chegar ao nível máximo na busca da verdade como consta na filosofia de Edgar Hudson, onde;

 

“O que não é plenamente verdadeiro, não é meia verdade. O que não é plenamente verdadeiro, é plenamente falso”

                                                                 

Necessitamos construir calma e equilibradamente nossa trajetória, sobretudo, com “fé nas pequenas coisas” pois, como bem consta da filosofia de Celso Derivi;

 

“A fé nas pequenas coisas são como grãos de areia, com ela removemos montanhas e construímos nosso próprio caminho, e nem nos damos conta”

C

Indiscutivelmente aspiramos unir estas duas perspectivas, onde removeremos montanhas fundamentados em uma verdade “insofistimável”, criadora, eterna, integrando o ser com a sincronicidade e ordem exata e geral do Universo. Para isso, é necessária a análise profunda de todo o movimento energético catéxico dos pacientes. Quais são os seus conjuntos de verdades conceituais. O que devemos validar, confirmar como verdades e o que estimularemos à refutação.

 

Os pontos supra são de vital importância e observância enquanto delimitamos o paradigma psicoexistencial de nossos pacientes.

 

Em um passado próximo, não tratávamos pacientes esquizofrênicos, direcionando a técnica psicanalítica somente àqueles com psiconeuroses diagnosticáveis nas consultas preliminares.

 

Atual, é o confronto com realidades contrárias a assertiva do parágrafo supra e épocas passadas.

 

“De vez em quando, pude ver pacientes esquizofrênicos que eram analisáveis e psiconeuróticos que não o eram”   

        

                                                              (p. 377 f) Ralph Greenson

 

Na moderna psicanálise, não mais delimitamos reações transferenciais quanto a impossibilidade de cura através da clínica psicanalítica. Isto, por incorporarmos à psicanálise, alguns conceitos modernos, sistematicamente observados os seus efeitos e clinicamente aprovados, como é o caso, do que se tem como mais recente em psicanálise clínica, que é a perspectiva da “transferência”e do “deslocamento”efetivos de pontos tensionais catexicamente alojados em nossos pacientes, através da Psicanálise Clínica Instrumental, quase uma especialização dentro da própria psicanálise, o que para nós, só deve ser utilizado por Psicanalista especialistas nesta área.

 

Os casos que até um passado próximo eram tidos como intratáveis, passam a ser, todavia, com a abertura de um parêntese na psicanálise, pelo clínico, e a intervenção psicoterapêutica instrumental, para, só então retomar o método clássico analítico.

 

“Em muitos casos, modificações e desvios da psicanálise podem realmente ser necessários para resolver as necessidades do paciente”

                                                                       ( Gill, 1954, por R. Greenson/ p. 400 – f )

 

 

O QUE A PSICANÁLISE EXIGE  DO PSICANALISTA

 

Para poder praticar a psicanálise terapêutica, o psicanalista deve ser capaz de realizar certos procedimentos técnicos no paciente e nele próprio. Para executar adequadamente estes procedimentos, o psicanalista deve utilizar determinados processos psicológicos que ocorrem dentro de si, analista. O que vai acontecendo dentro de sua própria mente acaba sendo o instrumento mais importante de que dispõe o psicanalista para compreender a mente de outro ser humano. Como resultado, a aptidão de um psicanalista está diretamente ligada a sua própria mente inconsciente e à proporção em que esse inconsciente se torna acessível para ser utilizado pelo seu ego consciente.

 

Exige-se realmente do analista uma inteligência e nível culturais elevados porém, mais importante ainda, é uma mente inconsciente compreensível e disponível.

 

A exigência para que todos os psicanalistas tenham feito terapia psicanalítica antes de ter permissão de tratar psicanalíticamente de um paciente, não visa apenas a dar ao analista uma convicção pessoal da validade dos fatores inconscientes e dessensibilizá-lo nas áreas em que seus próprios problemas poderiam distorcer seu julgamento: o objetivo fundamental da análise pessoal do analista é pôr ao alcance do seu ego consciente os impulsos inconscientes, defesas, fantasias e conflitos importantes da sua própria vida infantil e seus derivativos posteriores. Alguns desses conflitos vão estar solucionados, outros ter-se-ão modificado para formas mais adaptativas, outros terão permanecido inalterados mas acessíveis.

 

O fundamental para o psicanalista praticante é que seus conflitos inconscientes são controláveis e acessíveis para serem  usados em seu trabalho com seus pacientes.

 

O grau de solução desses conflitos vai, sem dúvida alguma, influenciar a aptidão que o psicanalista será capaz de usar. Sua capacidade para alcançar satisfação instintual sem conflito vai aumentar a capacidade do seu ego para neutralizar determinadas funções, intensificar as funções autônomas do ego e a adaptatividade. O mesmo é válido para os conflitos intra-sistêmicos. ( p. 406 – f )

 

COMPREENSÃO DO INCONSCIENTE

 

A aptidão mais importante que o psicanalista deve possuir  é  sua habilidade para traduzir os pensamentos, sentimentos, fantasias e impulsos conscientes do paciente para seus antecedentes inconscientes       ( do próprio paciente). Deve ser capaz de sentir o que há por trás dos vários assuntos de que está falando seu paciente nas sucessivas consultas  ( sessões ) analíticas. Escutar a melodia  óbvia mas também ouvir os temas secretos (inconscientes) na “mão esquerda”, o contraponto.

 

O psicanalista deve reparar nos quadros fragmentados que o paciente pinta  e  ser capaz de traduzí-los para a sua forma inconsciente e original.

 

A COMUNICAÇÃO COM O PACIENTE

 

O  Psicanalista pode se comunicar com o paciente obedecendo a vários critérios, dentre os quais destacamos:

 

Intuição eurística; pensamentos que se formulam em níveis sub-conscientes, aflorando repentinamente à consciência. Surgem como se do nada. Muitos chamam estes pensamentos de “clarividência”; “sexto sentido”; “intuição”; “vozes do além”; entre uma infinidade de criações imaginativas. Na realidade, os pensamentos “eurísticos” se formulam a partir de fragmentos múltiplos armazenados ao longo da vida, aflorando à consciência repentinamente diante a elementos e estímulos que correspondam aos elos à continuidade, expansão ou conclusão daqueles já armazenados.

 

Um copo d’água serve sempre como exemplo a uma infinidade de situações e tentativas de visualização de processos conceituais e de expressões psicocinergéticas. Neste exemplo, também será válido:

 

Imagine-se cada gotinha que armazena-se em um copo vazio, enchendo gota a gota. Estas gotas seriam os fragmentos múltiplos a que referímo-nos. Em dado momento, este copo estará cheio, assim, derramará. Este transbordar, seria, representativamente, a passagem dos níveis sub-conscientes para a consciência. Só se manifestará após um limiar mínimo como suporte à vencer a parede de retorno. Até então, nada conseguirá pinçar àqueles fragmentos tão profundamente armazenados. Obviamente, se penetrarmos no copo, conseguiremos tocar a água. Da mesma forma, se aprofundarmos a introvisão de algum ponto a partir do consciente, formando os devidos elos sucessórios à ligação em profundidades maiores de consciência, conseguiremos um bom nível de “regressão”. O copo, representa as “cápsulas neurocodificadoras” humanas, capazes de armazenarem até dois bilhões e duzentos milhões entre imagens e palavras. Conseguem associar pensamentos e imagens de uma mesma natureza. Conseguem regular a freqüência, tanto de armazenagem quanto de impulsos. Interagem entre si para rearranjarem tais potenciais, possibilitando uma infinita capacidade aos seres. Nenhum segundo ou ainda, nenhum mícron de milésimo de segundo, consegue ser igual a outro em toda uma existência, dessa forma, conseguimos nos especializar conscientemente em determinadas áreas do conhecimento e, sob a lei da vontade e da razão, mantemo-nos em determinadas freqüências para atender alguns chamados dos meios. Todavia, “como um navio sem âncoras, não conseguimos parar, nos acomodar”. Esta lembrança e referência a um navio sem âncoras, devo à Geraldo Antunes Maciel, professor da Universidade do Amazonas.

 

Empatia:

um meio de o psicanalista ter acesso às sutilezas e complexidades de seus   pacientes.

 

(...) Adquirir compreensão através da empatia depende da capacidade do analista para se identificar, introjetar, ter um contato epidérmico íntimo, contato pré-verbal com  o paciente (...)

                                                          ( p. 441 – f )

 

“A empatia é uma forma  de compreender outro ser humano através de uma identificação parcial e temporária”

                                           

                      Ralph Greenson – (p.425 f.)

 

“Da semente das pequenas compreensões, podem ir surgindo grandes mudanças”         ( p. 441 – f )

                                                                                                                                                            

- nesta outra modalidade de comunicação, “empatia”  - o psicanalista pode entregar-se totalmente às figuras e experiências do paciente,  concentrando-se e assumindo para si as lembranças descritas pelo mesmo durante as sessões, ou, em dado momento de uma mesma sessão. Dessa forma, o psicanalista terá uma visão interna do contexto em que vive o paciente, com as possibilidade reativas a partir do ponto de vista do seu paciente. Deixa a posição externa, cômoda poderíamos dizer, para assumir integralmente, transferencialmente, as situações de tensões e medos de seus pacientes, também de suas potencialidades e possibilidades.

 

Na forma psicanalítica descrita supra, o psicanalista poderá de maneira mais comprometida, ofertar ao paciente, um material mais rico em detalhes. Isto, por deixar-se envolver emocionalmente. Contudo, este procedimento deve ser conscientemente administrado pelo psicanalista, sempre convicto de estar emprestando naquele momento, tudo o que dispõe à análise do material trazido para a sessão por seu paciente, sem permitir o deslocamento de tais emoções, ao campo de registros de situação real. Deve o psicanalista, para conseguir tal dicotomia, sempre ao término de uma sessão, ou parte da sessão, desviar, por alguns segundos, totalmente a atenção anteriormente dedicada ao paciente.

 

O psicanalista,  para um retorno da condição introjetiva propiciada pela empatia, pode, por exemplo, verificar em seus registros, o nome do próximo paciente e por não mais de alguns poucos segundos, visualizar o próximo paciente e sua história analítica. Isto,  para retornar à um posicionamento externo e, com pleno domínio dos dados coletados durante a “análise incorporativa – condição introjetiva” (como cabe ser chamada)  proceder os devidos comentários.

 

Nada impede ao psicanalista comentar com o paciente sua  “introvisão” enquanto vivenciando a “análise incorporativa”, criando um ego duplo, seu e de seu paciente durante a esta forma de analisar. O melhor, em nosso ver, é o psicanalista retornar a uma visão externa do paciente para só então esclarecer os fatos observados na forma interna.

 

Conhecimento teórico: - aqui, o psicanalista lança mãos de todo o seu conhecimento teórico, científico e cultural, de onde, demonstrará efetivo domínio sobre alguns aspectos expostos pelos pacientes. Sempre que o psicanalista utiliza-se dessa forma de analise, ele deve estar consciente que provocará no paciente uma inibição, já que o mesmo se sentirá por força de sua condição, intimidado, sem condições de discutir com o psicanalista, visto que àquele, é o médico, àquele é o clínico, ele é quem sabe, é a última palavra. Ainda que não queiramos tal visão por parte de nossos pacientes, devemos estar conscientes, que eles não estão em nosso divã por nossos olhos ou outra razão que não a sua própria busca pessoal de respostas aos problemas que se lhes afligem. Assim, podemos fazer algumas observações tecnicamente bem fundamentadas, mas nunca inverter os papeis com o paciente. Quem está ali, pagando para programar-se, é o nosso paciente. Não podemos fazer exposições longas ou mesmo médias. Devemos acumular, resistir e suportar a vontade de transformar a análise em um bate-papo, superficialmente gerado e superficialmente conduzido. Somente permitindo ao paciente a associação livre, descomprometida e liberta, com, preferencialmente, a total exteriorização das emoções, poderemos estar ajudando efetivamente aos nossos pacientes. Sempre lembrá-los de que nos pensamentos onde aparentemente não  existam elementos de análise,  podem esconderem-se grandes elos com suas buscas de uma evolução contínua e crescente.

 

Devemos introduzir eventualmente novos conceitos, todavia, sem esquecermos que o nosso paciente construiu, assim como nós, toda uma estrutura conceitual e psicológica. Não podemos simplesmente pisarmos por sobre o universo interior de nossos pacientes e marcharmos como um exército invasor, conquistador de territórios, sob o prisma da demarcação pela força e imposição. Cabe sempre ao analista, antes de invadir, permitir-se ser invadido, antes de dominar, permitir-se ser dominado, antes de se fazer ouvir, permitir ao paciente a minuciosa e complexa elaboração e as vezes até mesmo, reconstrução de conceitos e perspectivas objetais sistêmicas.

 

Som e aroma também compõem os elos de comunicação entre o psicanalista e o paciente. Se o psicanalista, por exemplo, após construir parte do universo interior do paciente, associar músicas à perspectiva regressiva, poderá, com mais facilidade, dispor de ligações psico-sócio-conjunturais das variadas épocas de experiências por parte de seu analisado. Da mesma forma, o aroma. Um paciente que faz referência a um determinado perfume em determinada época, poderá, em uma perspectiva da programação de uma sessão regressiva, ter um maior rendimento se o psicanalista tiver sensibilidade para construir todo o conjunto de elementos axiológicos, externos, que facilitam o acesso ao conjunto interno, catéxico. Deve haver uma empatia entre o ambiente e a proposta do psicanalista.

 

Os psicanalistas que utilizam-se de um planejamento das sessões, têm mais conquistas, com maior acesso dos campos psicocatexiais de seus pacientes. Uma sessão previamente programada, a partir de elementos ofertados, ainda que em fagulhas, por nosso paciente em sessões anteriores, deverá conduzir, com mais segurança e facilidade as associações de nossos analisados. Todavia, em nada será prejudicada a análise pelo não planejamento. O planejamento é válido quando o psicanalista quer penetrar em um momento da vida do paciente com mais profundidade e eficácia. Em sessões de regressão, hipnose e cirurgias psicotraumatosugestivas, são indiscutíveis os efeitos de uma sessão elaborada e muito bem planejada. Com a utilização de tudo quanto o psicanalista disponha para, com leveza, conduzir, segura e eficazmente seu paciente.

 

Os níveis e temas,  cuja abordagem psicanalítica consegue alcançar, devem ser entendidos como uma forma também de comunicação, isto, por, não poder o psicanalista manifestar tudo quanto pensa e se lhe ocorre e também conclui, sem um estudo prévio e detalhado dos efeitos dessa interação sob as bases psico-estruturais neuro-tensionais dos pacientes.

 

 Logo, ainda que não sejam formas de comunicação com o paciente, podem sim, determinar o estado médio de estabilidade de nosso paciente. Dessa forma, sempre que difícil seja a abordagem de determinados temas, em níveis e escalonamentos de estímulos, de euforia e apatia, devemos estar conscientes que estes necessitam de uma maior elaboração antes de sua confrontação e esclarecimento.

 

As bases e limiares de suporte de nossos pacientes devem ser reforçadas e mesmo preparadas à quaisquer novos conceitos e esclarecimentos.

 

Um tempo de maturação deve ser previsto, entre a exposição descomprometida, todavia com efeitos sobre as bases emocionais de nossos pacientes, e o esclarecimento por parte do psicanalista.

 

Ainda que observemos, por exemplo, que uma jovem que, separada do marido a três anos, não consiga livrar-se de suas lembranças devido a um relógio que carrega como uma “algema” em um de seus braços. Presente este dado pelo ex-marido, no passado, no dia dos namorados, devemos, nesse momento, acumularmos, resistirmos e suportarmos a vontade de comunicar ao paciente que parte significativa de suas lembranças estão relacionadas àquele relógio. Se o fizermos, devemos estar também conscientes que esta paciente deverá negar tal observação do psicanalista e afastar-se por algum tempo das sessões. Seu ego presente  está de certa forma tão ligado ao  prazer do id passado, que, dificilmente a nossa jovem paciente aceitaria calada tamanho chamado à  quebra da falsa estabilidade que a mantém ligada ao ex-marido. Ela quer sim se livrar das lembranças do ex-marido, todavia, não consegue livrar-se  dos objetos que compõem os elos àquela fase de sua vida. Distraidamente, acaricia o relógio durante as sessões, o que evidencia um pensamento inconsciente com exteriorização tácita ao culto das impressões do ex-marido.

 

Comunicação visual e instrumental. Existem outras centenas de formas de comunicação com o paciente, a própria forma como o psicanalista veste-se traduz em si mesmo uma forma de comunicação. Os instrumentos que encontram-se ao alcance da visão do paciente, também traduzem uma interação comunicativa. Se, por exemplo, o psicanalista mantiver sob uma mesa, alguns pêndulos, o paciente sente a eminência, de em algum momento, aqueles instrumentos serem utilizados para, de alguma forma, proporcionar-lhe algum estímulo, projeta a perspectiva da hipnose, regressão. Se o psicanalista mantém sob essa mesma mesa, alguns aparelhos como o utilizado para verificar a pressão arterial ou um estetoscópio, o paciente sentir-se-á mais seguro, convicto de que o psicanalista detém bases sólidas de intervenção clínica ambulatorial, se assim, durante as sessões ele vir a necessitar. Isto, repercutirá na própria condução ou libertação das emoções por parte dos pacientes.

 

Somos favoráveis, a introdução da disciplina de “procedimentos ambulatoriais, de urgência e instrumental à formação em psicanálise”. Dessa forma, garantiremos aos nossos colegas psicanalistas, as bases à eventualidades no tocante a situações múltiplas enquanto da análise. Seguidamente, pacientes chegam a meu consultório, demonstrando sintomatologias que podemos relacionar com a freqüência tanto cardíaca quanto de pressão arterial, como manifestações hipotalâmicas-reflexivas, dentre uma infinidade de possibilidades. O domínio de tais procedimentos, garantem uma performance do psicanalista em relação as expectativas de seus pacientes. Sobretudo, permite ao psicanalista dispor do que até aqui se tem como mais simples ao complemento da anamnése de diagnósticos biofisiológicos básicos.

 

A comunicação laboratorial, em nosso ver, também é parte importante da análise. A análise dos dados quantitativos neurobiofisiológicos de um paciente, pode representar o diagnóstico a partir de possibilidades facilmente observáveis em dados laboratoriais. Não há razão ou impedimento que justifique o psicanalista deixar de lançar mãos dessa ferramenta  valiosa na avaliação preliminar e também sistêmica de seus pacientes. Esta é uma forma técnica e científica de comunicação. O paciente sente-se efetivamente sendo totalmente analisado, desde as suas estruturas biofisiológicas às bases psicossomáticas. Nesta mesma ordem, colocamos a necessidade da solicitação por parte do psicanalista, do que chamamos de  “elo-histórico”, o que conseguiremos através da solicitação de estudos genealógicos de nosso paciente. Os estudos genealógicos oferecem-nos uma comunicação concreta com as bases hereditárias genéticas de nosso paciente. Dessa forma, manteremos contato com um ser cuja perspectiva de vida não iniciou em seu nascimento, mas, sob bases genéticas hereditariamente herdadas. Ainda não dispomos de um exame genético genealógico, ou patológico genealógico, o que nos facilitaria, em muito, a práxis psicanalítica.

 

 

O PSICANALISTA

 

“O psicanalista deve deixar que os sentimentos transferenciais atinjam sua intensidade ideal sem intervir. Para isso o analista deve possuir a capacidade para suportar estresse, ansiedade ou depressão, em silêncio e com paciência.”

                                                                  ( R. Greenson, p.438 – F)

 

Os impulsos instintuais impelem o homem a procurar descarga e gratificação. A medida que o ego se desenvolve, a busca de segurança se transforma num outro objetivo fundamental. Todas as motivações posteriores são atribuíveis à procura de gratificação ou segurança ou às combinações das duas.

 

Três componentes principais do trabalho do psicanalista:

 

-         o analista como coletor e transmissor de compreensão e entendimento;

-         o analista como o alvo da neurose de transferência;

-         o analista como a pessoa que trata dos doentes e sofredores.

 

O analista deve compreender seu paciente para adquirir compreensão quanto ao seu comportamento, fantasias e pensamentos.

 

A tarefa do analista é transmitir o significado oculto, contido no material apresentado pelo paciente; - confrontando-o e esclarecendo-o ao paciente.

 

“O desejo de compreender outro ser humano de maneira tão íntima, o desejo de conseguir compreensão interna, implica uma propensão para penetrar nas entranhas de outra pessoa”.

                                                                     Sharpe, 1930, por  R. Greenson – (p.441 – f)

 

Pode o analista, investigar as áreas desconhecidas do paciente a fim de superar as suas próprias ansiedades. Dessa forma, o psicanalista poderá, sempre com muita experiência cumulativamente adquirida, pelos diferentes estágios e patologias de seus pacientes, somando-se as suas próprias dúvidas pessoais, ter mais facilidade em transmitir segurança aos seus pacientes e clientes.

 

Não podemos esquecer que um dos deveres do psicanalista, é o de se comportar para o paciente como uma tela vazia, relativamente não-reagente, de tal forma que este possa projetar e deslocar para aquela tela as imagens não solucionadas e reprimidas do passado.

 

Alguns psicanalistas, devido a educarem-se em se manter como telas vazias, para facilitar a transferência dos pacientes, demonstram uma grande tendência e propensão ao isolamento, retraimento e não envolvimento. Ocorrem dificuldades  no trabalho analítico, quando os psicanalistas ultrapassam os limites da normalidade à esta assertiva, sendo incapazes de mudar sua atitude e técnica no momento em que a situação analítica assim o exige.

 

Na atualidade, nossas pesquisas já conseguiram demonstrar eficiência na própria perspectiva em relação a utilização de instrumentos técnico-terapêuticos para determinadas situações onde é necessária uma maior interatividade do  psicanalista em relação ao paciente. A esta ramificação da psicanálise, de procedimentos especiais à canalização e redistribuição das energias libidinais, chamamos de psicanálise instrumental, utilizada somente por Mestres; Ph.Ds. e Livres Docentes em Psicanálise Clínica.

 

Na psicanálise clássica,  a capacidade para reprimir firmemente a busca do paciente por gratificações sintomáticas é crucial para o desenvolvimento da neurose de transferência. Na Psicanálise Instrumental, há uma preocupação em que se canalize e redistribua tais energias (libinocinergética). Concomitantemente, o psicanalista transfere as energias canalizadas para os seres de interesse do paciente e mesmo para ideais e objetivos do mesmo.

 

Se faz necessário, para a utilização do método supra, a condição de Mestre ou Ph.D em Psicanálise Clínica, com curso específico para  o domínio das técnicas clínicas que envolvem este procedimento, bem como, a familiarização com a postura ética e formal à esta abordagem. Para este procedimento, não basta uma aliança de trabalho entre o psicanalista e o paciente, se faz necessário, uma preparação teórica do paciente e a assinatura de um termo aditivo à psicanálise instrumental.

 

COMPONENTES BÁSICOS DA PSICANÁLISE

 

Apresentamos dois componentes básicos do trabalho de um analista:

 

-         funcionar  como coletor e transmissor de compreensão interna;

-         comportar-se de maneira a se transformar numa tela relativamente vazia para a neurose de transferência do paciente.

 

Como o enunciado dos dois pontos por si mesmos falam, não sentimos a necessidade de aprofundar tais conceitos elementares e básicos, de fácil interpretação e aplicabilidade na situação psicanalítica.

 

(...) O psicanalista, não é o clínico ideal para o tratamento de situações de emergência nem é aconselhável  como “pronto-socorro” psiquiátrico, Todavia, encontrando-se o psicanalista diante a situações de emergência, é necessário fazer alguma psicoterapia não-analítica (...)         

                                                          ( Ralph. Greenson, p. 448 – f )

 

Sempre após  uma intervenção de urgência, deve o psicanalista avaliar o ego racional do paciente,  estudando a possibilidade da administração  ou retorno ao método puramente psicanalítico. É importante evidenciar a perspectiva sempre presente de o paciente,  dependendo do método utilizado na situação emergencial, colocar-se inconsciente e deliberadamente naquela mesma condição, exigindo do psicanalista, intervenções e procedimentos semelhantes. Sobretudo, isto ocorre, quando o paciente sente gratificação na práxis-equilibradora, capaz de resgatar seu ego racional. Sabe  poder se deixar levar àqueles estados primitivos de liberação de emoções, por comprovar, experimentalmente, ser o psicanalista capaz de reconstituir-lhe o equilíbrio.

 

Com bases na perspectiva de retornos consecutivos do paciente à estados neuróticos, por confiança no psicanalista, se faz necessário retornar-se a práxis-psicanalítica, sempre, com a maior urgência, evitando o que chamamos de linearização neurótica  - quando o paciente se mantém por muito tempo sob o domínio de um ego irracional, o que o colocaria na condição de não analisável. Exatamente isto deve lhe ser dito;  - que a sua insistência na fuga da condição ego-racional, pode deixá-lo definitivamente a margem da razão propiciada por um ego-racional, capaz de entender,  se fazer entender,  aprofundar buscas e esclarecimentos, confrontar conceitos e atrever-se caminhar sob a régia luz em busca da verdade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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